<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062</id><updated>2011-11-30T18:41:55.639-03:00</updated><title type='text'>Sociedade das Almas Perdidas</title><subtitle type='html'>Ultimamente não se vê por aí seres humanos; o que encontramos nas vastas terras são os profanos, habitantes das alturas de ferro, e fantoches, trancados nos quartos escuros por trás das cortinas que não querem remover. O que resta, então, são os hereges, as almas perdidas, rondando nos exterior das torres, em derredor do imenso campo enevoado. Onde estão as fronteiras? Onde está o limite? Quando se chega ao além, ao incognoscível?</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>48</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-7757847629703139083</id><published>2011-09-13T18:29:00.005-03:00</published><updated>2011-09-15T01:31:18.211-03:00</updated><title type='text'>Proteus</title><content type='html'>[Tradução experimental de algumas páginas do Proteus, terceiro capítulo do livro "Ulysses" de James Joyce. Nesse capítulo, narrado ora em terceira, ora em primeira pessoa, o personagem Stephen Dedalus caminha na praia pensando em diversos assuntos, e a narrativa segue o fluxo de seus pensamentos, geralmente sobre filosofia e arte, nem sempre tão compreensíveis e às vezes sem nexo aparente. Mas é um capítulo interessante, de qualquer forma. E com notas lá no final para parecer menos doido~]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inelutável modalidade do visível: ao menos isso se não mais, pensado através de meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, desova marítima e escombro marítimo, a maré aproximante, aquela bota enferrujada. Verde-fleuma, prateado-azul, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: em corpos. Então ele percebia os tais corpos antes dos tais coloridos. Como? Batendo a cabeça contra eles, claro. Vá com calma. Careca ele era e um milionário, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;maestro di color che sanno&lt;/span&gt;. Limite do diáfano dentro. Por que dentro? Diáfano, adiáfano. Se você pode colocar seus cinco dedos através dele, é um portão, se não, uma porta. Feche seus olhos e veja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stephen fechou os olhos para ouvir suas botas esmagarem escombros e conchas fissurando-se. Você está caminhando por isso de algum qualquer modo. Estou, um passo largo por vez. Um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço. Cinco, seis: o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nacheinander&lt;/span&gt;. Exatamente: e essa é a inelutável modalidade do audível. Abra seus olhos. Não. Jesus! Se eu caísse de um penhasco que sobrepende de sua base, caísse através do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nebeneinander&lt;/span&gt; inelutavelmente. Estou prosseguindo bem no escuro. Minha espada de pó balança ao meu lado. Tateie com ela: eles tateiam. Meus dois pés nas botas dele estão no final da perna dele, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;nebeneinander&lt;/span&gt;. Soa sólido: feita pela marreta de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Los Demiurgos&lt;/span&gt;. Estou caminhando para dentro da eternidade ao longo da praia de Sandymont? Quebra, craque, crique, crique. Dinheiro do mar selvagem. Dominie Deasy conhece-as todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Não virás a Sandymount,&lt;br /&gt;Madeline a égua?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ritmo começa, você vê. Eu ouço. Um tetrâmetro cataléctico de iambos marchando. Não, a galope: &lt;span style="font-style:italic;"&gt;delineiem a égua&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abra seus olhos agora. Abrirei. Um momento. Tudo desapareceu desde então? Se eu abrir e ficar para sempre no negro adiáfano. &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Basta!&lt;/span&gt; Verei se posso ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja agora. Eis todo o tempo sem você: e sempre será, mundo sem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas vieram descendo os degraus do terraço de Leahy prudentemente, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Frauenzimmer&lt;/span&gt;: e descendo a inclinante margem flacidamente seus pés desajeitados afundando na areia sedimentada. Como eu, como Algy, descendo para nossa poderosa mãe. A número um balançava pesadamente a sua bolsa de parteira, a sombrinha da outra fincada na praia. Vindo das liberdades, de folga pelo resto do dia. A Sra. Florence MacCabe, supérstite do falecido Patk MacCabe, profundamente lamentado, de Bride Street. Uma das de sua irmandade puxou-me guinchando para a vida. Criação a partir do nada. O que ela tem na bolsa? Um aborto com um cordão umbilical pendurado, acolhido numa gaze rosada. Os cordões de todo elo de volta, cabo fibritrançante de toda carne. É por isso que os monges místicos. Sereis como deuses? Olhai dentro de seus onfalos. Alô. Aqui é Kinch. Ligue-me com Edenville. Aleph, alpha: zero, zero, um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esposa e parceira ajudante de Adam Kadmon: Heva, nua Eva. Ela não tinha umbigo. Olhe. Ventre sem defeito, protuberando grande, um broquel de velino esticado, não, trigo alvimontoado, oriente e imortal, situando-se de sempiterno em sempiterno. Ventre de pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ventrado em escuridão de pecado eu fui também, feito não criado. Por eles, o homem com minha voz e meus olhos e uma mulher-fantasma com cinzas no hálito. Eles se engancharam e dividiram, cumpriram a vontade do acasalador. Desde antes dos tempos Ele me quis e que não me queira afastar agora nem jamais. Uma &lt;span style="font-style:italic;"&gt;lex aeterna&lt;/span&gt; permanece junto a ele. É essa então a divina substância na qual o Pai e o Filho são consubstanciais? Onde está o pobre caro Ário para tentar conclusões? Guerreando por toda a vida na contransmagnificandexplosãojudaicatancialidade. Heresiarca mal-horoscopizado. Num lavabo grego ele respirou seu último respiro: eutanásia. Com mitra de gemas e com báculo, assentado sobre seu trono, viúvo de uma cátedra viúva, com o omofório rijo, com a popa coagulada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ares romperam ao seu redor, ares cortantes e ávidos. Elas estão vindo, ondas. Os cavalos-marinhos de crina branca, mordendo as rédeas de vento cintilante, os corcéis de Mananaan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não devo esquecer a carta dele para a imprensa. E depois? O Navio, meia dúzia. A propósito, vá com calma com aquele dinheiro como um bom jovem imbecil. Sim, eu devo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu passo afrouxou. Aqui. Vou para a casa da tia Sara ou não? A voz do meu pai consubstancial. Viu alguma coisa do seu irmão artista Stephen ultimamente? Não? Ele não está mesmo no terraço de Strasburg com sua tia Sally? Ele não podia voar um pouco mais alto que aquilo, hein? E e e e nos diga, Stephen, como está o tio Si? Ó Deus pranteante, as coisas em que me meti. Us meninos lá em cima nu palheiro. O pequeno contador bêbado e seu irmão, o tocador de corneta. Gondoleiros altamente respeitáveis. E o Walter de olho oblíquo dizendo senhor ao pai, nada menos. Senhor. Sim, senhor. Não, senhor. Jesus chorou: e pudera, por Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxo a campainha chiante do chalé deles com persianas fechadas: e espero. Eles me tomam por um pardo, espiam de um cunhal vantajoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É Stephen, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixe-o entrar. Deixe Stephen entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ferrolho afastado e Walter me dá as boas-vindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pensamos que era outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua larga cama tio Richie, entre travesseiros e lençóis, estende sobre o montículo de seu joelho um robusto antebraço. Torso limpo. Ele lavou a metade de cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Dia, sobrinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deixa de lado a caderneta portátil em que esboça as contas de custas para a apreciação de Mestre Goff e Mestre Shapland Tandy, preenchendo consentimentos e buscas comuns e um mandado de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Duces Tecum&lt;/span&gt;. Uma moldura de carvalho fóssil sobre sua cabeça calva: o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Requiescat&lt;/span&gt; de Wilde. O zumbido de seu assovio extraviante traz Walter de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Malte para Richie e Stephen, diga à mãe. Cadê ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Banhando Crissie, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parceirinha de leito do papai. Torrão de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, tio Richie...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Chame de Richie. Maldita seja sua água mineral. Ela diminui. Uísque!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tio Riche, realmente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sente-se, ou pelo diabo, vou derrubá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Walter estreita os olhos em vão em busca de uma cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele não tem onde sentar, senhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele não tem onde pôr, seu cara de careta. Traga a nossa cadeira de Chippendale. Vai querer uma mordida de alguma coisa? Nada de suas besteirinhas aqui; uma riqueza de toucinho frito com arenque? Certeza? Tanto melhor. Não temos nada em casa além de pílulas contra dores nas costas.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;br /&gt;All’erta!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele zumbe compassos da &lt;span style="font-style:italic;"&gt;ária de sortita&lt;/span&gt; de Ferrando. O maior número, Stephen, na ópera inteira. Escute.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu assovio melodioso soa outra vez, otimamente sombreado, com corredeiras do ar, seus punhos megatamboreando sobre seus joelhos almofadados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento está mais doce. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "maestro di color che sanno" (mestre daqueles que sabem): Referência a Aristóteles, conforme descrito por Dante no Canto IV da Comédia. O primeiro parágrafo trata das teorias dos sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-"Se você pode colocar seus cinco dedos através dele, é um portão, se não, uma porta": Paródia de uma definição de Samuel Johnson no Dicionário da Língua Inglesa -- "Porta é usado para casa, e portões para cidades e edifícios públicos, exceto em caso de licença poética."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "Meus dois pés nas botas dele estão no final da perna dele": dele = Buck Mulligan, a quem pertenciam as botas, que ficaram com Stephen depois que Mulligan jogou fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "Los Demiurgos. Estou caminhando para dentro da eternidade": Referência à obra de William Blake, na qual a entidade Los personifica a força criadora da imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "Dinheiro do mar selvagem": conchas. Shells era uma gíria para dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- "ares cortantes e ávidos": nipping and eager airs, expressão shakesperiana usada por Horácio enquanto vigia à espera da aparição do fantasma do pai de Hamlet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-"espiam de um cunhal vantajoso": coign of vantage, outra expressão usada por Shakespeare, na cena em que Duncan e Banquo se aproximam do castelo de Macbeth.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-7757847629703139083?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/7757847629703139083/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=7757847629703139083' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/7757847629703139083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/7757847629703139083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/09/proteus.html' title='Proteus'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-6617886018728754021</id><published>2011-05-13T20:59:00.004-03:00</published><updated>2011-05-13T23:30:07.331-03:00</updated><title type='text'>"Slides de Lanterna" Felinos</title><content type='html'>Céli se escondendo embaixo da arquibancada de madeira no ginásio da escola, para ler romances longos durante a aula de educação física. Algumas vezes o professor o surpreendia em seu esconderijo e o fazia correr em torno da quadra até o final da aula, mas ele não se importava, desde que não tivesse de jogar futebol com os outros garotos. Correr em torno da quadra era consideravelmente melhor do que correr de um lado para o outro fingindo jogar.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A professora Simplícia não se incomodava que os alunos fossem terrivelmente ruins em física, mas realmente pressionava aqueles que fossem ruins em matemática. "É uma questão de pureza, a matemática é a ciência mais pura de todas", ela costumava dizer sobre a diferença. "Deve ser por isso que as aulas dela de matemática parecem um campo nazista", pensou Céli. Ele gostava das aulas dela de física, porém.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli sentado no ginásio, fingindo ler Der Tod in Venedig enquanto espera a chuva passar, mas na verdade observando Pablo jogar basquete sozinho. Eles nunca se falaram antes, e Céli estava reunindo coragem para entrar na quadra e pedir para jogar também.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli e seu amigo humano helênico Coden no topo de uma montanha. "Xenofonte passou por esse mesmo lugar, em tempos remotos", disse Coden respeitosamente. Dali eles podiam enxergar o mar. Céli avançou e gritou "Thálassa! Thálassa!" apenas para saber como era a sensação.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No juizado da infância e da juventude, depois de ser pego pichando um prédio, Céli assinou o termo de ocorrência com "SPx". O juiz pediu ao secretário que imprimisse outra cópia e disse a Céli austeramente: "Desta vez assine com o seu nome, não com sua marca de gangue." Céli ficou ultrajado: "Essa porra é a minha rubrica. Por que a assistente social, o secretário e tu mesmo podem rubricar e eu não? Tenho um nome complicado e uma caligrafia horrível, sabe..."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-6617886018728754021?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/6617886018728754021/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=6617886018728754021' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6617886018728754021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6617886018728754021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/05/slide-de-lanterna-felinos.html' title='&quot;Slides de Lanterna&quot; Felinos'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-6725935655448868749</id><published>2011-04-11T03:10:00.002-03:00</published><updated>2011-04-11T03:12:28.640-03:00</updated><title type='text'>Soneto</title><content type='html'>É penitente a febre com que escrevo&lt;br /&gt;Na madrugada insone de euforia.&lt;br /&gt;Queimando a superfície em letra esguia&lt;br /&gt;O punho corre no papel longevo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palavra após palavra forma um trevo&lt;br /&gt;Cruzando alma inflamada e mente fria,&lt;br /&gt;Bravo furor e plácida harmonia,&lt;br /&gt;O que devo escrever e o que não devo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro imaginar o som do vento.&lt;br /&gt;Caminha o tempo relutante e lento&lt;br /&gt;Enquanto em devaneio fico imerso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suaves são a noite e o pensamento&lt;br /&gt;No abismo de silêncio onde eu tento&lt;br /&gt;Criar das próprias mãos outro universo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-6725935655448868749?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/6725935655448868749/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=6725935655448868749' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6725935655448868749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6725935655448868749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/04/soneto.html' title='Soneto'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-8810776450208652819</id><published>2011-01-23T03:55:00.004-03:00</published><updated>2011-01-23T03:58:58.083-03:00</updated><title type='text'>Felino e Pablo (cont.) - 2</title><content type='html'>Como Céli não tinha nenhuma idéia em mente, foi convidado à casa de Pablo, que não era tão longe dali. Embora a ocasião de ser convidado à casa de outra pessoa lhe fosse muito estranha, Céli ainda achava melhor do que voltar para aquele instituto nojento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entraram por uma rua calma e não muito larga, que Céli não conhecia. A certa altura, ele começou a imaginar se teria sido uma boa idéia esgueirar-se para a casa dos outros em vez de tratar de seus próprios assuntos. Tinha coisas para ler, e sentia que tinha dívidas no estudo do helênico. Além disso, tinha o receio de entediar Pablo com sua companhia, depois de já tê-lo privado de jogar basquete com os amigos verdadeiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final das contas, a casa parecia pequena à primeira vista, mas Céli achou bem confortável o interior, principalmente depois da caminhada sob o sol da tarde. Ao entrarem pela porta da cozinha, sentiu cheiro de peixe frito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Parece que o meu pai não está– disse Pablo–, mas deixou almoço. Quer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um pouco, creio– murmurou Céli, enxugando o suor do rosto com a camisa.– Preciso lavar a cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É, vamos deixar as coisas lá em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiram para o quarto de Pablo no andar superior. Ao contrário de seu quarto mal projetado e empoeirado no instituto, Céli notou que entrava uma forte corrente de vento pela janela do quarto de Pablo. Os dois deixaram suas mochilas em um canto, e Céli ficou feliz por livrar-se do peso nas costas. Se estivesse em casa, teria tirado os sapatos e a camisa e se estendido longamente na cama, mas não tinha muita certeza de como se comportar em casa alheia, então apenas ficou parado olhando ao redor enquanto Pablo guardava os sapatos e procurava outra roupa no bagunçado guarda-roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vai ficar de sapato aqui dentro, mano?– inquiriu Pablo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sei lá. Deixo por aí?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Junto com a mochila. E não ia se lavar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli foi até a torneira do banheiro para limpar os braços e o rosto. Não precisava fechar a porta, mas o fez assim mesmo, e ficou durante algum tempo encarando a própria figura no espelho da parede. Em seu alojamento no instituto não havia espelho, e ele não sentia muito a falta de um, mas naquele momento ele se manteve contemplando seu reflexo para avaliar se estava parecendo muito ridículo; ou se pareceria quando saísse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pablo bateu na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pretende passar o resto do dia aí dentro, mano? Pensei que felinos não gostassem de água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Detestam, ainda mais quando não tem toalha– disse Céli, porque não havia mesmo uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ih. Calma aí, vou trazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli abriu a porta e logo Pablo lhe deu uma toalha, mas não antes de rir de como ele ficava quando tão molhado, os cabelos bagunçados cobrindo-lhe o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei qual é a graça– resmungou Céli, enxugando-se e ajeitando os cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nem eu sei, mas não tem como evitar– riu Pablo, e em troca Céli atirou-lhe na cara a toalha molhada.– Agora dá o fora do meu banheiro, preciso de um banho. Pode ligar a televisão, se quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Pablo se fechou no banheiro, Céli, que não tinha vontade de assistir televisão, nem mesmo o hábito, foi até a janela para sentir o forte vento. Dali conseguia enxergar a quadra de basquete a certa distância, pois o bairro de Pablo tinha o relevo um pouco acima dos circunvizinhos; e como praticamente não havia prédios altos nas proximidades, devido à proibição de construí-los na região da orla fluvial, a circulação do vento era intensa. Ele sentia o ar correndo agradavelmente por dentro das roupas. Minutos depois, quando Pablo saiu do banho, Céli ainda estava absorto diante da janela, deixando a barulhenta corrente de vento levar seus pensamentos para longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que está fazendo aí, mano?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hum? Nada não. Aqui tem um vento bom, e tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Uma das poucas coisas boas de morar nessa parte da cidade. Precisa de um banho também? Posso te emprestar uma roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nem preciso, ainda vou ficar um tempo na rua mais tarde. E também não sei se as tuas roupas serviriam em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provavelmente ficariam meio folgadas porque, como Pablo depois do banho ficou apenas de bermuda, Céli notou que ele tinha porte mais atlético do que o semi-humano percebera até então -- o que lhe trouxe de volta, por um momento, a conhecida sensação de inferioridade em relação ao amigo de músculos mais definidos. Mas Céli não podia esperar outra coisa, afinal não era ele próprio o esportista habitual, e não estava certo de querer tornar-se tão cedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Devem ficar meio folgadas– opinou Pablo com a melhor das intenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É– concordou o felino em seu resmungamento de costume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de almoçarem, os dois jogaram videogames de luta até perto do final da tarde, Céli conseguindo um placar bastante favorável. Então pelo menos era páreo para Pablo virtualmente, pensou ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vou admitir, mano, pensei que não soubesses jogar isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que não se pode ser ruim em tudo, ocorreu a Céli responder, mas o que ele bem-humoradamente disse foi: – E eu pensei que tu soubesses.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-8810776450208652819?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/8810776450208652819/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=8810776450208652819' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/8810776450208652819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/8810776450208652819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/01/felino-e-pablo-cont_23.html' title='Felino e Pablo (cont.) - 2'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-402682912571859357</id><published>2011-01-19T02:11:00.004-03:00</published><updated>2011-03-22T14:20:01.358-03:00</updated><title type='text'>Felino e Pablo (cont.)</title><content type='html'>Se havia alguma coisa na qual Céli era pior do que em basquete, era matemática. Por isso, na altura em que definitivamente desistiu de tentar acompanhar a aula de logaritmos, começou a rabiscar em seu caderno, tentando desenhar algo. Não que fosse muito bom nisso, também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro tentou desenhar um zepelim, e não teve sucesso. Riscou completamente o desenho e virou para uma página em branco. Sem inspiração para tentar outro péssimo rabisco, tentou prestar atenção à aula. Logaritmo? Lógos, a língua helênica. Voltou-se para o caderno e garranchou λóγος na página em branco. Sua caligrafia não era lá muito bonita nem no alfabeto helênico, verdade seja dita. Não obstante, ele debruçou-se e continuou a rabiscar tediosamente: ‘Eν ’αρχñ ’ñν ‘o λóγος. Até que não ficou mal. Animou-se dessa forma a continuar escrevinhando,  καì ‘o λóγος ’ñν  πρòς τòν... e acabou encontrando um obstáculo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Céli! Por que não está prestando atenção?– chamou de longe a voz da professora, que estava logo diante da mesa de Céli.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou escutando, e tudo– arrastou o garoto preguiçosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tem certeza? Então qual foi a última coisa que eu disse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estava dizendo que a origem do termo são os helênicos lógos e ’arithmós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu disse isso há vinte minutos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É? Que coisa. Então isso prova de uma vez por todas que o tempo é mesmo relativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças ao comentário, acabou ficando de castigo depois da aula, mas como a professora ensinava também física, acertou as contas fazendo-o estudar a teoria da relatividade em vez de logaritmos. No entanto, não demorou muito e ele começou a divagar outra vez, pois o exemplo dos trens usado por Einstein em seu texto para demonstrar o princípio da simultaneidade fez Céli voltar o pensamento para os trens de David Lean. Tentou rabiscar um trem atravessando uma ponte sobre um rio. Lógos. Einstein não pensava em palavras, e Céli não conseguia segui-lo muito bem na abstração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem, Céli, já pode ir– anunciou a professora algum tempo depois, enquanto guardava o próprio material para ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ir aonde? Não tenho o que fazer lá fora mesmo. Além disso, gostei desse artigo. Agora que comecei a ler, tenho que terminar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode levar o livro, se quiser, desde que devolva na próxima aula. Aproveite e estude os outros físicos também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli ainda teria muitos outros físicos para estudar pelo resto do ano, de qualquer forma... Einstein, Zweistein, Dreistein e os demais. Klasse, einfach wunderbar, ele pensou. Aceitou a proposta de levar o livro emprestado, mas era verdade que não tinha muita vontade de sair da sala silenciosa e vazia para um pátio cheio de alunos. Se tivesse saído no horário normal teria a esperança de encontrar Pablo em algum lugar lá fora, mas àquela altura ele provavelmente já teria ido. Sem escolha, guardou o livro e o caderno na mochila e saiu da sala para o barulhento corredor. Não sentia vontade de almoçar, muito menos de voltar para o instituto e passar o resto do dia fechado em seu quarto. Por outro lado, não tinha nenhum pretexto para ficar na rua. Foi tediosamente arrastando os pés até a saída do colégio.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sua surpresa, encontrou Pablo esperando-o na rua. Disfarçou com um indiferente aperto de mão o quanto ficou feliz em vê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ficou preso depois da aula, mano? O que fez agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Merda nenhuma, só provei a teoria da relatividade à professora Simplícia. Hoje em dia isso dá meia hora de castigo em vez de um Nobel. E tu, hun? Pensei que já tivesses ido faz tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nada, resolvi esperar. Ainda quer jogar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Contigo? Depois daquele dia, não sei, não. Além do mais, deves ter visto que eu não acerto nem jogando sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixa disso, eu ensino. Não vai ter nada a fazer pelo resto do dia, vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É– resmungou Céli, e aceitou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram quase duas horas da tarde e fazia um tempo extremamente quente. Foram os dois caminhando de volta até a quadra, alguns quarteirões adiante, sem trocar muitas palavras. Não que Céli estivesse outra vez mal-humorado, apenas intrigado por Pablo tê-lo esperado, além de que ainda pensava no desastroso último jogo no qual cometera a suma imbecilidade de entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegaram mais perto da quadra, Céli xingou ao perceber que estava ocupada, e como se não bastasse, os ocupantes eram o pessoal do Hector, um arruaceiro com quem Céli não tinha o mais cordial dos tratamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Saco. A última coisa que eu preciso é pisar numa quadra com aquele sujeito uma segunda vez na vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não vai me dizer que tem medo dele– cutucou Pablo para saber a reação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu já teria amassado a fuça daquele xorume mal disfarçado de gente, se ele não andasse sempre com mais cinco. Eu queria saber quanto ele é pago para me encher, porque não consigo imaginar que ele faça alguma coisa de graça com tanta dedicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele enche todo mundo, não se preocupe com isso. Ele não é tão ruim quanto você pensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Virou advogado dele, agora?– retrucou Céli com alguma hostilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, só quero dizer que você está exagerando um pouco, mano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se fosse antes de ele ter atirado os meus livros na vala, ou de ter me trancado numa sala e jogado a chave no mato, eu também acharia exagero. Quando será que eu posso concluir que ele não presta, quando ele meter a minha cara num sanitário e der descarga? Porque ele tentou fazer isso semana passada, sabia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não sabia de nenhuma dessas coisas. Por que não procurou a diretoria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até parece. Se eu contasse, o mais provável seria o diretor abrir pessoalmente a porta do banheiro e estender um tapete vermelho na próxima tentativa do Heitor, porque é amigo do pai dele. Deve ter dinheiros, o pai desse cretino. Além disso, todo mundo ficaria do lado dele, como tu próprio agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como assim eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É claro. Ele é teu amigo, suponho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ele é, mas isso é diferente. Se eu soubesse que ele fazia essas coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não tem importância. Na verdade não é da minha conta, eu nem te conheço faz tanto tempo quanto ele, imagino que tenhas os teus motivos para andar com aquilo. Mas acho que preciso dizer, vê se presta atenção em tipos como ele. É o seguinte...– Mas Céli intuiu que Pablo estava com mais vontade de jogar do que de escutar conselhos sobre que companhias ter, então decidiu pular para o encerramento do assunto:– Porcaria, esqueci o que eu ia dizer. Agora, vou dar um passeio por aí, então até amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli estendeu a mão, mas Pablo, em vez de apertá-la e despedir-se, começou a rir, acertou-lhe de leve um soco no ombro, foi andando, e disse quando Céli o seguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Perdi a vontade de jogar, sabe. Quer fazer alguma outra coisa?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-402682912571859357?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/402682912571859357/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=402682912571859357' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/402682912571859357'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/402682912571859357'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/01/felino-e-pablo-cont.html' title='Felino e Pablo (cont.)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-7745301701310554324</id><published>2011-01-12T23:52:00.005-03:00</published><updated>2011-05-22T13:19:32.713-03:00</updated><title type='text'>"Ministros da Magia"</title><content type='html'>Às vezes pode até parecer, mas um filme não fica pronto por mágica. Alguém precisa ter uma concepção de como serão as cenas, visualmente, emocionalmente, tecnicamente, e passá-las do roteiro para a realidade. O principal encarregado disso é o diretor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa parte do público em geral não se importa com quem dirige os filmes. Talvez por não ter uma noção concreta de onde exatamente faria diferença se este ou aquele diretor fosse responsável pela obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na série Harry Potter, que passou pelas mãos de quatro diretores diferentes, é bastante fácil verificar as particularidades de visão e estilo de cada um. Os sete livros da série compõem uma história criada por uma só autora, J. K. Rowling. Os filmes, por outro lado, são obras criadas diretamente por dezenas de pessoas, e indiretamente por centenas: o roteirista, o diretor de fotografia, o compositor de música, o departamento de arte, equipes de designers, maquiadores, figurinistas, técnicos de som e efeitos especiais, etc, etc. Se cada departamento tabalhasse nas cenas independentemente, e os atores dissessem suas falas como bem entendessem, o resultado seria uma enorme bagunça. É o diretor quem orienta com que forma ficará a obra de toda essa gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada um deles empregou sua estética, sua técnica e seu ritmo para recontar a história de J. K. Rowling no cinema. Vejamos como.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Chris Columbus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao começarem as negociações com a Warner Bros. para adaptar o maior best-seller dos últimos tempos, vários diretores conhecidos se propuseram a comandar a superprodução. Na lista de interessados estavam nomes como Terry Gilliam (Monty Python e o Cálice Sagrado), Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes), Wolfgang Petersen (A História sem Fim), Tim Burton e Steven Spielberg, sendo esse último o mais cotado para dirigir Harry Potter e a Pedra Filosofal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, divergências com os produtores e J. K. Rowling – que faziam questão de um elenco britânico e um filme bastante fiel ao original – tiraram Spielberg da questão, e quem assumiu o cargo foi o também americano e bem menos experiente Chris Columbus, o qual conheceu o livro através da filha e, em uma reunião com o produtor David Heyman e executivos da Warner, explicou-lhes a sua visão da história, convencendo-os a colocá-lo no cargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um lado, o currículo de Columbus, conhecido como diretor de filmes-família (sendo que seu maior hit havia sido Esqueceram de Mim, filme-família por excelência), não era um grande indício de que ele estaria à altura do desafio. Por outro, ele parecia condizer com uma aventura infantil como o primeiro Harry Potter, embora os temores de que ele pudesse infantilizar em excesso filme fossem justificados. Os pontos que mais contaram a favor de Columbus para ganhar a preferência da produção e de J.K. Rowling, entre tantos diretores, parecem ter sido o seu comprometimento em fazer um filme fiel ao original, e a sua habilidade em trabalhar com atores crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final das contas, a direção de Chris Columbus em A Pedra Filosofal atendeu bem às expectativas do público: a maior parte dos fãs da obra literária afirma que, de todos os diretores, Columbus foi o que mais pôs na tela exatamente aquilo que imaginaram ao ler o livro. Para a crítica, isso é o ponto forte e o ponto fraco do filme, pois ao mesmo tempo em que agrada o público-alvo, tanta fidelidade ao livro faz com que seja um filme sem surpresas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, Columbus preservou a fidelidade ao original desejada por Rowling, tentando manter o máximo possível de elementos do livro, sem desenvolver algum em particular como linha dramática, preocupando-se menos em condensar do que transpor o mais literalmente possível do livro tudo que coubesse em um filme de duração normal. Segundo Columbus, para caber o livro inteiro seriam necessárias quatro ou cinco horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contentando-se com duas horas e meia mesmo, o diretor apresenta um passo-a-passo inicial no mundo bruxo de J. K. Rowling utilizando um visual limpo, com a fotografia calorosa e a trilha sonora ora melódica, ora vibrante (Columbus dizia ao compositor John Williams exatamente que emoção esperava que a música de cada cena tivesse), construindo um belo senso de deslumbramento e fantasia. Suas instruções ao departamento de arte foram no sentido de que Hogwarts parecesse um lugar que fora criado por magia e existisse desde sempre, e como resultado o ambiente tem um ar atemporal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Columbus emprega planos bastante tradicionais de Hollywood, do enquadramento até a montagem as cenas têm um andamento estável, sem grandes variações de estilo e ritmo narrativo. O diretor não sobrecarrega as cenas com informações, evita mostrar muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, e emprega composições visuais com bastante objetividade: cada elemento que vemos na tela é auto-explicativo e conduz diretamente ao objetivo da cena. As atuações são contidas, sem excessos emocionais e adstritas ao tipo de cada personagem e sua função na história. É com essa objetividade que conhecemos Hogwarts e os personagens que ali vivem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Harry Potter e a Câmara Secreta, cuja produção começou imediatamente após o encerramento de Pedra Filosofal, Chris Columbus segue como diretor e retoma o mesmo esquema. No segundo filme, embora tenha basicamente o mesmo corpo do primeiro, Columbus procura um tratamento diferente: cenas mais incisivas e com menos deslumbramento do que o filme anterior, alguns ângulos menos convencionais, como tomadas inclinadas, e movimentos de câmera mais livres e ágeis. Um motivo presumível de se usar mais câmera na mão do que no primeiro filme é que, segundo o diretor, tentou-se dar a impressão de um movimento de serpente, o que é evidenciado nos momentos em que Harry escuta a voz do basilisco e a câmera se esgueira nas paredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o crescimento dos personagens, Columbus não teve dúvida de que o segundo filme deveria ser mais sombrio, e pediu ao diretor de fotografia imagens mais escuras. Por isso, na tela não nos deparamos apenas com cenários pouco iluminados, como também cantos e extremidades escuras e entradas com aparência abissal. Até a água dentro da Câmara Secreta foi tingida de preto para favorecer essa impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando o fato de estar mais obscura, Hogwarts e os personagens que ali moram continuaram essencialmente na mesma. A concepção dos personagens e a forma de dirigir os atores se mantém, bem como os temas e o espírito da trilha sonora, além do encerramento ameno com a câmera se afastando para um plano geral do castelo. Mudanças essenciais vieram com o diretor do filme seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Alfonso Cuarón&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a saída de Columbus, que embora continuando como produtor deixou vago o cargo de direção para dedicar mais tempo à família, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban foi entregue a um novo diretor. Uma escolha nem um pouco previsível para continuar um trabalho que começou com o estilo ordeiro e polido de Chris Columbus: ao contrário deste, o mexicano Alfonso Cuarón era conhecido por um filme adulto, E a Sua Mãe Também, com o qual recebeu a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Cuarón inicialmente recusou a proposta, mas voltou atrás após ler os livros de Rowling por insistência do amigo Guillermo del Toro. E ao contrário do que se espera em uma grande franquia, Cuarón teve ampla liberdade para imprimir certa marca autoral ao filme e se permitir amplas intervenções criativas. Não procurou fazer igual nem diferente do antecessor, apenas fazer o filme do seu jeito. Ele próprio disse em entrevista que filmar Prisioneiro foi como fazer um filme independente com um orçamento gigantesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A adaptação de Cuarón é menos literal que a de Columbus: Prisioneiro se afirma como filme, e não como suplemento do livro. Pela duração de “apenas” 142 minutos (sendo o filme mais curto que os antecessores), nota-se que Cuarón não pretendeu enfiar na montagem final o máximo possível de material, e sim o que importasse para a consistência daquele filme específico, ainda que respeitando as expressas restrições de Rowling quanto ao que poderia ou não ser incluso ou retirado de modo a afetar os próximos episódios, concentrando a história no ponto de vista de Harry e eliminando sem dó as diversas explicações acessórias e subtramas. Mesmo lamentando os cortes, o produtor David Heyman admite que essa decisão “ajudou a estabelecer uma estrutura mais cinematográfica”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez da magia acolhedora do diretor anterior, Cuarón opta por um tom mais excêntrico. Criaturas típicas de filmes de fantasia dão lugar a figuras mais familiares ao gênero horror. Por exemplo o barman d’O Caldeirão Furado, Tom, que no primeiro filme era um carismático velhinho, na visão de Cuarón virou uma espécie de Quasímodo, e surgiram seres grotescos como o carrasco deformado e as Cabeças Encolhidas. Hogwarts ganhou uma nova ambientação— e muito mais contornos: além de os terrenos serem mais cheios de declives, o visual do filme é repleto de curvas irregulares na arquitetura dos cenários e nos objetos de cena, além de muitos momentos com chuva e neblina, possivelmente para criar uma atmosfera abstrata (Cuarón elogiou o fato de o livro lidar com “conceitos abstratos”, como viagens no tempo) e por vezes inquietante, à maneira do estilo expressionista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio modo de filmar e editar diverge completamente dos filmes anteriores. Ao contrário da objetividade do primeiro diretor, Cuarón acrescenta momentos sem significado imediato, como as cenas aparentemente aleatórias de pássaros sendo despedaçados pelo Salgueiro Lutador-- e que só mais ao final do filme terão um sentido de estar ali. Além disso, no próprio set de filmagem Cuarón já tinha em mente a montagem do filme, por isso gravou menos tomadas, sendo todas mais longas e usando menos câmeras, em vez do procedimento de filmar de diversos ângulos e escolher na edição qual deles usar em cada momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A câmera raramente fica parada, e Cuarón usa movimentos inesperados, como os dois travellings para dentro do espelho na seqüência do bicho-papão, e aquele que acompanha Harry e Hermione para fora da enfermaria até o pátio exterior. O diretor compôs as cenas para tomadas abertas e usando lentes grande-angulares: primeiro, para evitar o uso genérico e sem objetivo do close-up (uso que ele critica nas produções de Hollywood), usando-o apenas quando acha relevante e, ainda assim, com a ressalva de mostrar a aproximação gradativa da câmera ao personagem ou objeto, em vez de instaurar o close-up na edição simplesmente cortando do plano aberto para o próximo (ressalte-se a elaborada transição de uma panorâmica do imenso salão principal, passando através de um coro de estudantes, até um plano médio de Dumbledore, na mesma tomada!); e segundo, para não perder a noção do que acontece em torno de Harry e manter em vista onde todos os personagens estão situados. Por isso, mesmo durante um close podemos nos dar conta da ação acontecendo ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As cores fortes dos primeiros filmes cedem lugar a uma fotografia com tonalidades mais frias, mais iluminações cruzadas e contrastes, dando um ar mais hostil e rústico. A trilha sonora de John Williams acompanha a mudança empregando temas menos melodiosos e mais variados, percorrendo do intimista ao grandiloquente, e até o irônico (característica ausente na música dos primeiros filmes), e destaque-se uso de instrumentos medievais que incorporam a atmosfera exótica do filme. O mundo dos bruxos na visão de Cuarón não denota maravilhamento, e ele trata a fantasia com humor, fazendo rápidas alternâncias entre momentos cômicos e sombrios, e de volta ao estado anterior, na mesma cena: a tensão é mais insinuada do que construída, e freqüentemente destruída como por gracejo; por exemplo, o momento em que Harry chega a um parque soturno, um cão preto espectral sai dos arbustos, e logo em seguida surge o Nôitubus Andante ao som de uma música amena, e se inicia uma sequência em que, embora Harry seja apresentado à figura do fugitivo Sirius Black, prevalece o aspecto cômico da viagem no Nôitibus. As atuações são mais livres e expansivas, sendo os personagens menos comportados, bem como o próprio figurino foi subvertido, deixando de lado o uniforme por trajes mais informais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, em lugar de o filme terminar com o protagonista voando em direção ao horizonte com sua nova Firebolt, encerra com uma tomada bem fechada do rosto de Harry passando pela tela, sendo também a cena de encerramento mais diferente da série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Mike Newell&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a saída de Cuarón, que não se dispôs a trabalhar duas vezes seguidas em uma produção dessa escala, o escolhido para dirigir Harry Potter e o Cálice de Fogo foi Mike Newell, ganhador do BAFTA por “Quatro Casamentos e um Funeral”. O fato de ele ser o primeiro diretor inglês a trabalhar em um Harry Potter, além de ter ele próprio estudado em um internato, levantou expectativas entre os fãs e J.K. Rowling. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, Newell enfatiza no filme a atmosfera de internato, à qual os diretores anteriores não haviam dado tanta atenção assim: ele mostra explicitamente os personagens em situações que nos filmes de Columbus não vinham ao caso, e que por Cuarón foram apenas sugeridas, no que diz respeito a interação dos personagens com o sexo oposto, com outros alunos e com os professores. Vemos pela primeira vez coisas tão comuns em colégios, como alunos formando círculo em torno de uma briga e conversando sobre garotas. Ao mesmo tempo essa característica contribui para o quato filme retornar, especialmente depois do ar inusitado e expressivo de O Prisioneiro de Azkaban, a um modelo tecnicamente mais convencional e artisticamente mais mundano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A direção de Newell é mais parecida com a de Chris Columbus que com a de seu antecessor: segue a mesma estrutura de narrativa, usando planos e cortes ao mesmo estilo, embora de forma menos didática que o diretor dos primeiros filmes. Mas a concepção que Newell apresenta do mundo bruxo é o contrário da magia aurífera e onipresente de Columbus. A fotografia de Cálice de Fogo, feita por Roger Pratt, que trabalhou com Columbus em A Câmara Secreta, tem uma paleta de cores ainda mais fechada e com menos contraste que a de Prisioneiro, predominando ora alguns tons de cinza ou azul-escuro quase monocromáticos, ora um verde-limo desbotado, sendo visualmente mais escuro que os outros filmes. Nesse ambiente, a magia é inserida de uma forma mais cotidiana e menos extraordinária, diferentemente da abordagem deslumbrante de Columbus e a surrealista de Cuarón.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As composições são relativamente mais simples em comparação às de Cuarón, sendo menos amplas, muito menos estilizadas e mostrando menos coisas diversas acontecendo ao mesmo tempo, além de não acrescentar elementos visualmente excêntricos ou planejar transições surpreendentes. Enquanto o diretor de Prisioneiro valorizava o abstrato e o sugestivo, Newell se atém bastante ao concreto e ao explícito ao construir as cenas. Um dos planos mais recorrentes de Newell parece ser um tipo de retrato: vários personagens lado a lado, olhando na direção da tela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À altura do quarto filme já tinha sido considerada a hipótese de dividir um mesmo livro em duas produções cinematográficas, por causa da extensão do livro, mas o diretor optou por fazer apenas um filme, escolhendo os pontos-chave do enredo e eliminando as sub-tramas, dano ao filme um foco. Ou melhor, dois— o ressurgimento do mal e a puberdade dos protagonistas. Newell dá igual importância às sequências sombrias, aos alívios cômicos e à interação dos personagens, os quais ele faz questão de relembrar que entraram na adolescência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na direção de atores, porém, Mike Newell destoa drasticamente não apenas da obra literária, como também dos filmes anteriores, e o resultado causa um estranhamento. É sabido que Newell leu o quarto livro “debaixo de chibatadas”, como ele mesmo declarou, o que explica por que neste filme os personagens têm alguns comportamentos inesperados, como um Dumbledore hiperativo e explosivo, um Voldemort espalhafatoso, um Sr. Crouch inseguro, Snape apelando a dar tabefes nos alunos (e eles achando graça disso), etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. David Yates&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o filme Harry Potter e a Ordem da Fênix foi escolhido como novo diretor o também inglês David Yates – que acabou ocupando o cargo pelo resto da série.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yates vem, principalmente, da televisão: em 2003, dirigiu a aclamada série de thriller político Stage of Play, que lhe rendeu uma indicação ao BAFTA TV Award, e em 2005 foi nomeado ao Emmy Award pelo filme para televisão The Girl in the Cafe, com Bill Nighy. Nesse ano foi escolhido diretor do quinto Harry Potter, devido à admiração de David Heyman por seu trabalho na televisão, bem como do conteúdo político de Ordem da Fênix.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com efeito, Yates tratou com prioridade o enfoque político de Ordem da Fênix. O diretor deu foco a determinados pontos-chave (a relação de Harry com Sirius, o regime educacional de Umbridge e a profecia) e eliminou todos os demais, fazendo do livro mais longo da série o filme mais curto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora se trate de um filme de fantasia, estilisticamente Yates busca uma abordagem mais realista, filmando o mundo mágico de uma perspectiva que ele define como “social-realista” ao mostrar os personagens em conflito com as instituições do mundo bruxo, empregando a fotografia azulada suave e monocromática de Slawomir Idziak que pouco evoca um ambiente de magia. A impressão de realismo é amparada pelas diversas tomadas com câmera na mão, considerada uma das marcas do estilo de Yates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Possivelmente é o diretor que mais procurou conferir através das atuações o elemento dramático dos filmes. É também Yates quem mais se aproveita da edição para contar a história, usando recortes em seqüências não-lineares, como aquela em que Umbridge inspeciona os professores, e resumindo informações em planos-relâmpago, como é o caso da pior lembrança de Snape, contada em cortes velozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, David Yates deixa totalmente de lado o plano de fundo político (por isso eliminando até mesmo a nomeação do novo ministro) e concentra o filme na interação dos personagens. Decidiu fazer o filme mais leve, com mais atenção ao aspecto da comédia romântica, dando-lhe o mesmo peso que os momentos sombrios. Desta vez, com o diretor de fotografia Bruno Delbonnel, afasta-se da abordagem realista e opta por um visual mais estilizado, com tomadas mais específicas (o que significa menos câmera na mão e composições visuais mais elaboradas) e cores mais contrastantes. Yates revela, ainda, a influência de um outro David que é um dos maiores cineastas britânicos, David Lean: a ambientação da seqüência em que Dumbledore encontra o jovem Tom Riddle em um obscuro orfanato evoca a abertura do filme “Oliver Twist” de Lean.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, a divisão de Harry Potter e as Relíquias da Morte em duas partes disponibilizou mais metragem para que Yates pudesse abarcar no filme quase todos os pontos mais importantes do livro. Também deu espaço para o diretor abdicar de sua edição corrida e manter longas cenas de exposição, como os personagens olhando para o horizonte e o monólogo de Rony ao voltar para o grupo. Por se tratar de um filme de estrada, em que Harry, Rony e Hermione passam grande parte do tempo viajando sozinhos, o foco narrativo de Yates, desta vez, foi o trio, razão pela qual as histórias paralelas de Rony e Hermione têm seu lugar na edição final. Por ser novamente um episódio com conteúdo político, Yates até certo ponto retoma o seu “social-realismo”, usando uma fotografia fria e austera, e ainda filmando uma perseguição na floresta com câmera na mão e sem trilha sonora. Outra característica de Yates é achar mais eficiente o silêncio no lugar de música nas cenas culminantes, como faz também no duelo de Dumbledore contra Voldemort no quinto filme, e no breve confronto de Harry e Snape no final do sexto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coube a David Yates o desfecho da série, com Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte II, atualmente em fase de pós-produção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-7745301701310554324?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/7745301701310554324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=7745301701310554324' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/7745301701310554324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/7745301701310554324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2011/01/ministros-da-magia.html' title='&quot;Ministros da Magia&quot;'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-9181503542743813396</id><published>2010-09-02T01:55:00.003-03:00</published><updated>2010-10-11T23:48:44.538-03:00</updated><title type='text'>Madrugando</title><content type='html'>Céli não conseguia acertar muitas vezes. Passara metade da madrugada ou pouco mais tentando lançar a desgastada bola de basquete para dentro da cesta, e percebeu que durante o intervalo entre um e outro acerto daria tempo de executar mais de um concerto de Bach, de preferência o Brandeburguês n° 3, que era a música que ele tinha em mente naquele momento. Não podia culpar a luz rarefeita da quadra na rua mal iluminada e deserta, pois seus olhos de gato enxergavam bastante bem no escuro, e de qualquer forma o argumento não conseguiria justificar um desastroso arremesso de raiva e impaciência para cima de uma laje, tendo Céli precisado escalar uma árvore e pendurar-se pelas pernas em um galho para recuperar a bola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que ele tinha mais prática em escalar do que em basquete. Não achava que tinha muita altura para jogar, mas, de fato, podia se considerar alto para sua idade de catorze anos, e até conseguia saltar melhor que a maioria de seus oponentes humanos, não tanto pelas características de felino, mas pela praxe dia e noite subindo muros. Como era bastante magro e não tinha músculos muito fortes, conforme se via por suas roupas folgadas e sem mangas, a velocidade era o que mais contava ao seu favor em qualquer forma de adversidade. Os calçados velhos não ajudavam a jogar tampouco, e a quadra estava molhada porque caía um fino chuvisco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo caso, seu moral não estava muito mais alto que o ângulo do sol no horizonte logo que começou a amanhecer. Ao se cansar daquilo, jogou com raiva a bola contra a cerca metálica e sentou-se no chão por alguns minutos, pensativo. O fato de não haver ninguém ali para observar o seu péssimo desempenho não lhe fazia a situação sentir menos humilhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se levantou e olhou as horas no pequeno relógio de bolso. Quase na hora da aula, e ele ainda vadiando daquele jeito, chegaria atrasado, e ainda por cima molhado. Fazer o quê? Ele caminhou lentamente até onde jazia a bola de basquete, tomou-a nas mãos, e em uma última e desesperada tentativa, correu batendo a bola na direção da cesta, sentindo que desta vez conseguiria um arremesso e tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que fizesse isso, alguém lhe tomou a bola e arremessou dali mesmo, acertando direto na cesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli deixou escapar um suspiro resignado antes de encarar o motivo em pessoa de toda aquela prática durante a madrugada. Pablo parecia feliz aquela manhã -- como de costume, o que quase fazia Céli sentir-se envergonhado por parecer melancólico e irritado, por isso ele teve a decência de saudar com um relutante sorriso de congratulação o seu amigo humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda não aprendeu isso, mano?– riu Pablo ao apertar a mão do semi-humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É– resmungou Céli.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou-se abraçar por Pablo, embora sentisse vontade de derrubá-lo e dar-lhe uma meia dúzia de pontapés. Talvez o combate físico fosse a única coisa em que se equiparavam, pois Céli tinha a impressão de ser ele o segundo lugar em qualquer outra coisa que disputassem, fosse na quadra de basquete, no tabuleiro de xadrez e até nas notas do colégio. Não que Céli fosse muito competitivo, mas tudo isso somado ao fato de Pablo ser extremamente sociável, enquanto Céli era evitado e dificilmente conseguia manter uma conversa por ter modos inusitados, interesses pouco comuns e não ter o costume de falar muito mesmo, fazia com que algumas vezes ele visse como um rival aquele que era um de seus poucos amigos. Ademais, achava que, como Pablo tinha vários outros amigos além dele, nunca estaria no mesmo nível deles, a menos que mostrasse que poderia ser tão bom quanto ele em alguma coisa. Ainda não tinha chegado lá, porém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então, vai ficar aqui e chegar atrasado de novo, ou quer ir comigo até o colégio?– perguntou o garoto humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli não sabia se estava atrasado ou não, pois a chegada triunfal de Pablo lhe fizera esquecer as horas, pelo que ele precisou verificar novamente o relógio de bolso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fica parecendo algum tipo de lorde andando com esse relógio, mano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É porque roubei de um– disse Céli. Não era verdade, e Pablo sabia, mas Céli nunca tinha contado a origem daquele relógio caro, a única coisa de aparência remotamente aristocrática que ele possuía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em verdade, Céli não era preocupado com a aparência, pouco se importando de usar roupas folgadas até desbotarem de velhas, por vezes rasgadas aqui e ali. Por outro lado, não deixava de sentir certo tipo de incômodo ao constatar que Pablo, mesmo não sendo visto sempre por aí com roupas novas, ainda assim era muito mais apresentável que ele. Pelo menos era o que tudo indicava, já que Pablo sempre tinha alguém a lhe elogiar a aparência, enquanto Céli tinha uma lacuna nesse sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli guardou a bola na mochila e os dois foram caminhando juntos para o colégio, Céli lacônico e com as mãos nos bolsos, chutando pedrinhas para dentro das valas e respondendo “hum... é” quando Pablo lhe comentava algo. Dois ou três quarteirões adiante, seu sentimento de rivalidade em relação ao amigo humano havia desaparecido quase inteiramente, e seu humor tornou-se mais ameno, começando a pelo menos responder com frases de mais de um período, no lugar de réplicas secas, quando passaram a conversar sobre filmes. Pouco mais em frente, Céli já estava enumerando motivos para Pablo assistir aos filmes de David Lean o quanto antes. Ao chegarem à rua do colégio, era Céli quem tinha um braço em torno do pescoço de Pablo e comentava animadamente &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lawrence da Arábia&lt;/span&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-9181503542743813396?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/9181503542743813396/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=9181503542743813396' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/9181503542743813396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/9181503542743813396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2010/09/madrugando.html' title='Madrugando'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-1477175498378970679</id><published>2010-06-20T02:47:00.009-03:00</published><updated>2010-06-25T00:05:49.030-03:00</updated><title type='text'>O "velho mestre" do espetáculo</title><content type='html'>Steven Spielberg, George Lucas, James Cameron, Martin Scorsese e Stanley Kubrick são alguns dos nomes mais conhecidos e admirados do mundo do cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por algum motivo, o nome de sir David Lean (1908-1991), também chamado de “o velho mestre” e tido como grande inspiração pelos diretores acima, não é tão reconhecível quanto os deles pelo grande público hoje em dia – ainda que o cineasta britânico tenha sido responsável pelo oitavo maior sucesso de bilheteria de todos os tempos (“Doutor Jivago”, de 1965, cuja bilheteria só nos Estados Unidos equivaleria hoje a quase um bilhão) e recebido, consecutivamente, dois Oscars de diretor por “A Ponte do Rio Kwai” (1957) e “Lawrence da Arábia” (1962), que também levaram a estatueta de Melhor Filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A versátil carreira de Lean inclui pequenos dramas e romances como “Desencanto” (1945) e “Summertime” (1955), adaptações de clássicos da literatura como “Grandes Esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948), e dramas de guerra como “A Ponte do Rio Kwai” e “Sangue, suor e lágrimas” (1942), esse último co-dirigido com Noel Coward.&lt;br /&gt;Porém os filmes que mais marcaram o trabalho de Lean foram os megalomaníacos épicos como “Lawrence da Arábia” e “Doutor Jivago”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil compreender como a grandiloquência e elegância dos filmes de David Lean, seu uso de panorâmicas cheias não apenas de beleza como também de significado, a densidade psicológica e a construção realista de seus personagens, sua montagem incisiva e precisa, impressionaram os diretores citados no início, e muitos outros. Em março de 1990, Spielberg fez a seguinte declaração no American Film Institute: “Cheguei onde estou graças a David. Seus filmes que mais me influenciaram foram ‘A Ponte do Rio Kwai’ e ‘Lawrence da Arábia’. ‘Lawrence’ é fonte constante de inspiração, tudo o que se pode aprender está ali. ‘Lawrence’ está em algum lugar entre a Pedra Angular e o Santo Graal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, David Lean concilia como poucos a forma e o conteúdo, de modo que a beleza plástica de seus filmes jamais é meramente ornamental ou supérflua. Um grande exemplo disso está logo em uma das cenas iniciais de “Doutor Jivago”, na qual o funeral da mãe do protagonista é preenchido pela esplêndida paisagem natural dos Urais. Em uma montagem de planos subjetivos impressionante, o fundo das grandes montanhas e o vento soprando a copa das árvores não aparecem como mero adorno visual da cena, mas como o próprio estado emocional de Yuri Jivago e sua evasão interior (início de um futuro grande poeta romântico) perante a solidão e a morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do mais, Lean virtuosamente desenvolve uma linguagem visual rica e sugestiva. Na abertura de “Oliver Twist”, cena em que uma mulher grávida caminha em um campo tempestuoso, o diretor usa a repentina inclinação da câmera para metaforizar as dores do parto. Um recurso semelhante é usado para mostrar o delírio de Adela Quested (Judy Davis) provocado pelo ambiente das misteriosas cavernas de Marabar em “Passagem para a Índia” (1984).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “Lawrence da Arábia” e “Passagem para a Índia”, o ambiente influencia diretamente a conduta dos personagens. Enquanto o primeiro apresenta um ponto de vista masculino (“Lawrence da Arábia” não tem uma só mulher no filme inteiro) e o segundo um ponto de vista feminino (a Índia vista por duas mulheres inglesas), ambos têm em comum a relação de seus protagonistas com o ambiente: britânicos em uma terra exótica no oriente, fascinados por sua natureza grandiosa – por vezes hostil – e a impressão que exerce sobre eles, chocando-se-lhes com a própria noção da sociedade, voltando-os de encontro a seu próprio povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um eco leaneano dessa relação antagônica entre duas civilizações pode ser eventualmente apontado em “Avatar” (2009) de James Cameron, diretor que herdou de sir David a capacidade pictórica para compor espetáculos visuais em tomadas absolutamente impactantes. Outros fatores que os dois têm em comum são a personalidade marcante de suas protagonistas femininas, e, não menos interessante, o fato de serem diretores-editores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na edição, Lean também demonstra virtuosismo e grande detalhismo. Nesse aspecto, é preciso dedicar mais linhas a “Passagem para a Índia”, último filme da carreira de Lean, que além de adaptar o roteiro e dirigir, editou-o com as próprias mãos. Curiosamente, nos créditos iniciais do filme o nome de David Lean aparece, primeira e separadamente, como roteirista, para mais tarde reaparecer como diretor e editor ao mesmo tempo, nivelando as duas categorias no mesmo patamar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lean efetiva uma montagem de grande intensidade quando, pouco antes da referida cena da caverna, a idosa sra. Moore (Peggy Ashcroft) diz a Adela que “como muitas pessoas de idade, as vezes eu acho que somos apenas figuras passageiras, em um Universo sem Deus.” Quase toda a fala acontece em um plano próximo da sra. Moore, mas enquanto ela diz “em um Universo sem Deus”, Lean corta para uma imprevisível tomada da imensa lua, visível em pleno dia com suas crateras, como se estivesse extremamente próxima da Terra – e da sra. Moore –, evocando um sentimento de eternidade e vastidão enquanto a personagem fala sobre a morte e o vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro grande momento da edição de “Passagem para a Índia”, e da carreira de Lean, é a seqüência quase onírica em que a sra. Moore conhece o indiano dr. Aziz (Victor Banerjee) em uma escura e silenciosa mesquita sobre o rio Ganges. O ponto de vista do dr. Aziz ao ter o primeiro vislumbre da sra. Moore, andando de branco como um fantasma, é um momento incrivelmente bem construído. Ao travar conhecimento com a sra. Moore, o doutor mostra-lhe o rio “terrível e maravilhoso”, e conta-lhe sobre os crocodilos. Mais tarde, a sra. Moore retorna para o clube inglês, onde o dr. Aziz não pode entrar, e ao escutar uma conversa de Adela com um aristocrata inglês, percebe o distanciamento frio que seu povo tenta a todo custo manter dos indianos. A conversa é interrompida quando o hino da Inglaterra começa a tocar, e todos ficam de pé. A sra. Moore, com desgosto e tristeza, volta lentamente a cabeça, e Lean corta de volta para uma tomada da luz da lua sobra o Ganges, com a cauda de um crocodilo emergindo rapidamente da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao roteiro, sendo que boa parte de seus filmes são adaptações, Lean tomava grandes liberdades. Em “Passagem para a Índia”, roteirizado pelo próprio, modificou diversas passagens, excluiu personagens, ressaltou outros, criou um longo início que não existia no livro, adicionou um final diferente, em suma, criou uma visão inteiramente sua da obra de E. M. Forster.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, as adaptações de Lean das obras clássicas de Charles Dickens são fiéis na medida do possível. Inicialmente, contratou uma especialista na obra de Dickens, Clarence Dane, para escrever o roteiro de “Grandes Esperanças”. Porém não gostou do resultado dogmaticamente preso ao original, e decidiu adaptar ele mesmo o roteiro, permitindo-se condensar o romance, pular partes, fazer reduções. Certa vez afirmou: “escolha o que quer fazer do livro e faça, elimine personagens se for preciso”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em “Oliver Twist” fez exatamente isso, não seguindo passo a passo a obra de Dickens, imprimindo seu próprio estilo, mas mantendo o retrato realístico da pobreza, a crítica social e a ironia características do grande escritor da era vitoriana. Merece ser citado como exemplo disso o momento em que o presidente do conselho afirma em uma reunião: “este abrigo virou um lugar de entretenimento para as classes pobres”, e a cena corta para os abrigados trabalhando em condições insalubres. Evitando-se o melodrama, a pungência social é retratada por Lean com austeridade, empregando uma fotografia noir e ambientes decadentes e sombrios. O maior retrato de um ato desumano no filme é o assassinato de Nancy (Kay Walsh) pelas mãos do brutal Bill Sikes (Robert Newton), acontecimento que Lean não mostra diretamente, mas do ponto de vista do cão tentando desesperadamente escapar da cena do crime, apavorado pela selvageria de Sikes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, a adaptação mais desafiadora para Lean possivelmente foi a do romance ”Doutor Jivago”, do escritor russo Boris Pasternak (1880-1960). Trata-se de um romance monumental no estilo panorâmico de Dostoiévski, Tóstoi e Victor Hugo, com uma enorme galeria de personagens e inúmeros acontecimentos importantes abrangendo um amplíssimo espectro de tempo e espaço, com longos monólogos sobre história, filosofia, religião, moral, política, arte. Com o auxílio do roteirista Robert Bolt, Lean trabalhou durante um ano só para converter a obra ganhadora do prêmio Nobel em um roteiro. Mais uma vez, Lean varre do mapa inúmeros acontecimentos e personagens do romance, substituindo-os ou condensando-os. Os leitores de Pasternak certamente sentem a falta de personagens como Nikolai Nikolaievitch, o filósofo tio do protagonista, e que representa os ideais do autor; e de cenas comoventes como a doença de Anna Ivanovna e o discurso de Yuri Jivago preparando-a para a morte. Por outro lado, o forte conteúdo político da obra de Pasternak, ainda que amenizado, subsiste no filme: a desumanização e crueldade do regime soviético sobre seu próprio povo, bem como a destruição da individualidade, é sintetizada na figura do sanguinário Strelnikov (Tom Courtenay), o comandante vermelho que declara ao protagonista: “Eu admirava a sua poesia. Não a admiro mais, é absurdamente pessoal. Sentimentos afetivos são triviais. A vida privada está morta na Rússia.” Ao final do filme, a tomada de Lara (Julie Christie) desaparecendo sob um painel de Stálin é bastante icônica. No que diz respeito à narrativa, a diferença mais importante é que, enquanto o livro de Pasternak é linear, o filme se passa em um flashback narrado ao espectador pelo general Ievgrav (Alec Guinness), meio-irmão de Yuri Jivago (Omar Sharif). Ou seja, no início do filme já descobrimos que o destino subjugou os personagens principais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O determinismo de Lean e a impossibilidade de escapar do destino, expresso pela narrativa em flashback, também é presente em outros filmes seus, especialmente em “Lawrence da Arábia”, que inicia com a morte acidental do herói. Em certo momento, durante a travessia de Lawrence (Peter O’Toole) pelo mortal deserto Nefud, um de seus companheiros árabes se perde. Quando Lawrence se decide a voltar para procurá-lo, o xeique Ali (Omar Sharif), ciente de que é uma missão impossível, tenta dissuadi-lo argumentando: “É o destino dele, está escrito”. Contrariando isso, Lawrence resgata o companheiro e, ao retornar, desafia o destino replicando ao xeique Ali: “Nada está escrito.” No entanto, posteriormente, o homem mata um membro de outra tribo árabe em uma rixa, e para evitar intermináveis retaliações, Lawrence se vê obrigado a executar com a própria arma o homem que havia salvado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja em um drama pessoal ou um grandioso épico, os personagens de David Lean enfrentam obstáculos grandes: a pobreza, os sentimentos, a guerra, a loucura – em suma, na visão do diretor, o destino que não se pode deter.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-1477175498378970679?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/1477175498378970679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=1477175498378970679' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/1477175498378970679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/1477175498378970679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2010/06/o-velho-mestre-do-espetaculo.html' title='O &quot;velho mestre&quot; do espetáculo'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-5186538897266346453</id><published>2010-05-08T20:01:00.000-03:00</published><updated>2010-05-08T20:02:24.955-03:00</updated><title type='text'>Sobre a divisão de "Relíquias da Morte"</title><content type='html'>ONDE "HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE" DEVERIA SER DIVIDIDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Obviamente contém SPOILERS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos fãs da série Harry Potter esperavam, desde o quarto filme, "Harry Potter e o Cálice de Fogo", que a Warner Bros. produzisse dois filmes baseados em um mesmo livro, para evitar cortar o extenso material dos livros mais longos ao encaixá-los em um filme de duas horas e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, os produtores discutiram com efeito essa questão e o estúdio deu sinal verde para que o último episódio da série literária, "Harry Potter e as Relíquias da Morte", fosse adaptado como dois filmes, ou um filme em duas partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os conceitos de se fazer dois filmes e fazer um filme em duas partes não são bem a mesma coisa. Na primeira hipótese, temos dois filmes relativamente independentes, cada qual com seu próprio enredo, estilo, ritmo e clímax. Na segunda suposição, temos o mesmo enredo dividido em dois filmes, caso em que o desdobramento introduzido na primeira parte deve chegar a uma conclusão na segunda parte – logo, a parte um termina amplamente sem conclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A série Harry Potter, apesar de ser dividida em vários livros/filmes, é uma única história, na forma como a autora J. K. Rowling e vários fãs a vêem. Não obstante, cada livro/filme tem sua própria trama, sub-tramas, clímax e conclusão – mais ou menos aberta, com algumas questões não resolvidas, mas nunca um gancho explícito em uma situação deixada pendente para o próximo episódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse padrão pode ser quebrado se a divisão de "Harry Potter e as Relíquias da Morte" seguir a segunda lógica – um filme em duas partes, terminando a parte um em uma situação de "continua no próximo episódio".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até onde se sabe, ainda não foi decidido onde a interseção das partes um e dois será feita. Provavelmente é um assunto de grande discussão entre diretor, produtor e executivos da Warner, que deve ser solucionada só depois de exibições de teste. De acordo com o produtor David Heyman, há três maiores possibilidades: a) após a conversa com Xenofílio Lovegood sobre as misteriosas Relíquias da Morte; b) o trio principal chegando à Mansão dos Malfoy após a captura; e c) o trio no Chalé das Conchas, depois do funeral de Dobby.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira possibilidade não parece ser provável em absoluto, já que não deixaria nenhum grande momento de ação para o fim da Parte Um, e a perspectiva de acabar o filme logo quando é feita a primeira referência a seu título é, por si só, bastante obtusa e sem sentido. Seria como esperar o resto do filme depois do intervalo comercial e descobrir que ele na verdade já acabou. Mesmo que experimentassem essa opção, sem dúvida a audiência de teste iria massacrá-la imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, a questão permanece entre as possibilidades "b", o gancho, e "c", o final triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O final em um gancho seria uma novidade na série. Ainda que o termo "Parte Um" depois do título principal advirta que o filme terá um final aberto (ou seja, nenhum final), pode-se imaginar como o público – em geral, bem como fãs – reagiria a encontrar o final da projeção no meio da ação. E pior ainda, no caso de quem leu o livro, sabendo que um dos momentos mais interessantes da série deveria vir logo depois daquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se imaginar se este final para a Parte Um faria o imenso público sair do cinema sorrindo satisfeito e ansioso pela Parte Dois... ou simplesmente furioso porque a tela escureceu e o letreiro "Dirigido por David Yates" apareceu logo quando o filme estava alcançando o seu melhor ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sentido de um gancho é deixar o público ansioso pelo próximo episódio para saber o que acontece a seguir. Mas esse artifício pode ser um tiro no pé e se tornar simplesmente inepto e revoltante, se o gancho sacrifica um momento de intensidade culminante e não mantém nada além de um vazio no fim da sessão. Mesmo que um filme tenha um final sem conclusão, deve ser um final que valha a pena assistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse caso, mesmo que o gancho em si funcione, a captura do trio na floresta por Fenrir Grayback não é lá um clímax. Mesmo que haja uma luta antes da captura, uma luta rápida contra alguns capangas não é particularmente um grande momento para gerar uma situação satisfatória de "continua".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seqüência na Mansão dos Malfoy, por outro lado, tem o imenso potencial de ser um enorme clímax. Primeiro, é uma das partes mais empolgantes da história, devido à perspectiva de Harry estar nas mãos de vários inimigos principais – e a iminente vinda do próprio Voldemort. Segundo, porque contém duas mortes importantes, uma das quais leva a uma cena altamente emocional que é uma interseção muito mais realizadora do que um gancho. Esse material impactante deve funcionar muito melhor no final de um filme do que no início, onde não haveria a preliminar emocional para uma seqüência de tamanha força. Mover a Mansão dos Malfoy e a morte de Dobby para a Parte Dois pode não só nulificar o clímax da Parte Um, mas também comprometer o início da Parte Dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual seria a sensação se "Cálice de Fogo" tivesse terminado logo quando Harry e Cedrico pousam no cemitério, guardando a morte de Cedrico e o duelo com Voldemort para o início de "Ordem da Fênix"? Embora o cemitério seja de fato o clímax do livro "Cálice de Fogo" e a Mansão dos Malfoy seja apenas a metade de Relíquias da Morte, a analogia é adequada porque se trata do final de um filme – seja um único filme ou a "parte um" de outro. E ainda assim, mesmo no livro o capítulo da Mansão dos Malfoy é conhecido como um mini-clímax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até mesmo de um ponto de vista estrutural, faria mais sentido fechar a Parte Um com o funeral de Dobby. Desde "Cálice de Fogo", todo filme de Harry Potter termina com uma morte e Harry traçando sua perspectiva de um futuro incerto. A morte de Dobby e a resolução de Harry de achar as Relíquias da Morte seriam os elementos equivalentes em "Relíquias da Morte Parte Um".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra constante nos filmes é o deus-ex-machina, como Fawkes e o Chapéu Seletor em "A Câmara Secreta", o Patrono aparentemente de Tiago Potter em "Prisioneiro de Azkaban", e a chegada da ordem no Ministério em "Ordem da Fênix". Em "Relíquias da Morte Parte Um", Dobby desempenharia o mesmo papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda outra questão: no início de "Relíquias da Morte" é mostrado Voldemort e seus Comensais da Morte em seu quartel-general, que descobrimos ser a Mansão dos Malfoy. Então faz sentido que o ponto culminante da Parte Um se passe naquele mesmo lugar, tornando a interseção mais redonda e consistente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns poderiam dizer que, se a Mansão dos Malfoy se mantiver na Parte Um, sobraria pouco material para a Parte Dois. Isso não é uma certeza, haja vista que o livro pode ter menos da metade de suas páginas depois da Mansão dos Malfoy, mas são páginas com amplos espaços para a liberdade criativa dos cineastas de preencher a Parte Dois com seqüências que não estão no livro, ou desenvolver as que estão.  O preparo antes da batalha final com o caos aumentando em Hogwarts, e as descobertas sobre a vida conturbada de Dumbledore, por exemplo, são alguns temas que podem ocupar a metragem da Parte Dois, não para ter mais duração de tempo, mas no intuito de prover o filme com grandes cenas. Em todo caso, não é uma certeza que a Parte Dois ficaria desfalcada sem a Mansão dos Malfoy – não tanto quanto a Parte Um ficaria, em uma questão de equilíbrio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-5186538897266346453?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/5186538897266346453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=5186538897266346453' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5186538897266346453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5186538897266346453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2010/05/sobre-divisao-de-reliquias-da-morte.html' title='Sobre a divisão de &quot;Relíquias da Morte&quot;'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-2419923615743426756</id><published>2009-05-14T16:21:00.013-03:00</published><updated>2011-09-16T22:40:24.792-03:00</updated><title type='text'>Finais Alternativos de Credopúsculo</title><content type='html'>Pois é, como o final da série “Crepúsculo” é demasiado sem graça e previsível (tanto que até eu que larguei na metade do primeiro volume sei como termina.-.), pareceu apropriado eu sugerir os meus finais alternativos. Bom, meus não, de alguns autores conhecidos. Vejamos como eles terminariam a história.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J.R.R. Tolkien: Edward é morto por Jacob (que antes fez o favor de lhe comer a mão), ressuscita, renuncia a sua imortalidade e passa o resto da vida escondido com Bella, até passarem para além dos círculos deste Mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Shakespeare: Pensando que Edward morreu, Bella se suicida. Ao descobrir o acontecimento, ele consegue se matar mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;James Joyce: Um monólogo de Bella com 100 páginas de extensão, porém menos de um minuto de cronologia, sem nenhuma pontuação e cheio de passagens pornográficas, porque o marido lhe pediu café na cama antes de dormir. O Sr. Edward Cullen gostava de comer as vísceras de quadrúpedes e aves, mas não de humanos, pois era um vampiro vegetariano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gabriel García Marquez: Muitos anos depois, em seu leito de morte, Bella se lembraria daquele dia distante em que seu pai a levou para conhecer aquela cidade bizarra cheia de gente que brilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homero: Depois de enfrentar os mares, monstros gigantes e o próprio Hades, Edward consegue voltar para casa e descobre que durante todos esses anos Bella o esperou, casta e fiando pacientemente. (Segundo Heródoto isso é tudo mitologia, e na realidade ela pulou a cerca com Jacob e mais uma dúzia de lobisomens.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dante Alighieri: Edward atravessa o inferno e o purgatório até chegar no paraíso, onde é guiado por Bella. Porém, enquanto ele platonicamente só pensa que l’amor muove Il sole e l'altre stelle, ela tem segundas intenções não muito aceitas lá em cima. Em vez de versos, tudo isso narrado em prosa e em 1° pessoa, de forma muito mais piegas e melodramática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Philip Pullman: Edward e Bella não podem ficar juntos, porque... bom, porque o autor não quer, e fez a existência do universo depender de os dois ficarem separados, e ponto final. Que azar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Machado de Assis: Edward e Bella levam uma vida leviana e burguesa, até ele perceber que o filho é a cara do Jacob. Edward vai viver na Europa e séculos depois, para espantar o tédio, resolve escrever uma autobiografia sobre os chifres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F. Scott Fitzgerald: Enquanto o casamento vai de mal a pior, Edward fica cada vez mais entediado do luxo e do hedonismo. Bella começa a perder a sanidade mental porque aquela vida não é a imagem de perfeição que esperava, e o abandona. Com o fim dessa vida, ele fica fadado a passar o resto de seus infinitos dias no ensino médio, agora sem orgulho, e sem brilho (e sem trocadilho também).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franz Kafka: Alguém certamente calunia Edward C. (provavelmente dizendo que ele é gay), pois certa manhã é detido sem ter feito mal algum. E já que em seus cento e tantos anos de idade nunca se preocupou em estudar Direito, é barrado na porta da Justiça. Um dia, dois funcionários de nomes Blade e Van Helsing vêm lhe encravar uma estaca no coração, cumprindo a inexorável sentença da qual não cabe recurso. Como um cão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oscar Wilde: Descobre-se que Edward não é vampiro coisa nenhuma, apenas tem um retrato bastante útil que envelhece no lugar dele. Ao saber a terrível verdade, Bella se suicida. Para ela, a beleza não é tudo mas é o que importa. Além do mais, desta vez Edward é gay mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dostoiévski: Bella abandona Edward no altar para fugir com um milionário devasso e viciado em jogos de azar, e acaba sendo morta por ele. Quanto a Edward, apesar de humilhado e ofendido, percebe que um instante de felicidade verdadeira pode iluminar toda uma vida— mesmo que a tal vida dure vários séculos. Mas, não obstante, Bella sempre acreditou que a beleza salvará o mundo: é por isso que nunca soube falar de outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Saramago: Não se augure nada de bom da vida de um vampiro, ausentes que são dos arquivos do cartório da velha átropos, pois facto é que, quando bella swan disse a edward, Morde-me e nunca morrerei, pedido esse que para o vampiro era um fenómeno absurdo, edward respondeu-lhe de modo lacónico, Antes a morte que tal sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;J.K. Rowling: Quase todo mundo morre em uma sangrenta batalha travada na high school. Os sobreviventes ficam felizes para sempre como funcionários públicos. A paz é tanta que passam o tempo fazendo filhos— e mais importante, inventando nomes terrivelmente ridículos para todos eles.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-2419923615743426756?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/2419923615743426756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=2419923615743426756' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/2419923615743426756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/2419923615743426756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2009/05/finais-alternativos-de-credopusculo.html' title='Finais Alternativos de Credopúsculo'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-5879841554323713115</id><published>2009-05-14T12:55:00.016-03:00</published><updated>2010-08-16T14:03:22.969-03:00</updated><title type='text'>Por que A Bússola de Ouro deveria ter uma versão do diretor.</title><content type='html'>Quando exigido pelo estúdio para montar &lt;em&gt;O Poderoso Chefão &lt;/em&gt;com no máximo 2h15m de duração, Francis Ford Coppola enxugou o filme, cortando tudo que não era estritamente fundamental para a trama, e com algum esforço chegou a 2h20m. O resultado disso foi um telefonema mal-humorado do executivo Robert Evans: “Eu pedi um filme, você me deu um trailer!” E assim Coppola pôde voltar à duração original de 3 horas, que é o filme que conhecemos. A versão mais curta, diz o diretor, preservava a trama principal, mas todo o material humano havia sido cortado. Permanecia o enredo, mas sem a cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Bússola de Ouro&lt;/em&gt; não teve a mesma sorte. Acabou nos cinemas como um filme com 1h53m de duração, onde subsiste o enredo, mas falta o material humano. O filme é um longo trailer para um filme mais sombrio, mais profundo e mais emocionante, ainda não lançado: a versão do diretor e roteirista, Chris Weitz. A versão lançada nos cinemas não é o filme que ele queria... e há vários motivos para crer que o filme, se fosse da maneira que ele desejava, seria muito melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se sabe ao certo de onde partiram as decisões fatídicas que fizeram com que &lt;em&gt;A Bússola de Ouro&lt;/em&gt;, originalmente um filme muito promissor, resultasse numa obra mediana e não bem sucedida em bilheteria. Mas não há dúvida de que as decisões mais prejudiciais, tomadas dois meses antes da estréia e contra a vontade do diretor, foram estas: 1) a eliminação da seqüência final (para ser então usada na abertura do segundo filme, sobre o qual ainda não se tem notícias) e 2) a inversão da ordem cronológica dos acontecimentos ambientados, respectivamente, na estação experimental de Bolvangar e em Svalbard, o reino dos ursos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que, do ponto de vista cinematográfico (portanto sem comparações com o livro nem entrar no mérito da fidelidade ao original-- este texto não pretende comparar o livro com o filme, mas a versão lançada nos cinemas com a versão original do diretor, até onde se pode reconstituir a visão de Weitz), essas duas modificações foram particularmente tão danosas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira delas, porque simplesmente eliminou o clímax do filme, o que por si só é extremamente empobrecedor. Eliminou-se da projeção um final que seria intenso, surpreendente e emocionante, a julgar pelo material visto nos trailers e nos storyboards do diretor anterior, Anand Tucker, baseados no roteiro de Chris Weitz, e pelas declarações do próprio Weitz, que considerava essa seqüência um “grande momento emocional” e comparava à despedida de Rhett Butler e Scarlett no clássico final de &lt;em&gt;E o Vento Levou&lt;/em&gt;. Essas cenas finais apresentariam, ainda, as impressionantes imagens da aurora boreal revelando o caminho para o outro universo, abrindo uma cortina no céu para uma bela cidade renascentista (momento que os técnicos dos efeitos especiais consideraram o mais desafiador do filme), o encontro entre os personagens de Nicole Kidman e Daniel Craig, o trágico desfecho da missão de resgate de Lyra (Dakota Blue Richards) e a sua motivação de encontrar a fonte do Pó antes de seus inimigos. Portanto um final que, mais provavelmente, faria o público sair da sala satisfeito e ansioso pelo segundo filme e/ou com vontade de assistir outra vez o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez disso, a versão lançada nos cinemas usa um final emocionalmente insatisfatório, com um anti-clímax revoltante— tanto para os fãs do livro, por saberem e esperarem o que deveria acontecer depois, quanto para o público que não leu o livro, que tem sua expectativa destruída por um final repentino e sem graça. É como terminar &lt;em&gt;Guerra nas Estrelas&lt;/em&gt; quando a frota rebelde se aproxima da Estrela da Morte, e colocar a batalha no início de &lt;em&gt;O Império Contra-Ataca&lt;/em&gt;. Quando aparecem os créditos, o público se faz a mesma pergunta do rei urso: “Isso é tudo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O anti-clímax também é conseqüência da segunda modificação, obviamente feita em virtude da primeira, e que também muito comprometeu o ritmo e o desenvolvimento do filme, resultando em uma montagem bastante desnivelada: é fácil ter a impressão de que a partir da metade do filme em diante, a qualidade decai bruscamente e a história se perde. Eis por quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No roteiro e na montagem original de Chris Weitz, Lyra era seqüestrada pelos caçadores no acampamento gípcio e entregue em Bolvangar, onde descobria que Lorde Asriel (Craig) era prisioneiro na fortaleza dos ursos. Após os eventos na Estação Experimental, ela partia para Svalbard e, devido a uma tempestade, era separada do grupo e levada ao rei urso, culminando na luta entre os ursos Iorek e Ragnar, o grande momento de ação do filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida essa ordem cronológica original tem uma fluência e coerência que se perderam com a inversão dos acontecimentos. Na versão final, Lyra é levada pelos caçadores ao rei urso e resgatada por Iorek, que reassume o trono, e daí prosseguem o caminho para Bolvangar, enquanto Lorde Asriel não é prisioneiro de ninguém. Ora, com isso a luta dos ursos, que deveria ser uma cena-chave porque daquilo dependia o resgate de Lorde Asriel e todos os acontecimentos posteriores, perdeu a importância essencial, e Svalbard se tornou um mero desvio na história: uma seqüência de ação sem muito significado dentro do enredo, quase supérflua, quando devia ser um momento fundamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, a incômoda sensação de anti-clímax se agrava pelo fato de que, após a luta entre Iorek e Ragnar, o ritmo decresce, não há nenhuma outra cena mais empolgante do que essa pelo resto do filme, que volta ao enredo depois desse desvio e ainda roda por mais meia hora. A cena da guilhotina prateada e a batalha contra os tártaros são aquém do duelo entre os ursos e funcionariam melhor antes dele, com o ritmo do filme crescendo, e não depois. O ritmo em si fica bastante comprometido quando, logo após a vitória de Iorek, sem “momento para respirar”, há uma transição brusca e aparecem ele e Lyra correndo para Bolvangar e chegando a uma ponte de gelo, em um corte grosseiramente desarmônico. A cena dá uma grande sensação de estar fora do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na verdade está mesmo. Originalmente a cena da ponte de gelo seria logo antecedente à seqüência final do filme, e prepararia para o clímax emocional na aurora boreal. Além disso, seria acrescido o suspense de saber que resta pouco tempo a Lyra para salvar seu amigo Roger no outro lado da ponte, ao mesmo tempo em que uma aeronave de guerra ataca a fortaleza dos ursos. Na versão final esses recursos foram desperdiçados, e a cena correspondente perdeu o impacto que deveria provocar. Eu arriscaria dizer, na versão final essa cena ficou bastante tediosa e sem propósito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais: em Bolvangar, Lyra escuta a Sra. Coulter (Kidman) dizer que Lorde Asriel subornou os captores e construiu um laboratório. Na versão original, Lyra escutaria que Asriel está preso, afinal já tinha sido mostrada, anteriormente, uma seqüência de ação onde ele era capturado nas montanhas por caçadores samoiedes. Mas como na versão final a fortaleza dos ursos foi transferida para &lt;em&gt;antes&lt;/em&gt; de Bolvangar e Lyra já havia passado por lá, não faria sentido Asriel ser prisioneiro do rei-urso, de forma que o diálogo sobre a prisão foi substituído por essa informação sobre o suborno. Apesar disso a cena onde Asriel é capturado continuou na versão final. Ora, por que deixar lá uma seqüência que mostra Asriel sendo preso... só para depois dizer que ele &lt;em&gt;na verdade não foi&lt;/em&gt;?! Outra seqüência importante que ficou inválida e virou apenas um vago momento de ação no filme, sem significado no enredo, e até incoerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São esses os defeitos mais graves, porém podemos chamar ainda atenção para outras cenas promissoras, de desenvolvimento de personagens e aprofundamento de enredo, que foram excluídas, presumivelmente para manter o filme com menos de duas horas de duração. Storyboards oficiais, entrevistas, vídeos divulgados na internet e outras fontes, como livros ilustrados do filme, fornecem uma boa noção do ótimo material que não chegou ao cinema— e até agora, nem ao dvd.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não apenas no fim e no meio a versão de cinema tem problemas, como no início também. O filme começa com um travelling de uma rua na Oxford do nosso mundo, através de uma “janela” para a Oxford de Lyra, então ouvimos um voice-over de Serafina Pekkala apresentando os povos daquele mundo—ursos, gípcios e bruxas-- à la Senhor dos Anéis, e explicando o que são os daemons e o aletômetro. Bom, esse início da versão do estúdio não parece ser o que Chris Weitz originalmente concebeu, escreveu e filmou. Pelas seguintes razões: Primeiro, podemos notar que quase todas as tomadas durante as explicações de Serafina são tiradas de outras partes do filme. E na prévia de cinco minutos há uma (bela) cena excluída em que Lyra caminha através de um corredor, seguida de perto por um rato, que é seguido por um gato. O rato vira na direção do gato, e se transforma ele próprio em um gato. Enquanto o gato real sai correndo, o gato transformado vira-se na direção da tela e diz: “Que estranho. Até parece que ele nunca viu o daemon de uma pessoa antes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece óbvio que Chris Weitz tinha a intenção de apresentar os daemons no filme não com uma explicação simplista em voice-over , mas com esta cena bastante engenhosa, que visualmente mostra que os daemons mudam de forma, falam e são de alguma forma conectados aos seres humanos, além de cada pessoa ter um daemon. Seria uma abertura e muito mais instigante e uma introdução mais interessante e surpreendente àquele novo mundo e aos daemons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto o diretor Chris Weitz quanto a atriz Eva Green sentiram falta da sub-trama do relacionamento entre a bruxa Serafina Pekkala (Green) e o gípcio Farder Coram (Tom Courtenay), que na versão final foi reduzida a uma breve referência apenas. Serafina fica invisível quando visita o navio dos gípcios para aconselhar Lyra, e na seqüência completa, ela vê seu antigo amante mas não se mostra para ele, apenas pede para Lyra entregar-lhe um galho de pinheiro-nubígeno como demonstração de afeto; Eva Green descreve a cena da seguinte forma: “Ele não pode vê-la, e isso é doloroso para ela também. Então quando ele sobe no convés, ela desaparece, e ele pode senti-la, ou ao menos ele sente alguma coisa, mas ele desce de volta, muito triste. Isso a faz chorar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na versão final, não só perdemos esse toque emocional, como também a visita de Serafina no convés do Nooderlicht é extremamente rápida e quase aleatória, com um diálogo que pouco justifica a entrada da personagem em cena, e menos ainda o motivo de Lyra se afeiçoar a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu roteiro, Chris Weitz escreveu para essa cena um ótimo diálogo, que consta nos storyboards. Na versão final, restou cerca de 1/3 do diálogo apenas: a parte em que Serafina Pekkala fala sobre Bolvangar. Foram cortadas as referências aos ursos e à guerra, bem como uma interessante fala, vista em vídeos dos bastidores, na qual Serafina adverte Lyra: “A grande guerra. Não sei de que lado as bruxas vão ficar. Na próxima vez em que nos encontrarmos, poderemos ser amigas ou inimigas.” Tampouco consta a tomada das estrelas cadentes e a de Lyra se esgueirando para fora da cabine, ainda chocada por ter visto, anteriormente, um gípcio ferido morrer conforme a bússola de ouro previra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa cena da morte do espião gípcio, também excluída, certamente fez falta. Esse acontecimento deixa claro para Lyra que ela embarcou em uma jornada realmente perigosa, onde pessoas estão morrendo enquanto os inimigos a procuram— o que justificaria o diálogo subseqüente onde Lyra confessa a seu daemon que está assustada com aquilo em que se envolveram. Na versão final, porém, dá a entender que Lyra ficou intimidada e quer voltar para casa por causa de duas vespas mecânicas que tentaram pegar a bússola de ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o tempo (e interação) de Lyra com os gípcios é muito reduzido. No final do filme, a despedida é brusca. Na verdade, ela mal acontece: Lyra troca um olhar com rei dos gípcios, e eles simplesmente vão embora. Em um vídeo dos bastidores há um momento interessante, em que Serafina Pekkala não só reencontra finalmente seu ex-amante humano, como promete a ele que vai proteger Lyra dali em diante. E Farder Coram diria: "Seja qual for o lado que você vai escolher no que está por vir, faça com que seja o lado de Lyra." Sem esses momentos de desenvolvimento de personagem não dá tempo de o público se afeiçoar pelos personagens secundários, nem entender por que Lyra o faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra cena que era “consideravelmente longa, e foi reduzida ao essencial”, nas palavras do diretor nos comentários do dvd, é o diálogo entre Frei Pavel (Simon McBurney) e o Emissário Magisterial (Derek Jacobi). Na versão final os dois vilões conversam vagamente sobre Intercisão e suspeitam da Sra. Coulter. Nos trailers há duas falas dessa cena que não chegaram à versão final. O Emissário dizendo: “A lealdade dela será devidamente testada”, certamente se referindo à Sra. Coulter, que na cena seguinte é mostrada tendo sentimentos conflituosos; e Frei Pavel perguntando: “O que foi divulgado sobre a menina Belacqua? Os rumores atravessaram o país.” Detalhes que, se não são imprescindíveis, tratariam melhor das motivações dos vilões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a respeito dessa cena, na prévia de 5 minutos há algumas tomadas excluídas, como o Emissário passando algum tipo de relatório a um assistente, e uma interessante tomada de cima, ambas com uma bela fotografia. A tomada excluída em que o Emissário fala sobre o teste de lealdade da Sra. Coulter também tem uma ótima composição: o Cálice no plano de fundo do Emissário é visualmente forte e cheio de significado, quando se trata de lealdade, fé, sacrifício e, é claro, Autoridade. A cena teve muito a perder com essas exclusões.&lt;br /&gt;(Sem falar que a inscrição no símbolo do Magisterium no piso, “Unica Ecclesia Super Omnia” [Uma Igreja Sobre Todas] foi deletada na versão final da New Line. O que é até compreensível, mas bastante desnecessário, por apagar uma sutileza, e uma boa obra do Departamento de Arte.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro momento excluído que explora os vilões é quando os soldados do Magisterium invadem a Faculdade Jordan para prender o Reitor. De acordo com os storyboards, na versão original, onde esta cena acontecia pouco depois da partida de Lyra com a Sra. Coulter, o Reitor observaria enquanto o zepelim decola (!), teria um diálogo com o Bibliotecário, e então seria preso. Na versão exibida nos cinemas, onde essa cena foi adiantada para duas cenas mais cedo (antes de ele dar a Lyra o aletômetro), o Reitor observa o zepelim ainda no solo (!), fala parte do diálogo com o Bibliotecário, e não ocorre a invasão à Faculdade, nem a prisão do Reitor.&lt;br /&gt;Bom, eu não diria que a cena da prisão é primariamente essencial, mas explicaria melhor o porquê de o Reitor dar a Lyra a bússola antes que o Magisterium consiga se apossar do objeto no saque à Faculdade, bem como adicionaria alguma ação e/ou tensão. Sendo que na prévia de 5 minutos vemos a tomada do Reitor olhando enquanto o zepelim decola (!), e no trailer de cinema vemos um soldado do Magisterium arrombando uma porta na Faculdade Jordan, podemos presumir que o destino do Reitor estava na visão original de Chris Weitz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem só longas seqüências fazem a diferença. Alguns problemas da montagem são tão sutis, que quatro ou cinco segundos a mais resolveriam. Por exemplo, a primeira aparição da Sra. Coulter: a cena antecedente termina com a governanta penteando o cabelo de Lyra, então corta para um plano geral do grande salão, vemos a Sra. Coulter caminhando até a mesa, ouvimos a voz do Reitor repreendendo Lyra, e finalmente vemos Lyra. É uma transição estranha, de certa forma desarmônica. Ficaria mais fluente se aparecesse primeiro Lyra entediada na mesa, então o Reitor começasse a repreendê-la, e depois víssemos a Sra. Coulter atravessando o salão durante a fala do Reitor, até ela chegar à mesa e interrompê-lo. Curiosamente, no storyboard a cena é exatamente assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa seqüência, também foi excluído um diálogo de aproximação entre Lyra e a Sra. Coulter, onde a menina conta sobre a morte de seus pais e sobre Lorde Asriel, e Coulter responde: “Que história fascinante.” Ajudaria a tornar mais crível quando a Sra. Coulter convida a garota para ser sua assistente, sob o pretexto de poder confiar nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos acrescentar que um detalhe supostamente estaria em algum lugar entre essa cena e a partida de Lyra com a Sra. Coulter: a informação de que Jessie Reynolds, a sobrinha da governanta, teria sido levada pelos Papões (Gobblers). Deve ser a razão pela qual a governanta, Sra. Lonsdale, parece tão chorosa e preocupada em sua próxima e última cena, quando o Reitor lhe pede que fique na porta conferindo se ele foi seguido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa informação suprimida teria sustentado a tensão e tornado mais palpável o horror do que os Papões estão fazendo, o que na versão final é bem vago e relativamente leve. Ora, a versão do cinema, com nada mais do que Lyra falando levianamente a Roger que os Papões estão raptando criannças, não faz o Conselho de Oblação parecer tão terrível àquela altura. Essa omissão (bem como a exclusão da prisão do Reitor) suaviza a sensação de perigo, e quando Lyra descobre que a Sra. Colter está no comando dos Papões, não parece grande coisa. Tais exclusões, como muitas outras, fazem faltar no filme o drama genuíno e o impacto emocional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida de Lyra na casa da Sra. Coulter também é montada de forma apressada, em flashes rápidos. A fala da Sra. Coulter no vídeo da pré-produção, comparando Londres com a sociedade dos ursos de armadura, foi retirada. A chegada na casa de Coulter presume-se originalmente mais longa, já que temos vislumbres de tomadas inéditas dessas cenas em uma prévia de 5 minutos, por exemplo a Sra. Coulter dizendo "Espero que sejamos felizes aqui", e Lyra entrando em seu quarto parecendo bem feliz. Bem, não tem nada particularmente errado com a edição em flashes rápidos, mas talvez esse ponto da história pudesse ser mais explorado, para adicionar consistência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, em um vídeo ambiental no DVD, vemos a Sra. Coulter dar um beijo de boa noite em Lyra. Podemos inferir que essa tomada é da cena em que Lyra está tentando decifrar a bússola, até que a Sra. Coulter entra e Lyra esconde depressa o instrumento debaixo do travesseiro. Coulter diz: "Está limpa e pronta para dormir?" e a cena termina. Se a cena tivesse prosseguido e Coulter se aproximado da cama para beijar Lyra, haveria uma tensão continuada, que no entanto é interrompida porque a cena acaba justamente quando se cria um suspense com a entrada de Coulter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A festa em Londres era uma cena mais longa, segundo artigo da New York Magazine (07/12/07). Esse artigo, que compara o roteiro de Tom Stoppard (o qual o estúdio rejeitou) com o roteiro de Chris Weitz, e este com a versão final do filme, refere-se a essa e outras cenas deixadas de fora e pergunta: “Por que isso tudo foi cortado? (...) Por que &lt;em&gt;A Bússola de Ouro&lt;/em&gt; precisou se limitar a duas horas? Certamente &lt;em&gt;O Senhor dos Anéis&lt;/em&gt; provou que grandes épicos podem ter duração épica e continuar bem sucedidos. (...) No fim foi essa decisão mais do que qualquer outra que condenou &lt;em&gt;A Bússola de Ouro &lt;/em&gt;à mediocridade.” E ainda: “O roteiro original de Weitz na verdade era ótimo e nos deixa tristes com o que o filme poderia ter sido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dúvida é de se estranhar que um épico com a amplitude e profundidade de &lt;em&gt;A Bússola de Ouro&lt;/em&gt; realmente precise de uma montagem tão corrida e compactada, sem espaço para desenvolver seus personagens e manter sutilezas. Obviamente não se pode pôr tudo de um livro de 400 páginas em um filme, mas o roteiro de Weitz tinha tudo que um filme precisa para ser ótimo, e cabendo dentro de 3 horas em média. Os próprios trailers e spots de televisão sugeriam um filme bastante diferente daquilo que acabou sendo, para a decepção do público que esperava que a trilogia Fronteiras do Universo fosse a próxima experiência cinematográfica de fantasia com a magnitude de &lt;em&gt;O Senhor dos Anéis&lt;/em&gt;, como as propagandas davam a entender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não seria impossível suprir essa expectativa, se o filme tivesse sido devidamente apresentado. No final das contas, para fazer de &lt;em&gt;A Bússola de Ouro &lt;/em&gt;um filme excelente não é preciso filmar de novo, pois em todas as suas fases o projeto teve muitas qualidades: um roteiro pertinente, bem adaptado e empolgante, direção de arte impressionante, bela fotografia e trilha sonora, um elenco de ponta com boas atuações, uma direção competente e comprometida. Com um trabalho tão bom em todas as instâncias, é triste que tudo tenha se prejudicado em plena montagem final, quando dois meses antes da estréia foram anunciadas as modificações que puseram muito a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente a versão de Chris Weitz está aí em algum lugar— além de nos vídeos de cenas inéditas do filme que vazaram no vídeo-game, e que nos dão idéia de como as modificações fatídicas foram tomadas na última hora. Muitas das cenas cortadas já estavam prontas, ou eram relativamente baratas de se finalizar, uma vez que as seqüências mais dispendiosas já estavam pós-produzidas. Certa vez o próprio diretor manifestou interesse em fazer uma versão mais longa do filme para o DVD, com duas horas e meia de duração (cerca de 40 minutos a mais que a versão de cinema), idéia que Daniel Craig e Eva Green acolhiam com entusiasmo. Logicamente, ainda sem acrescentar o final cortado, que seria usado na abertura do segundo filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora, com as probabilidades de ser produzido o segundo filme parecendo cada vez mais remotas, o que será da seqüencia final, e de tanto material ótimo que não saiu da sala de edição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chris Weitz está atualmente dirigindo o segundo filme da série &lt;em&gt;Crepúsculo&lt;/em&gt; (no qual também está envolvido o compositor Alexandre Desplat, de &lt;em&gt;A Bússola de Ouro&lt;/em&gt;), o que obscurece ainda mais as perspectivas quanto à filmagem de &lt;em&gt;A Faca Sutil&lt;/em&gt; e lança dúvidas sobre uma potencial versão do diretor de Bússola. Será que Weitz ainda se sente de alguma forma comprometido com o público de Fronteiras do Universo, que ele considerava o trabalho de sua vida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos extras do DVD ele declara que certas vezes, durante a produção do filme, acessou fóruns e sites de fãs na internet e teve “noites insones” com a falta de confiança que muitos desses fãs demonstravam nele, desacreditando que ele seria a melhor escolha para adaptar a trilogia. Pois bem, hoje é reconhecível que ele fez um ótimo trabalho, tanto como roteirista quanto como diretor. Resta-nos assistir à sua visão original do filme e conferir esse trabalho mais adequadamente, sendo que ele não chegou intacto até nós pela versão lançada nos cinemas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-5879841554323713115?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/5879841554323713115/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=5879841554323713115' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5879841554323713115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5879841554323713115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2009/05/por-que-bussola-de-ouro-deveria-ter-uma.html' title='Por que A Bússola de Ouro deveria ter uma versão do diretor.'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-6847807827549482010</id><published>2009-01-27T00:29:00.000-03:00</published><updated>2009-01-27T00:30:38.905-03:00</updated><title type='text'>Preâmbulo</title><content type='html'>O profeta saiu de casa antes do amanhecer. Antes do amanhecer olhou para trás e de imediato censurou a si mesmo por isso. Eis que, tendo então de fato saído de casa, não mais tornou os olhos. Renegou lar e pátria, e não sentiu remorsos. Para sua casa, a madrugada; para sua estrada, o amanhecer. E saiu de casa antes do amanhecer, para seguir de encontro à alvorada sem sentir remorsos. Por isso o profeta não mais tornou os olhos para a madrugada e, farejando o vento das trilhas, encararia a aurora em breve.&lt;br /&gt;Pensou consigo: “Se eu fosse um engenho de treva e bruma, caminharia com pés mais ligeiros, e passos mais sutis sobre relva e rocha sólida. No entanto sou eu relva e rocha sólida, caminhando com um engenho de treva e bruma, sem pés e sem deixar passos. O engenho da treva é ser ligeira; O engenho da bruma é não deixar passos; Nada quero com relva e rocha sólida, exceto ouvir-lhes os muitos sons; Pois treva e bruma são criaturas mudas, enquanto relva e rocha sólida são surdas. E cego é o caminho que vê, porém não fala e nem escuta. Caso se abstenha voluntariamente, eis que é uma criatura destituída de tato. O olfato insuficiente não fareja o vento; O paladar insuficiente não prova do sabor da aurora. Treva e bruma, relva e rocha sólida, vento e aurora. Aquele que tiver todos os sentidos apurados para receber, há de caminhar com pés mais ligeiros e sem deixar passos. É esse o engenho da caminhada.”&lt;br /&gt;O profeta reduziu a velocidade dos próprios passos. Não tinha pressa, conquanto soubesse que a estrada é longa. Tinha consciência de que haveria de se cansar, fosse em hora precoce ou tardia. E estava sozinho. Ninguém sequer lhe dissera “Deus te acompanhe”, e mesmo que o houvessem feito, sabia que nem deuses nem terrenos lhe fariam companhia antes da alvorada. Caminhava sozinho, antes do sol, antes da estrada. Deuses e terrenos ainda estavam para ser encontrados mais adiante. No momento apenas treva, bruma, relva e rocha sólida, elementos que lhe indicariam o caminho. Ainda nem chegara ao ponto de considerar a si mesmo peregrino em terra estranha; E nem receava se perder, porque de fato não tencionava se localizar-- A quem não tem rumo, o vento sopra favorável em qualquer uma das direções. Eis que o profeta seguia farejando a brisa e indo de encontro ao sol que nasceria em breve, sem prova alguma de fazer isso no leste. A madrugada tem suas estrelas, mas elas não conhecem o rumo dos viajantes. O dia trará o ciclo do sol independentemente dos pontos cardeais. Os astros indicam, mas não impulsionam; Iluminam para espelhar algo que tentam enxergar. O profeta não queria trazer luz apenas à própria sala.&lt;br /&gt;Não sentia o profeta fome ou sede, embora nada tivesse provado antes de sair de casa; e sabia que não estava para encontrar alimentos ou água em horas primeiras. Não havia quem lhe desse o pão-- E nunca houvera mesmo, pois o profeta não aceitava receber a parte de quem não sabia dividir; Aceitava de quem soubesse multiplicar, e aceitava esmolas apenas de quem se mostrasse mais pobre que ele próprio. Saíra de casa decidido a aceitar cada vez com mais restrição.&lt;br /&gt;Pressentia o sol. A aurora não tardava, e o profeta estava convicto de possuir olhos para enxergá-la-- Pois antes de iluminar é preciso ver, como antes de falar é preciso ouvir. E o profeta deixaria um mistério, assim como o sol poente anterior deixara, e todos os de outrora... E as vastas noites não eram descanso. Se havia algum, era aquele provocado pela sensação de afastamento, distância. Permanecer de pé, mas parado, era cansativo; permanecer sentado era cansativo; deitar-se de costas e observar o céu obscuro era cansativo-- apenas os passos mais largos eram restauradores, confortavam e davam abrigo. Tinham mais valor que os passos ásperos, demorados, pomposos e os quais erroneamente pensavam conduzir adiante. Antes mesmo de amanhecer, largo e ligeiro era o passo do profeta.&lt;br /&gt;O cheiro ao redor lembrava-lhe aquele de laudas antigas-- A erudição não tem cheiro de papel, e ele sabia disso. Ora, então era muito bom sentir insigne cheiro ainda tão no início da jornada. O futuro poderia mudar isso, porém alterando apenas o presente vindouro-- O passado entrara na Eternidade, tornara-se indestrutível. Onde o profeta pisara, pisara; e não mais havia meios de alguém desmarcar ou anular esses passos, mesmo que tenham eles sido impressos em terra anteriormente ao sol nascer, pois é um ato que não precisa de testemunhas, sob luz ou sombra, em horas últimas ou primeiras. O profeta não queria que lhe fosse dada a capacidade, se é que tal havia, de reverter ou alterar os passos dados, pois enxergava mais facilmente a mão do desígnio naquilo que era irreversível.&lt;br /&gt;Aguardando, o profeta sabia que sua aurora não seria a dos outros, tampouco a de todos. Apresentar-se-lhe-iam novas forças, independentemente da vontade alheia e dos esforços de seus futuros e inevitáveis adversários-- E ele fazia questão de contar com mais opositores que aliados em quantidade. Mesmo a solidão parecia mais valiosa, sabendo que em algum outro ponto do espaço e do tempo havia oponentes e aliados, pois a solidão mais absoluta deixava de ser desterro para tornar-se onipresença. O amanhecer não era solitário, pois seus companheiros eram os iluminados, porém não era onipresente, pois não chegava até os confins do universo sendo a mesma combinação. Assim sendo, todos poderiam procurar por suas próprias auroras, de qualquer sol-- E sempre haveria um dia seguinte para encontrar a iluminação.&lt;br /&gt;O profeta percebeu a mudança na coloração do céu, dos horizontes, especialmente adiante, onde uma faixa azulada, mais clara que a grande região umbrosa, começava a se expandir. Não era um anúncio. O profeta estava acostumado a escutar o canto dos pássaros, mas naquele momento esse som canoro não tocava aquele campo e aquela trilha, pois ali não mais havia pássaros ou criaturas terrestres-- apenas o engenho de treva e bruma, cantando para o iniciado e animando-lhe o empenho. O próprio amanhecer era uma triste canção de nostalgia penetrando por entre as altas árvores, chegando em toda parte. O profeta, considerando que havia poucas árvores às margens da trilha-- a densidade da floresta era mais adiante--, poderia olhar para cima e enxergar nada mais que a imensidão sem molduras. Não queria um céu sem nuvens, e o que tinha eram nuvens finas, pouco visíveis ainda na penumbra e não conseguindo velar estrelas. O sol era o que vinha para velar muitos astros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-6847807827549482010?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/6847807827549482010/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=6847807827549482010' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6847807827549482010'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6847807827549482010'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2009/01/preambulo.html' title='Preâmbulo'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-4118899517138179352</id><published>2008-11-26T21:24:00.000-03:00</published><updated>2008-11-26T21:25:59.111-03:00</updated><title type='text'>A Criatura Suprema</title><content type='html'>Naquele horário demoraria bastante até passar um ônibus que levasse Céli daquele longínquo bairro de volta para casa, em um bairro mais longínquo ainda ao outro lado da cidade, e ele queria dormir o quanto antes, por isso subiu na primeira laje que achou conveniente e se acomodou ali. Era a laje de um prédio em cujo primeiro andar funcionava uma padaria, e no segundo a presumível residência do padeiro; mas o prédio todo estava então fechado e com as luzes apagadas. De fato, quase não havia iluminação e movimentação na rua inteira: alguns postes acesos na calçada do outro lado e pouquíssimas casas iluminadas eram mais tênues que as densas nuvens avermelhadas retendo outras luzes da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Céli deitou-se na laje empoeirada, primeiro estirado, mas depois encolheu-se um pouco contra a fachada do prédio, pois soprava um constante vento frio prenunciando chuva. Céli olhou para a calha mais acima e supôs que não se molharia tanto se a chuva não viesse muito forte. Embora ele não gostasse nada de frio, tirou a camisa para deitar-se sobre ela quando concluiu que ficar com a cabeça nas pedras era pior que ficar com pouca roupa no vento frio, e encolheu-se mais. Apesar disso, ele não demorou nada para dormir após ignorar por completo os sinais de chuva, a superfície áspera da laje e até a possibilidade de mexer-se durante o sono e cair dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas em seu sonho também havia sinais de chuva. Acontece que o evento onírico não se passava mais em uma rua abandonada pelo poder público, e sim em uma ampla floresta, durante o que parecia uma serena manhã. Havia árvores espantosamente altas e muitas folhas no chão, e feixes de luz passavam pelas ramificações e pela neblina. Ainda estava frio, mas era agradável e acolhedor, e tanto melhor ficou quando veio a cair a chuva fina, cujo som nas folhas de relva era suave e onipresente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar era pressentido como infinito, mas Céli chegou a um rio sem outra margem. O semi-humano pensou em atirar-se na água, mas em vez disso pôs-se a escalar uma árvore. Teve muito trabalho até alcançar um dos galhos mais baixos e firmar-se nele, após o que seguiu passando para os mais altos. Ele não conseguia enxergar quanto ainda faltava subir para chegar a céu aberto, e conquanto subisse sempre havia mais ramificações a percorrer, além de que mais pálida ficava a luz do sol, mais forte se tornava a chuva nas alturas e mais impelido Céli se sentia. Em meio à chuva ele estava transpirando e não sentia frio. De certo momento em diante, ele perseguia implacavelmente uma forma luminosa indefinível através das ramas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva era então tempestade, e a luz do sol era opaca e bruxuleante. Céli ia com agilidade no encalço da figura luminosa, absorto e quase eufórico aproximando-se de sua presa, as garras à mostra e os dentes brilhando. Em certa altura a presa parou e virou-se como acuada, embora não estivesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu desisto - falou a figura quando Céli postou-se diante dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Render-se não adianta nada - respondeu o semi-humano. Estava mais relaxado, mas ainda respirando depressa e encarando sua preza com avidez. - Resistir também não, mas eu deixo que tente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele saltou sobre a figura e ambos lutaram, acabando por cair do alto das árvores. Céli nadou e chegou até a suposta outra margem inexistente do rio. Saiu exausto da água e ficou deitado à margem, sob a chuva outra vez fina. Mais tarde ele se levantou com algum esforço e olhou ao redor. Ali era um campo, não mais floresta, mas o ambiente não demonstrava mudança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em breve a figura também emergiu, e rastejou até Céli. Tinha perdido a luminosidade e parecia um vestígio; por outro lado, demonstrava alguma potência que não tinha em sua forma anterior. Céli olhou com extática frieza para o ser a seus pés e, sob a chuva, voltou-se para as alturas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Os deuses me reconhecem como a criatura suprema do céu e da terra. Vamos, portanto, agora que temos coisas a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele despertou preguiçosamente, sacudiu os cabelos molhados e ficou alguns minutos sentado na laje empoçada, observando o movimento da rua e remoendo o que ainda conseguia lembrar sobre o sonho. A posição do sol indicava que já era quase meio dia, mas continuava chovendo e estava tão nublado que parecia ainda o início da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente Céli contou algumas moedas que tinha em um dos bolsos. Eram poucas, mas bastavam para um desjejum regular, por enquanto; o semi-humano resmungou consigo por causa da pequena quantia, porém aquilo era melhor que nada, de qualquer modo. Ele desceu da laje, torceu a camisa molhada, vestiu-a e entrou na padaria com ar de tédio, como quem estivesse farto de andar na rua em dias chuvosos e sombrios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-4118899517138179352?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/4118899517138179352/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=4118899517138179352' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4118899517138179352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4118899517138179352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2008/11/criatura-suprema.html' title='A Criatura Suprema'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-1689483015509421500</id><published>2007-11-07T03:34:00.000-03:00</published><updated>2007-11-07T03:52:02.230-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (VI)</title><content type='html'>Como Semjaza escutou o ultimato do arcanjo Miguel com total apatia e renúncia a tudo, o Demiurgo tomou Azazel pelo líder da profanação:&lt;br /&gt;- A terra inteira foi maculada pelos efeitos dos ensinamentos de Azazel. Toda a culpa do crime recairá sobre ele.&lt;br /&gt;     As forças do Reino do Céu e os Vigilantes entraram em batalha entre o céu e a terra, e a derrota dos anjos decaídos aconteceu não muito depois. A sentença imposta foi aquela mesma anunciada a Semjaza, e disse o Demiurgo ao arcanjo Rafael:&lt;br /&gt;- Ata as mãos e pés de Azazel e atira com força pedras pontiagudas sobre ele, envolvendo-o em trevas; cobre sua face para que não possa enxergar a luz.&lt;br /&gt;     Mas Semjaza, que permanecia na mesma condição de antes e não participara da guerra, acabou sendo ignorado e esquecido por ambos os lados, e ele também ignorava tudo.&lt;br /&gt;     Por fim, o Demiurgo avaliou a corrupção da terra e a proliferação dos filhos dos Vigilantes. A solução que ele concebeu foi precipitar o grande dilúvio e devastar a terra na tentativa de purificá-la. Esse desastroso evento afinal chamou a atenção de Semjaza, mas ele nada pôde fazer senão lutar ele próprio pela vida buscando abrigo no cimo das montanhas. Quando as águas descobriram a terra, Semjaza soube que seus filhos estavam destruídos, e provavelmente também a memória daqueles episódios, a não ser pela história que o lado vencedor contaria à sua maneira.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Azazel espetou o demônio outra vez com a tenaz em brasa, mas em vez de gritar ou se debater Semjaza encarou-o de volta e questionou:&lt;br /&gt;- A sua decisão é essa? Acha que fazendo conseguirá que eu deseje estar em seu lugar? Isso é o que esclarece nossas diferenças, não podemos trocar de posição. Meu valor mais alto, agora vejo, difere muito do seu. Por muito tempo estive equivocado achando que o seu era o meu também.&lt;br /&gt;     O anjo fez menção de responder, mas não conseguiu e atirou a tenaz para longe.&lt;br /&gt;- Assim é melhor, mas tente se acalmar- continuou Semjaza.- A inveja pode ser muito boa, você sabe; ou deveria saber. Mas por que nós, até nós, anjos caídos que não nos importamos com o pecado, nos recriminamos pela inveja enquanto cultivamos de consciência limpa pecados muito mais graves?- E sem ter resposta, ele prosseguiu:- Se não fosse pecado, talvez nos recriminássemos do mesmo modo, porque parece um sentimento de inferioridade, mesquinho e egoísta, mas não é da natureza de um demônio pensar dessa maneira. Para um demônio a inveja não representa inferioridade, mas vontade de poder, e nós realmente sabemos nos aperfeiçoar com isso. Acontece que somos muito narcisistas, e em nossas relações com os outros sempre pressupomos nossa superioridade e olhamos de cima até aqueles que invejamos. Temos para nós que a inveja é passagem para um estado mais sublime, uma forma excelente de se orientar, assim sabemos como se aliar aos mais fortes e usar os mais fracos. Também é a melhor forma de auto-conhecimento, pois é uma medida para conhecer os outros, e nos conhecer em relação a eles, e finalmente nos conhecer em relação a nós mesmos. Você, posso dizer, só estou conhecendo hoje; o que eu conhecia antes não era você de verdade, era um ídolo que eu mesmo criei e usei, e só me arrependo de não ter aprendido o suficiente com ele na época, por erro meu e idéias erradas. Se eu já fosse demônio desde então, seríamos muito mais próximos. Mas posso dizer que somos bastante, não se sinta desolado.&lt;br /&gt;     O anjo olhava-o com resistência, o orgulho por um fio, mas não tomou iniciativa de falar, e Semjaza acrescentou:&lt;br /&gt;- Se precisar de um ídolo, eu estou disponível, até você se recuperar. Imagino que já podemos sair daqui e resolver isso.&lt;br /&gt;     Azazel abraçou o demônio, desatou-o das correntes e seguiu-o com passos caninos pelos corredores da catedral até o quarto de D. Rossini. Ao vê-los, o arcebispo praguejou mais alto que o coro cantando o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dies Irae&lt;/span&gt; do réquiem e berrou ordens para Azazel, mas o anjo, acolhido pela sombra de Semjaza, ignorou-o. Quanto a Semjaza, recolheu sua espada no canto do quarto e D. Rossini, pensando que seu fim chegara, não se moveu. Ele aguardava o golpe quando começou &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Lacrimosa&lt;/span&gt;, mas o demônio tinha seus termos para negociar.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Semjaza escutou aquele réquiem outra vez um mês depois, no escritório de advocacia que era fachada do Sindicato da Ascensão, e pediu para diminuir o volume.&lt;br /&gt;- Não gosta dessa música?- perguntou Vinçart.&lt;br /&gt;- Barulhenta demais, com muita gritaria, e muito irregular- resmungou o demônio.&lt;br /&gt;- Então procure escutar o de Dvorak, acho que combina mais com você.- Vinçart consultou o relógio.- Sikes está muito atrasado. Terá acontecido algo?&lt;br /&gt;- Pouco provável. Azazel já provou sua eficiência e confiabilidade como guarda-costas.&lt;br /&gt;- É o que parece, mas ainda acho que foi precipitada a sua idéia de fazer acordo com D. Rossini, o risco era muito grande e o resultado poderia ser desastroso.&lt;br /&gt;- Mas eu não cometi nenhum erro, afinal de contas- disse Semjaza.- Não deixei nenhuma cláusula de que aquele sujeito pudesse se aproveitar, e não dei muita escolha a ele, além de sobreviver ou não.&lt;br /&gt;- Você estava blefando- observou Vinçart.&lt;br /&gt;- Estava, afinal não imaginei que ele valorizasse tanto assim a própria vida a ponto de negociá-la em troca da tutela de Azazel e da própria fortuna. Algumas vezes ainda julgo errado os humanos.&lt;br /&gt;- O único juiz é o tempo, o resto são palpiteiros- disse Vinçart, enquanto o coro do réquiem sussurrava “quando judex est venturus”.- Não obstante, você fez um bom trabalho.&lt;br /&gt;- Agora que D. Rossini fugiu para o exílio, a Igreja está fora do nosso caminho- disse Semjaza, indo até a janela.- Nossa próxima meta é o Estado, o leviatã onde desde os nossos tempos os demônios têm encontrado asilo e buscado a realização de seus valores.&lt;br /&gt;     Os metais do &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tuba Mirum&lt;/span&gt; começaram a soar. Vinçart aumentou o volume, e Semjaza continuou a olhar pela janela fechada a tempestade lá fora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-1689483015509421500?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/1689483015509421500/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=1689483015509421500' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/1689483015509421500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/1689483015509421500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/11/dia-da-ira-vi.html' title='Dia da ira (VI)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-5622604396501214960</id><published>2007-10-31T03:04:00.000-03:00</published><updated>2007-10-31T03:12:28.198-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (V)</title><content type='html'>Semjaza achava belas todas as mulheres humanas, mas as consortes de Azazel eram mais ainda, pois ele lhes criara adornos e as ensinara a se enfeitar, e aos homens ensinara a fabricar instrumentos de guerra, assim instigando, algumas vezes propositalmente ou não, rivalidades e morticínios sobre a terra.&lt;br /&gt;     Mas nesse período Semjaza se encontrava frustrado e abalado demais para perceber esses acontecimentos, e por muito tempo ele ficou vagando em lugares ermos, evitando os seus companheiros angelicais e os humanos, alheio às obras desses e daqueles, e também às de seus próprios filhos, como dos filhos dos outros Vigilantes. Assim ele estava distante e sozinho com suas mágoas, enquanto cresciam os males do mundo e a humanidade travava longas guerras fratricidas.&lt;br /&gt;     Por outro lado, quem estava atento era o Demiurgo, o governante do Reino do Céu, e ele sabia que seu objetivo de controlar a humanidade poderia ser frustrado se os filhos dos anjos rebeldes se tornassem numerosos a ponto de os Vigilantes poderem rivalizar com ele. Assim ele disse ao arcanjo Miguel:&lt;br /&gt;- Vai a Semjaza e anuncia seu crime, e a todos os que a ele se associam, que se uniram às mulheres e se corromperam de impureza, e abandonaram o estado perpétuo de santidade. Dize-lhes que serão testemunhas da destruição de seus filhos, em conseqüência de todos os seus atos de blasfêmia. &lt;br /&gt;     O arcanjo Miguel desceu à Terra com consentimento, em espírito, e ao finalmente encontrar Semjaza no deserto avisou-lhe que uma sentença pendia sobre ele e seus companheiros:&lt;br /&gt;- Ele vos aprisionará. Não obtereis paz nem compaixão, pela tirania e opressão que ensinastes sobre a terra. Quando vossos filhos forem mortos, sereis amarrados por setenta gerações debaixo da terra, até o dia da ira e da consumação se completar. Naquele dia sereis precipitados na profundeza de fogo e atormentados para todo o sempre.&lt;br /&gt;     Semjaza escutou com apatia, e por fim respondeu:&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não ligo a mínima.&lt;br /&gt;     A mesma resposta que ao arcanjo Miguel, Semjaza deu várias eras depois a D. Rossini na sombria sala de interrogatório da Catedral da Santa Sé.&lt;br /&gt;- Ainda não chegamos ao extremo- bufou o arcebispo.- Tenho paciência, ainda podemos prolongar seu sofrimento por semanas ininterruptas.&lt;br /&gt;- Já fui ameaçado com o tormento eterno, e não me importei. Por que algumas semanas deveriam me assustar?- sussurrou Semjaza, acorrentado à parede com os braços abertos.&lt;br /&gt;     Azazel espetou-lhe mais algumas vezes o torso despido com a tenaz em brasa, e até ele parar de se debater D. Rossini ficou andando de um lado a outro entre os hediondos instrumentos da sala. Quando o demônio estava de volta em condições de dialogar, o arcebispo parou diante dele e olhou-o nos olhos opacos.&lt;br /&gt;- Quer dizer algo?&lt;br /&gt;- Eu já fui ameaçado com o fogo perpétuo, e isso é só uma tenaz- disse Semjaza.&lt;br /&gt;     D. Rossini golpeou-o a socos e chutes, agora sem nenhum espírito metódico ou sentido técnico, apenas com raiva comum. Ele já havia tentado várias formas de tormento e o demônio não demonstrava o desespero pressuposto, nem fazia menção de se render. Por fim o arcebispo enxugou o suor do rosto com a veste eclesiástica e procurou novamente os olhos de Semjaza.&lt;br /&gt;- Você vê que eu sou um negociante, não um inquisidor- apelou D. Rossini.- Quero falar de negócios, portanto. Não sei por que você está desperdiçando com essa teimosia o tempo que poderíamos aproveitar acertando nossas cláusulas. Sabe, você não tem escapatória nenhuma. Sua missão para me matar era sigilosa, logo ninguém sabe que está aqui. A única maneira de você sair vivo e inteiro é aceitar as minhas disposições. Por que não pode fazer isso? Prefere ficar sofrendo, enquanto os danos se tornam cada vez mais irreparáveis?&lt;br /&gt;- Apesar de na maioria das coisas você não ter nenhuma razão- suspirou Semjaza-, pelo menos tinha quando disse que as criaturas elevadas escolhem a satisfação do espírito, não do corpo. D. Rossini, meu espírito está melhor do que esteve em muitas eras, e lidar com essa felicidade é tão difícil que não consigo pensar em mais nada, nem na dor, nem em negócios. Mas não se incomodem, podem continuar, finjam que eu nem estou aqui.&lt;br /&gt;     D. Rossini xingou enfurecido, e Azazel sugeriu humildemente:&lt;br /&gt;- Ele deve estar entorpecido, e só vai ficar cada vez mais, até a inconsciência. Não seria melhor pararmos até ele recuperar a lucidez?&lt;br /&gt;- Com os diabos, não!- gritou D. Rossini.- Você é outro idiota! Continue, e progressivamente use meios mais drásticos até ele ceder, ou morrer!- Ele respirou fundo e enxugou outra vez o suor do semblante.- Vou para o meu quarto, avise-me quando conseguir um desses resultados.&lt;br /&gt;     O arcebispo foi embora em passos rápidos, e a sala passou alguns minutos em silêncio. Azazel passou vários minutos parado, segurando inocentemente a tenaz em brasa, e parecia mais mortificado que sua vítima. Semjaza levantou a cabeça com esforço, e tentou falar o mais próximo possível do anjo:&lt;br /&gt;- Não sinta inveja. Em vez de invertermos nossas posições, eu escolheria nos resolvermos definitivamente. Sei como se sente, e deixo você decidir quando quiser.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-5622604396501214960?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/5622604396501214960/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=5622604396501214960' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5622604396501214960'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/5622604396501214960'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/dia-da-ira-v.html' title='Dia da ira (V)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-503224481846842493</id><published>2007-10-27T05:00:00.000-03:00</published><updated>2007-10-27T05:15:12.469-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (IV)</title><content type='html'>Semzaja não tinha tanta dificuldade em seduzir mesmo as mulheres que menos lhe interessavam, e procurava-as sem muito critério estético; achava todas belas por serem humanas e tinha preferência pelas que ele mais invejava de algum modo. Inveja sempre fora seu pecado predominante e seria seu tabu se ele achasse possível ignorá-la, mas não conseguindo vencer esse sentimento, usou-o como orientador.&lt;br /&gt;Imaginava, pois, que ao seduzir uma mulher ele provava não ser inferior a ela em nada, e que ao fazê-la se entregar inoculava a inveja, pois tinha a idéia de que não fazia sentido continuar a invejá-las depois de tê-las possuído, assim perdia o interesse após a primeira e única vez e saía em busca de outra.&lt;br /&gt;     Eram poucas as que não se encantavam pelo anjo, mas a resistência dessas o abatia e o tornava mais agressivo com as que ele conseguia; até ele perceber que isso geralmente as deixava mais apaixonadas do que ele pretendia, e ele por sua vez ficava mais entediado e frustrado. Naquela altura ele tinha conquistado mais ou menos o mesmo que D. Giovanni na Alemanha, cerca de duzentas e trinta almas.&lt;br /&gt;     Justamente depois de escapar dos braços da sua ducentésima trigésima e dos beijos que ela ainda tentava lhe dar, Semjaza passou o dia perambulando e encontrou Azazel junto a outros anjos do bando, seus admiradores mais habituais. Os dois conversaram em particular sobre o que esperavam de sua descendência oriunda de violação da lei do Reino. A progênie dos Vigilantes poderia dominar a terra, e um dia também o céu. Então Semjaza perguntou quantas filhas dos homens Azazel havia conseguido para si, e a resposta por sua vez foi mais ou menos o mesmo que D. Giovanni na Espanha, cerca de mil.&lt;br /&gt;- E quanto a você?- quis saber Azazel.- Algo perto disso, imagino.&lt;br /&gt;- Talvez seja, eu perdi a conta- respondeu Semjaza amuado, e desta vez ele realmente desejava ter a força para ferir seu rival.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     D. Rossini sentou-se em sua cama e ligou o rádio, prosseguindo o réquiem de Verdi no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Tuba mirum&lt;/span&gt; enquanto Azazel tentava subjugar o demônio. A resistência de Semjaza não durou muito, e no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Judicanti responsura&lt;/span&gt; ele já estava no chão, com Azazel segurando-o pelos braços e pescoço.&lt;br /&gt;- Espero ter deixado claro- disse D. Rossini depois de pausar a música outra vez- que podemos matá-lo se quisermos, Semjaza. Não tem medo do Juízo? Esse dia ainda chegará, você não pode escapar. Mas pode fazer como Azazel e aguardar em liberdade.&lt;br /&gt;- Ele se considera livre, fazendo serviço para a Igreja?- perguntou Semjaza, e em resposta Azazel apertou lhe mais o pescoço.&lt;br /&gt;- Responda com educação - censurou o arcebispo.&lt;br /&gt;- Não, eu não estou livre- fez o anjo-, mas a vida que tenho aqui não é pior que a no cativeiro. Eu prefiro como estou agora.&lt;br /&gt;- Imaginei que alguém com o seu orgulho negaria esse serviço como condição e continuaria lá mesmo- insistiu Semjaza.&lt;br /&gt;     Azazel não respondeu, mas sim D. Rossini:&lt;br /&gt;- O orgulho foi dissipado pelo longo tempo de tortura na punição, entenda. Azazel não suportou os tormentos físicos que lhe infligiam no cativeiro e prefere os tormentos morais de estar a meu serviço, é simples. Só os seres superiores resistem a qualquer provação imposta a sua matéria e escolhem sempre a sublime satisfação apenas do espírito, jamais do corpo. Vocês anjos deviam entender isso mais do que ninguém.&lt;br /&gt;     O anjo não se alterou, mas Semjaza pôde deduzir a vergonha que seu antigo rival sentia naquele momento, e disse:&lt;br /&gt;- Se é assim, parece que eu não o conhecia bem, e tive durante muito tempo uma falsa idéia positiva dele. Estou muito decepcionado, D. Rossini, suas palavras me desiludiram sumamente.&lt;br /&gt;- Mas você verá agora que não pode culpá-lo - disse o arcebispo, levantando-se.- Azazel, leve-o para a sala de interrogatório. Você resistiu durante um tempo considerável, mas ele ainda hoje fará a mesma escolha que você, eu garanto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-503224481846842493?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/503224481846842493/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=503224481846842493' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/503224481846842493'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/503224481846842493'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/dia-da-ira-iv.html' title='Dia da ira (IV)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-4478274870948898162</id><published>2007-10-23T03:16:00.000-03:00</published><updated>2007-10-23T03:21:18.391-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (III)</title><content type='html'>- Carne e osso, quer dizer?- perguntou Semjaza ansioso.&lt;br /&gt;- É claro- disse Azazel com evidente desprezo por sua forma etérea e luminosa de anjo.- Sem dúvida é possível. Se conseguimos ver a Terra, e eventualmente descer até lá em espírito, e até conseguir contato remoto com os seres humanos, e eles conseguem chegar até aqui em espírito, podemos chegar lá em carne e osso.&lt;br /&gt;- É uma idéia perigosa- avisou Semjaza. Ele de vez em quando olhava ao redor para ter certeza de que a conversa não tinha espectadores inesperados.&lt;br /&gt;- Se ela der certo, não teremos nada a temer- comentou Azazel.- Ninguém poderá nos alcançar na terra. Seremos livres do Demiurgo.&lt;br /&gt;- Sua ambição está indo mais longe. Eu acho melhor esquecermos esse projeto.&lt;br /&gt;- Não seja covarde- reclamou Azazel.&lt;br /&gt;     Ele empurrou o companheiro até os feixes de luz onde podiam observar a Terra.&lt;br /&gt;- Veja a progênie dos homens- continuou ele-, e como são belas suas filhas. Gosta de alguma, ou de várias? Como se sente por não poder alcançá-las?&lt;br /&gt;     Semjaza não respondeu, e se afastou da visão com raiva.&lt;br /&gt;- Por que anjos?- disse mais tarde.- Devíamos ter sido homens.&lt;br /&gt;- Inveja é pecado- falou Azazel, como instigação e não censura.- E isso pode ser resolvido. Podemos deixar de sentir inveja dos homens se os conhecermos mais de perto, é tudo muito diferente de olhar daqui. Podemos ser melhores que eles, se assumirmos forma corpórea naquele mundo.&lt;br /&gt;- É verdade- disse Semjaza esperançoso.- Os pecados mais graves cometeríamos se tivéssemos sucesso. E não suporto mais, meu desejo é mais intenso que o medo das conseqüências. Que faremos?&lt;br /&gt;- Eu cuido disso. Conheço muitos que odeiam o Demiurgo, e farei com que se aliem a nós nessa ambição, quase duas centenas eu garanto que me seguirão. Mas se quisermos organizar um movimento, você deve ser o líder, porque é de hierarquia mais elevada que a minha.&lt;br /&gt;- Apesar disso, acho que você deve liderar- fez Semjaza como admitindo algo que não queria.&lt;br /&gt;- Não se sinta inseguro- disse Azazel.- Siga as minhas instruções e será um bom líder para o movimento. Além disso, você está mais apaixonado que eu pelas filhas dos homens, isso lhe dará mais coragem, e facilitará que nos tornemos como homens.&lt;br /&gt;- Como fazer isso?&lt;br /&gt;- Se todos nós dirigirmos nossas vontades e nossa intenção de coabitar com os humanos, faremos um juramento em nome dessa violação, e teremos natureza de matéria, pois nossos sentimentos são dessa natureza.&lt;br /&gt;     Semjaza concordou, e em pouco tempo duas centenas de anjos aderiram à causa através de Azazel. No topo do monte Armon, uniram-se a Semzaja por juramento, e desceram à terra, alados e luminosos, mas com aparência e sentimentos humanos.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele nunca saiu da linha que eu tracei- disse Azazel, postado entre o demônio caído e D. Rossini.- Apesar de ele ser o líder do movimento, não consegui esconder dos inimigos que era eu quem dava as ordens, assim ele não fui punido com mais rigor do que eu.&lt;br /&gt;     Semjaza levantou-se e tentou encarar seu antigo companheiro, mas baixou os olhos pouco em seguida, não só por estar intimidado, mas para procurar a espada também. Ela estava em um canto mais distante.&lt;br /&gt;- Já é o suficiente para aceitar os meus termos, Semjaza?- perguntou D. Rossini.- Ou Azazel precisa lhe trazer mais lembranças inconvenientes?&lt;br /&gt;- O que fazem juntos?- perguntou Semjaza com alguma timidez.&lt;br /&gt;- Ele já me contou tudo, sobre como vocês fizeram juramento execrável, seduziram mulheres e copularam com elas, e ensinaram sortilégios às pessoas, provocaram rivalidade e genocídio, infestaram a terra de pecado e todo tipo de malefício. Azazel está a meu serviço como pagamento por seus crimes, foi essa a condição para o Demiurgo libertá-lo de seu cativeiro. Mas podemos explicar tudo mais tarde, depois que estivermos resolvido, aí vocês colocam suas fofocas em dia. O que me diz?&lt;br /&gt;     Semjaza fitou D. Rossini em vez da figura daquele anjo que ainda lhe parecia extremamente imponente, mais do que sua própria forma de demônio.&lt;br /&gt;- Ainda não me convenceu de que devo me render- blefou ele.- Já falei que não tenho mais vínculo com minha forma anterior. Azazel também não é o mesmo de antes, se aceitou esta liberdade condicional servil.&lt;br /&gt;- Por via das dúvidas, mostre a ele os nossos motivos- suspirou o arcebispo para o anjo, e Azazel saltou sobre o entorpecido Semjaza antes de a ordem terminar de ser dada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-4478274870948898162?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/4478274870948898162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=4478274870948898162' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4478274870948898162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4478274870948898162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/dia-da-ira-iii.html' title='Dia da ira (III)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-6997643840787928550</id><published>2007-10-21T02:47:00.000-03:00</published><updated>2007-10-21T02:53:29.306-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (II)</title><content type='html'>Semjaza avançou um passo.&lt;br /&gt;- Isso não me importa. Sou inteiramente demônio, e a vida que tive quando era anjo perdeu o vínculo com o meu eu atual. Pode publicar o que quiser, será a biografia de um anjo caído que não existe mais, ele não poderá se ofender nem ser afetado de qualquer modo por essa tolice. Talvez você tenha faltado a aula de teologia em que ensinaram esse detalhe natural. Quanto ao seu quarto de hora, creio que já terminou.  Adeus, D. Rossini.&lt;br /&gt;- Verá que não pode me ferir- disse depressa o arcebispo.- Se não acredita em mim, ou acredita e realmente não se importa, talvez comece a se preocupar quando souber qual é a minha fonte. Ainda temos o que conversar, e há mais coisa que preciso lhe dizer.&lt;br /&gt;-Estou esperando- disse o demônio em guarda.&lt;br /&gt;- Eu me precavi contra a sua teimosia, e tenho um guarda-costas que você não conseguiu burlar nem eliminar. Ele está aqui, portanto não faça nada precipitado. Quero conversar mais um pouco, e no final você estará convencido de que eu venci. Você é esperto, mas, receio dizer, não é sagaz, e se mete onde não tem capacidade para estar: na liderança dos anjos rebeldes, na cúpula da organização de Josef Sikes, enfim. Acredito que todo ser tem o dom da evolução, e me pergunto se você, agora que é demônio, evoluiu em algo. Parece-me, desculpe a sinceridade, a mesma coisa de antes.&lt;br /&gt;- Sempre blefando, D. Rossini- sussurrou Semjaza-, e apelando cada vez mais para besteiras. Para começar, eu teria percebido a presença de um guarda-costas por mais escondido que ele estivesse. Sem dúvida você não entende a percepção dos demônios. E depois, se eu cheguei a essas posições, possuo algum mérito, ou não teria permanecido nelas nem um dia. Não importa. Você não pode me provocar com esses fantasmas antigos, eu já superei a maioria, e os que ainda não superei estão fora do seu alcance para usá-los contra mim.&lt;br /&gt;- Se é assim, por que está se justificando, em vez de me matar imediatamente?&lt;br /&gt;- Porque estou entediado, talvez.&lt;br /&gt;- Entendo. Será que está farto de ser um demônio, ou não se adaptou? Gostava de como tudo era antes, apesar de suas crises? Sente-se nostálgico de algo que odiava? Se agora tem poder e grandeza, quer sentir carência e inveja outra vez? Pode dizer, sinta-se no confessionário. Quero olhar em sua alma para curá-la. Será mais proveitoso para mim um adversário forte, e não um miserável. Um grande demônio, não um cãozinho, o que você ainda não deixou de ser.&lt;br /&gt;Semjaza atirou-se contra o homem, mas antes de golpear D. Rossini com a espada ele próprio sentiu um golpe que o lançou à parede e fez a arma escapar de suas mãos.&lt;br /&gt;- Eu avisei que a mentira não é um dos meus vícios- disse irritado o arcebispo, e a seu lado um anjo luminoso encarava o caído Semjaza.- Mas você já conhece o meu guarda-costas, é claro. Ele reconheceu você mesmo em forma de demônio e depois de tanto tempo. Faça o favor, Azazel, não deixe este demônio sair da linha outra vez, espero vê-lo manso como antigamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-6997643840787928550?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/6997643840787928550/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=6997643840787928550' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6997643840787928550'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6997643840787928550'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/dia-da-ira-ii.html' title='Dia da ira (II)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-6851092094288656874</id><published>2007-10-20T17:25:00.001-03:00</published><updated>2008-09-03T01:24:27.145-03:00</updated><title type='text'>Dia da ira (I)</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Continuação do "Oferta irrecusável", e tudo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O réquiem de Giuseppe Verdi fazia os vidros do quarto vibrarem em ressonância com o inquietante &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Dies irae&lt;/span&gt;, mas o homem deitado na cama, em trajes eclesiásticos, parecia muito relaxado, mãos cruzadas como um defunto, olhando o teto da ampla câmara, esperando um visitante. De vez em quando olhava na direção da grande janela em busca de alguma figura voadora passando.&lt;br /&gt;Antes de chegar, porém, no &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Mors stupebit&lt;/span&gt;, ele se levantou e desligou o rádio. O silêncio absoluto durou até a porta se abrir e a figura demoníaca segurando uma espada entrar na câmara mal iluminada do arcebispo.&lt;br /&gt;- Bem vindo à Catedral da Santa Sé- disse o homem.- Mas não se apresse em me matar, Semjaza. Eu o aguardei o dia todo, garanti que a catedral ficasse vazia, e pensei muito sobre como poderíamos chegar a um acordo, portanto você deve me escutar. Pode me dar algum tempo antes de cumprir a sua missão?&lt;br /&gt;- Um quarto de hora, D. Rossini- respondeu o demônio fechando a porta atrás de si.&lt;br /&gt;- Deve bastar. Então, o velho Sikes continua irritado comigo por eu haver tentado matá-lo? Não sei por que tanto ressentimento, ele perdoou muitos dos que tentaram mandá-lo para S. Pedro desde que ele era menor de idade. E veja bem, o meu caso foi puramente uma questão de negócio, afinal somos concorrentes, mas podemos chegar a uma resolução financeira, sem ressentimento nenhum. E é graças a minha, por assim dizer, intervenção-- talvez por uma Providência--, que você conseguiu fazer com ele o notável contrato, e ficou em tão boa forma. Não pode mostrar um pouco de gratidão?&lt;br /&gt;- Não sei- disse Semjaza.- Para agradecer, eu lhe daria tempo para se reconciliar com o seu odioso deus e renunciar a seus incontáveis pecados, mas um quarto de hora não seria tempo suficiente, e eu não quero passar o resto da eternidade aqui até você terminar. Penso que não tem necessidade, mesmo.&lt;br /&gt;- E o que pretende fazer depois de me matar? Procurar uma mulher, para lembrar os dias de antigamente?&lt;br /&gt;- É uma boa idéia até, mas não faço questão de lembrar nada. E se você falar nesse assunto outra vez, vou adiantar os minutos que faltam.&lt;br /&gt;- Eu conheço o seu passado- prosseguiu D. Rossini-, e de fontes mais confiáveis que textos apócrifos ou teorias inúteis de teólogos ociosos. Para falar a verdade, sei tanto sobre você que poderia escrever um imenso volume a respeito. Aliás, eu já fiz muitos rascunhos, alguns bastante compridos, e os incluí no meu espólio. Sabia que estou doente?- O demônio não respondeu, então o arcebispo retomou:- O importante é que, se eu morrer, alguns documentos muito interessantes, cheios de curiosidades, vão ser publicados sobre você em um ensaio póstumo. Eu os tenho escrito nesses últimos meses, enquanto você e Sikes me procuravam pelo mundo todo. Ele não pode ter pensado que eu não faria nenhum movimento...&lt;br /&gt;- Está blefando- disse Semjaza com frieza.&lt;br /&gt;- Um de nós está, e se me matar descobrirá qual. Se não me matar, ainda penso em fazer-lhe chantagem, talvez também a Sikes, se conseguir material suficiente. Vamos, você não é um mero botão daquele bandido, você também tem espírito negocial, então em vez de se irar comigo pense nas possibilidades. Você rejeita seu passado e não suportará se eu o desenterrar. Se você tiver uma crise moral, que poderá acontecer? Isso influenciaria em seu contrato? Caso sim, eu posso fazer Sikes aceitar os meus termos. Mentir não é um dos meus vícios, é claro, e quero que sejamos inteiramente francos um com o outro. Por que não me conta o que está pensando neste exato momento? Sem termos chulos, de preferência.&lt;br /&gt;- O que quer, exatamente?- perguntou Semjaza com voz indefinível.&lt;br /&gt;- Primeiro, tirar satisfação por você e seu sócio terem pensado que sou estúpido; e depois, aproveitar ao máximo a extorsão que vou fazer. Meus objetivos são simples, mas vai ser muito divertido. Vamos procurar o Sikes e falar com ele a respeito?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-6851092094288656874?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/6851092094288656874/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=6851092094288656874' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6851092094288656874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/6851092094288656874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/dia-da-ira.html' title='Dia da ira (I)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-4989441712046989569</id><published>2007-10-18T03:00:00.000-03:00</published><updated>2007-10-18T03:04:26.921-03:00</updated><title type='text'>Oferta Irrecusável (III)</title><content type='html'>- Posso lhes oferecer muita coisa- repetiu Semjaza, e quase não era mais luminoso.- Até valores mais altos. O que desejarem pode ser objeto do nosso contrato. Josef Sikes, qual é o seu valor mais alto?&lt;br /&gt;Aquela pergunta por si só paralisou Sikes na cadeira. Ele ficou quase um minuto em silêncio, e durante esse tempo nem Vinçart nem o anjo fizeram nada. A demora era muito natural, e por fim a resposta foi uma pergunta:&lt;br /&gt;- O que quer dizer com isso?&lt;br /&gt;- Refiro-me ao sentido da sua vida- tornou o anjo.- Posso oferecer a realização dele. Qualquer coisa que você tenha buscado durante toda a sua existência, eu posso conceder, ou ajudar a encontrar.&lt;br /&gt;- É impossível- disse Sikes brandamente.- Não há nada que você possa me oferecer. Eu rejeito o contrato.&lt;br /&gt;A luz de Semjaza aumentou um pouco, mas nenhum dos homens notou. Vinçart levantou-se do sofá com um salto.&lt;br /&gt;- Você pode ter entendido mal, sr. Sikes- disse ele.- Este anjo está usando um termo técnico de pactos demoníacos. Lembra-se da teoria da ética material de valores de Max Scheler? É algo semelhante, pelo menos em realização de valor.&lt;br /&gt;- Não estou muito bem lembrado- resmungou Sikes.&lt;br /&gt;- Toda ação humana tem em vista a realização de um valor- explicou Vinçart-, e todo valor engrandece o ser humano, confere-lhe dignidade e lhe possibilita achar um caminho para a felicidade. Para toda conduta existe um valor a alcançar. O que dá um sentido à vida humana é valor, e os demônios conhecem todos muito bem, por isso seus pactos têm conteúdo axiológico sempre, é isso que eles exploram. Todos os objetivos que uma pessoa pode definir para sua vida são vinculados a um valor que ela quer realizar. O desejo causa sofrimento, e a realização do valor é a solução. É para isso que vivemos, para essas grandes esperanças, caso contrário não suportaríamos um só dia na terra.&lt;br /&gt;- Entendo. E por acaso qual é o seu valor, sr. Vinçart?&lt;br /&gt;- É a economia. Afinal, eu não tenho religião, portanto não reconheço um valor sacro que me leve a viver pela salvação da alma. Não tenho preferência política alguma, logo não é ideologia o meu valor. Não tenho interesse estético, então a beleza não me é referencial para nada. Não me preocupo com as pessoas em particular ou com a sociedade como um todo, daí não ser o bem comum o meu valor. Nem a minha própria pessoa eu vejo sentido em aprimorar, pois a virtude não é a minha finalidade. O meu sentido, sr. Sikes, é o dinheiro, e apenas o dinheiro. Não tenho perspectiva de direcionar minha existência para outro objetivo senão acumular dinheiro. Todos os outros valores são inócuos em um mundo perverso. Somente o dinheiro é um valor real e eficaz, e uma realização plena.&lt;br /&gt;- O poder é o maior valor- interpôs Semjaza; seu aspecto era de sombra.&lt;br /&gt;- Você está equivocado- disse Vinçart.- Todos os valores são inerentes ao poder, é para isso que eles servem. O poder não é um valor, ele é o próprio valor em si, o valor absoluto. Adquire-se poder através dos valores, um dos quais o dinheiro. Mas um líder espiritual tem poder, um chefe de Estado tem poder, um grande artista tem poder, eu e Sikes temos poder. Qualquer patife a que outras pessoas se sujeitem de bom grado tem poder.&lt;br /&gt;- Entendo- disse Semjaza em voz baixa.- Qualquer um que seja admirado ou seguido tem poder, disso eu sei muito bem, obrigado. Vontade de potência... há muito tempo não penso nesse assunto, mas não posso fazer um pacto sem considerá-lo, é claro. Se fizéssemos o contrato eu poderia lhe dar dinheiro perpétuo, Vinçart. Todo o dinheiro do mundo.&lt;br /&gt;- E assim eu ficaria fora de mercado. Valores estritamente materiais têm essas problemáticas limitações. Não, obrigado, não quero fazer contrato nenhum. Onde estavam? Ah, sim. Supondo que o valor mais alto do sr. Sikes também seja o dinheiro, e considerando que ele já tem muito, talvez ele não queira fazer esse contrato afinal de contas.&lt;br /&gt;Mas Sikes destroçou com um golpe todas as torres de dinheiro sobre a escrivaninha.&lt;br /&gt;- É claro que não é esse o meu valor!- falou de repente, levantando-se.- O dinheiro não passa de um meio. Eu vejo sentido em experiências mais sublimes.&lt;br /&gt;- Sim? Muito interessante. Acho espantoso nunca termos conversado a respeito, depois de tantos anos como sócios. Pensei que tivéssemos o mesmo objetivo, o lucro. Mas então, corrija-me.&lt;br /&gt;- O meu objetivo, sr. Vinçart, é a vida eterna!&lt;br /&gt;- Ora essa- disse Vinçart apenas, sem achar mais palavras.&lt;br /&gt;- Então não há de recusar a minha proposta- fez Semjaza em continente triunfo.- Não posso, ainda, lhe dar a vida eterna, mas posso prolongar sua existência por muitas gerações, e ainda prestar toda a minha habilidade e sabedoria, ajudando-o de todas as formas possíveis na busca pela imortalidade.&lt;br /&gt;- E a minha prestação?- perguntou Sikes.&lt;br /&gt;- Tudo que eu peço em troca- respondeu o anjo- é ser o seu sócio. E também efetivarmos juntos o projeto de atacar e conquistar o Reino do Céu.&lt;br /&gt;Sikes silenciou.&lt;br /&gt;- Parece muito razoável. Não há por que recusar - avaliou Vinçart secamente.&lt;br /&gt;- Mas eu vou.&lt;br /&gt;Sikes sentou-se e cruzou os braços.     &lt;br /&gt;- O quê?- gritou Semjaza.&lt;br /&gt;- Ora essa- manifestou Vinçart.&lt;br /&gt;Parecendo contente, Sikes levantou-se e vestiu um casaco.&lt;br /&gt;- Estou com muita fome- declarou.- Vou jantar no Don Vito hoje. Quer me acompanhar, sr. Vinçart? Por minha conta.&lt;br /&gt;- É claro.&lt;br /&gt;- A música ao vivo lá sempre é muito boa. Gosta de música, anjo?&lt;br /&gt;- Por que recusou o contrato?- perguntou Semjaza. Estava abatido, mas sua forma outra vez pendia para angelical.&lt;br /&gt;- É difícil explicar- disse Sikes, colocando seu chapéu.- Para realizar meus valores, gosto de independência, quanto mais melhor. E depois, violaria um princípio meu. Sei que um pacto demoníaco é mais que um acordo de vontades, gera não só obrigação, mas proximidade espiritual também. Não posso ceder a esse luxo. Seríamos dependentes demais um do outro, e isso só atrapalharia a minha vida. Vivo perigosamente, quem está comigo não está seguro, e eu detestaria precisar ficar me preocupando com o meu contratante, mesmo que ele fosse um poderoso demônio. Seria como colocar minha família no lugar dos meus guarda-costas. Não, melhor deixá-los longe; todos, inclusive eu, ficam mais seguros assim. Não se ofenda, anjo, não é que eu o esteja mandando pentear macaco, o problema é administrativo. Mas, não obstante, quando você se tornar demônio, posso empregá-lo como botão. Que acha?&lt;br /&gt;Semjaza alargou as asas luminosas.&lt;br /&gt;- Se perdi essa oportunidade, Josef Sikes- disse ele-, não terei outra, e continuarei como anjo. Jamais conseguirei fazer uma oferta tão irrecusável quanto essa à pessoa certa. Creio que isso define a minha natureza, quer eu goste ou não. Talvez eu goste. Não tenho certeza do que eu desejo. Diferente dos humanos e dos demônios, os anjos não entendem bem as questões de valor.&lt;br /&gt;- Mas um anjo caído sim, acredito- interveio Vinçart.- Então, vem jantar conosco?&lt;br /&gt;- Não. Nossa negociação está encerrada, então não precisamos nos ver novamente. Portanto, adeus.&lt;br /&gt;Ele saltou por cima da escrivaninha e desapareceu pela janela, deixando a sala como originalmente. Pareceu aos dois homens que ali nunca fora tão escuro.&lt;br /&gt;- Acho que dispensou uma excelente oferta, sr. Sikes.&lt;br /&gt;- Não. Mas dispensei um excelente capanga, sr. Vinçart.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minutos depois, os dois desciam as escadarias saindo do grande prédio do escritório de advocacia. O pouco movimento da rua fazia Sikes, Vinçart e os três guarda-costas parecerem um grupo chamativo. Outra coisa que não passava despercebida era um homem tentando arrombar o Rolls Royce estacionado na calçada.&lt;br /&gt;- Meu carro! Peguem aquele pilantra- ordenou Sikes.&lt;br /&gt;Os guarda-costas correram degraus abaixo. Vinçart foi o primeiro a perceber o truque e gritou, puxando Sikes de volta escadaria acima:&lt;br /&gt;- Atenção, é armadilha!&lt;br /&gt;Imediatamente outros três homens saíram ao mesmo tempo de lojas diferentes do perímetro. Um quarto no bar defronte sacou uma arma de dentro do cardápio. O tiroteio foi muito rápido, e poucos segundos depois os atacantes se dispersaram e desapareceram nas esquinas, pois tinham conseguido o que queriam. Sikes estava caído na escadaria, e algumas cachoeiras de sangue desciam os degraus. Praguejando, Vinçart deu instruções aos guarda-costas, e em meio às próprias imprecações escutou a voz apagada de Sikes:&lt;br /&gt;- Chame ajuda.&lt;br /&gt;- Já providenciei. Trarão uma ambulância.&lt;br /&gt;- Não há tempo. Chame o anjo.&lt;br /&gt;Vinçart não conseguia se lembrar da última vez em que ele ficara realmente perplexo, mas naquele momento ficou, mais do que quando o sócio recusara a oferta irrecusável, e sem saber o que fazer, gritou para qualquer parte o nome de Semjaza, ignorando a falta de lógica que era percebida por todos na rua.&lt;br /&gt;O anjo apareceu como se não tivesse se afastado, e pousou nos degraus junto ao advogado e o gângster mortalmente ferido, mas não chamava a atenção; não tinha nenhuma luz.&lt;br /&gt;- Esses problemas administrativos complicam muito a vida- disse Semjaza-, mas para a morte não se leva nem as complicações. Parece que agora o problema é bem mais aceitável que a solução, não é, Josef Sikes?&lt;br /&gt;- Desgraçado, me ajude de uma vez. Não pode me dar vida eterna, mas pode me dar um pouco mais de vida. É alguma coisa, por enquanto. Vamos consentir logo aquele contrato. Se quiser que eu assine com sangue, pegue um pouco aí da poça e estamos combinados.&lt;br /&gt;- Dada a urgência, prefiro dispensar a burocracia e o momento solene. Seja nossa testemunha, sr. Vinçart.&lt;br /&gt;Vinçart não entendia o procedimento de pactos de alma. Sempre tivera dificuldades com procedimentos em toda a sua carreira jurídica. Instantes depois, Sikes levantou-se irritado e ajeitou o casaco, ignorando os furos e o sangue no tecido. Semjaza desceu os degraus em sua opulenta forma demoníaca.&lt;br /&gt;- É, agora precisamos nos entender de um modo ou de outro- resmungou Sikes.- Sabe que temos muito trabalho pela frente, e eu não deixo meus sócios em paz quando há assuntos pendentes. Vou lhe explicar como a minha organização funciona, e quero resolver logo a divisão dos lucros. Podemos discutir isso no restaurante. Por falar em dinheiro, onde estão os guarda-costas? O conserto do meu casaco vai ser descontado do salário deles.&lt;br /&gt;Sikes foi procurar os seguranças, deixando Vinçart e o demônio Semjaza sozinhos por um instante ao pé da escadaria, na rua deserta.&lt;br /&gt;- Você não tinha ido embora, não é?- perguntou o advogado.- Estava observando o tempo todo?&lt;br /&gt;- Certamente- respondeu Semjaza.&lt;br /&gt;- E tinha visto aqueles homens, sem dúvida. Sabia que Sikes estava para sofrer um atentado, e não ajudou, nem avisou. Esperava assim conseguir o contrato para se tornar demônio?&lt;br /&gt;- Acredito que eu me tornaria mesmo que Sikes não ficasse ferido. A atitude talvez fosse o suficiente.&lt;br /&gt;- Sim, é uma desonestidade que impressiona até a mim- disse Vinçart com algo que poderia ser orgulho de sócio.- Muito curiosa para um anjo, mesmo um caído.&lt;br /&gt;- Eu fui anjo apenas por um engano do Desígnio. Hoje pude experimentar a minha natureza finalmente, caso contrário não teria conseguido fazer o contrato me aproveitando da situação. Não tenho mais dúvidas quanto a isso. Resta procurar o meu valor mais alto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-4989441712046989569?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/4989441712046989569/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=4989441712046989569' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4989441712046989569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/4989441712046989569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/oferta-irrecusvel-iii.html' title='Oferta Irrecusável (III)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-2674528854216226669</id><published>2007-10-15T02:39:00.000-03:00</published><updated>2007-10-15T14:52:41.022-03:00</updated><title type='text'>Oferta Irrecusável (II)</title><content type='html'>- Estou escutando- respondeu Sikes secamente.&lt;br /&gt;- Essa foi a proposta- disse Semjaza.- Desculpe-me se não fui claro. Vim como proponente de um contrato. Quero fazer um pacto.&lt;br /&gt;- Um pacto de alma?- reclamou Sikes, e fez desmoronar com um safanão algumas torres de dinheiro para poder debruçar-se sobre a escrivaninha.- Está de brincadeira comigo? É ridículo, e além disso não há nada mais absurdo que fazer um pacto desses com um anjo!&lt;br /&gt;- Anjos nem deveriam ter capacidade jurídica- opinou Vinçart.- Não há benefício que venha disso, nem para eles nem para nós. Nesse tipo de contrato, os anjos são inadimplentes natos. Não há pressupostos de validade.&lt;br /&gt;- Deixe-me explicar- fez Semjaza como cansado ou arrependido.- Vocês sabem que não sou um anjo íntegro. É possível que em breve eu me torne um demônio. Talvez, se eu fizer um contrato, esse seja o ato final, e como demônio poderei cumpri-lo. Eu disse que queria definir a minha natureza, e tenho ficado cada vez mais convicto de que ela é demoníaca. Vim à existência como anjo por um erro do Desígnio. Posso ser útil para vocês quando adquirir minha verdadeira identidade. Terei novas habilidades...&lt;br /&gt;- Mas até lá, não temos nada a tratar- interferiu Sikes bruscamente.- Dê meia volta, vá passear nas nuvens e volte quando tiver um rabo pontudo. Ainda assim será mera possibilidade. Você não parece ser nada de especial, e já tenho demônios trabalhando na organização, todos muito eficientes.&lt;br /&gt;- E todos ordinários também, certamente- argumentou Semjaza com mais firmeza.- Não será o meu caso. Quando eu for um demônio, não serei dos pequenos.&lt;br /&gt;- Interessante- disse Vinçart.- Já ouvi falar na hierarquia-- não oficial, mas eminentemente moral--, que os demônios têm entre si, e também em relação a nós humanos, embora não saibamos disso, ou não entendamos bem.&lt;br /&gt;- Os demônios só vêem sentido no mundo de acordo com a beleza- explicou Semjaza-, e nada acham mais belo que o poder. Para eles, toda e qualquer qualidade de um ser é relacionada à capacidade de dominação. Eles se submetem de boa vontade aos mais fortes que os ajudem a dominar os mais fracos que eles próprios. Eu fazia isso até como anjo, mas se me tornar demônio, precisarei de poder, e se me aliar a um homem influente conseguirei muitas fontes. Eles fazem pactos de vassalagem nesse sentido; e humanos fazem com eles em troca das mais variadas dádivas. Negociando-se a alma, negocia-se a vontade e os sentimentos. Um demônio poderoso pode oferecer fortunas a um homem, mas para os demônios a fortuna maior não é material. O contrário também acontece. Fausto poderia ter negociado a alma de Mefistófeles, se tivesse mais a oferecer. Sendo demônio, poderei recompensar devidamente um homem na sua posição, Josef Sikes, por isso vim procurá-lo. Porque até ser um Mefistófeles, e não um Fausto, precisarei de um patrono.&lt;br /&gt;- Por que não procurou o chanceler?- disse Sikes com desprezo.&lt;br /&gt;- O chanceler já tem um demônio contratante à altura.&lt;br /&gt;- Então você se considera à minha altura? Esse foi o pior insulto que me dirigiram em muitos anos! Vocês anjos são ralé.&lt;br /&gt;- Quando eu determinar minha natureza, poderei me considerar à altura de qualquer humano, mas para isso preciso de ajuda. Não exigirei muita coisa, pois a maior parte de minhas necessidades posso eu mesmo suprir. Quero me diferenciar dos demônios ordinários, e em troca posso oferecer muitas coisas valiosas a um homem de negócios.&lt;br /&gt;Sikes trocou um breve olhar com Vinçart, como se parlamentassem telepaticamente, e voltou-se ao anjo:&lt;br /&gt;- Muito bem. Pode dizer os termos do contrato, eu pelo menos vou escutar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-2674528854216226669?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/2674528854216226669/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=2674528854216226669' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/2674528854216226669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/2674528854216226669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/oferta-irrecusvel-ii.html' title='Oferta Irrecusável (II)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-3531175801074764031</id><published>2007-10-13T23:22:00.000-03:00</published><updated>2007-10-14T00:26:34.160-03:00</updated><title type='text'>Oferta Irrecusável (I)</title><content type='html'>Sikes jogou fora o charuto pela janela e tombou na cadeira confortável por trás da escrivaninha de mogno. O advogado, Vinçart, permanecia sentado no sofá perpendicular à mesa, tirando dinheiro de uma vasta maleta para contá-lo e passar a Sikes em maços mais espessos que os códigos e livros jurídicos que preenchiam a estante próxima à porta do escritório.&lt;br /&gt;- Pelos meus cálculos, já alcançamos a soma suficiente para o financiamento do projeto final- comentou Vinçart casualmente ao lançar no ar um maço de notas na direção do sócio.- Podemos dispensar o resto dos clientes.&lt;br /&gt;- Sim, faça isso- disse Sikes, contemplando o dinheiro que formava grandes colunas sobre a escrivaninha, e Vinçart saiu do escritório.&lt;br /&gt;Sikes levantou-se e ficou rodando ansioso pela sala. Conseguir todo o dinheiro necessário para o seu mais ambicioso projeto deixara-o angustiado e desnorteado. Ele era sumamente rico, mas suas empreitadas de praxe também eram invulgarmente custosas. Várias se tratavam de mega-operações criminosas convencionais, que geravam lucro para alimentar outras duas ou três investidas, expandindo suas conquistas de territórios do submundo; porém as mais secretas possuíam custo e significado muito mais elevados, extraordinários, e não gerariam um só centavo em retorno.&lt;br /&gt;Ele estava a refletir sobre isso quando Vinçart entrou de volta no escritório dizendo:&lt;br /&gt;- Mandei todos os clientes embora, mas há um sujeito que insiste em lhe falar. Parece que driblou os seguranças e fingiu ser cliente, mas está limpo.&lt;br /&gt;Sikes soprou a fumaça do charuto.&lt;br /&gt;- É mesmo? Que tipo de homem é esse que invade a firma e insiste em falar comigo? Há muito tempo não vejo um parecido; parece que ficaram mais raros, talvez por eu ter matado vários. Então?&lt;br /&gt;- É um anjo. Diz que se chama Semjaza, e que quer trabalhar aqui.&lt;br /&gt;- Bem, diga que não empregamos anjos, por razões óbvias; e pela insolência mande-o para ter uma conversa com S. Pedro no céu.&lt;br /&gt;- Na verdade- acrescentou Vinçart-, ele não é um anjo completo. Está em fase de transição. A qualquer momento, se instigado, pode se converter em demônio, e aí sim terá utilidade para nós. Creio que podemos considerá-lo.&lt;br /&gt;- Está bem, vamos avaliá-lo- sentenciou Sikes, atirando o charuto pela janela.- Chame-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundos depois, Vinçart entrou novamente na sala com a figura luminosa. Sentou-se no sofá e o anjo ficou de pé diante da escrivaninha, encarando o notório gângster.&lt;br /&gt;- Menos luz- resmungou Sikes por trás das torres de dinheiro.&lt;br /&gt;O anjo assumiu feição quase humana. As asas pareciam não muito mais do que fumaça em uma leve cortina luminosa.&lt;br /&gt;- Pois bem- continuou o chefão do crime-, quer trabalhar na minha organização? Estou insultado por você ter pensado que eu o consideraria sem mais nem menos, só porque conseguiu entrar aqui. Tem o aspecto de quem acaba de tomar uma surra. Por que acha que eu o empregaria? Desembuche, sei que gente do seu tipo não viria falar comigo sem uma oferta. O que tem para mim?&lt;br /&gt;- Primeiro, minhas saudações, Josef Sikes, e depois minhas habilidades. Quero trabalhar aqui- disse o anjo em tom humilde, mas inflexível.&lt;br /&gt;- De que grau na hierarquia você é?&lt;br /&gt;- Eu era da nona ordem, querubim- respondeu o anjo com indiferença-, mas hoje sou o que chamam de anjo decaído.&lt;br /&gt;- Não me lembro de nenhum querubim chamado Semjaza. Aliás, nunca ouvi esse nome na minha vida. Sr. Vinçart, este sujeito consta em nossos arquivos?&lt;br /&gt;- É certo que não, mas ele consta em um documento apócrifo de estudo das ordens. É um dos Vigilantes, se não estou enganado. Isso procede, anjo?&lt;br /&gt;- Não sei. Em breve talvez eu assuma definitivamente a natureza demoníaca, mas espero oferecer meus serviços antes disso.&lt;br /&gt;- Com que intenção?- questionou Sikes.&lt;br /&gt;- Definir a minha natureza- disse o anjo simplesmente.- Podemos nos ajudar um ao outro nessa matéria, Josef Sikes. Eu tenho uma proposta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-3531175801074764031?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/3531175801074764031/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=3531175801074764031' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/3531175801074764031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/3531175801074764031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/oferta-irrecusvel-i.html' title='Oferta Irrecusável (I)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-450969900493847014</id><published>2007-10-08T12:42:00.001-03:00</published><updated>2010-09-19T04:36:07.553-03:00</updated><title type='text'>A Dedicatória</title><content type='html'>- Por que não escreve uma grande obra de teologia, monsenhor Pharoux?- disse-lhe certa vez o vigário, um homenzinho careca e bem mais velho, naquele tempo já sem grandes pretensões religiosas e que, conseqüentemente, as depositava nos outros mais novos.- Suas idéias têm notável substância, então por que não as sintetiza no que pode vir a ser um trabalho primoroso?&lt;br /&gt;Monsenhor Pharoux encontrou ali uma grande oportunidade. Pouco tempo antes ele havia ganhado o título honorífico de monsenhor, e havia muito escrevia ensaios teológicos, alguns apenas esboçados e outros muito extensos, menos por dedicação do que pela necessidade de expressar suas idéias a folhas em branco, pois lhe faltavam amigos bons ouvintes; e em especial porque, ao contrário de afetuosos confidentes, algumas páginas bem escondidas não poderiam denunciar seus eventuais deslizes heréticos e tendências políticas à censura. Apesar de ser eclesiástico, ele odiava a sensação de ser censurado e reprimido, por isso muito frustrante seria iniciar um projeto e tê-lo fiscalizado antes de consolidar suas idéias mais sensacionalistas, comprometendo assim o retorno financeiro.&lt;br /&gt;Pois bem, ele prontamente partiu para a compilação e adaptação de seus manuscritos, e não tardou a lhes atribuir o título geral de &lt;i&gt;O Reino de Deus&lt;/i&gt;. Regnum Dei para os mais conservadores. Ali depositou longas análises sobre vários teóricos cristãos ou não, discursou contra os maniqueus, a favor de Heráclito e cuidadosamente neutro em relação a Deus-- e mais  ainda aos políticos locais. Escreveu até sobre a hierarquia dos anjos e a disposição dos astros em hora de nascimento das pessoas, com tratamento muito científico.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o arcebispo D. Avaro tomou conhecimento sobre o projeto do monsenhor Pharoux, chamou-o após a celebração de uma missa para a sua sala e dispôs-se a tratar do assunto.&lt;br /&gt;- Já decidiu a quem vai dedicar o seu livro, monsenhor?&lt;br /&gt;O padre Pharoux ficou incomodado com essa pergunta, sabendo que não seria feita por aquele arcebispo sem intenções mais nobres que mostrar interesse. E depois, ele não tinha a quem dedicar a obra, e exatamente por isso respondeu:&lt;br /&gt;- Parece indiscutível que eu devo dedicar a Deus.&lt;br /&gt;O arcebispo sorriu, desconfortável:&lt;br /&gt;- Sim, sim, realmente, dedicar Àquele sobre cujo Reino você escreve é um gesto sábio, típico de sua pessoa, e decerto será recompensado pelo conjunto de suas obras quando chegar o dia do Juízo, dia de reconstruir aquele Reino tão bem descrito no seu livro, etc, etc...&lt;br /&gt;Depois de dez minutos falando, o arcebispo emendou o assunto a que procurava chegar:&lt;br /&gt;- ...porém, caro monsenhor- dizia ele-, apesar de que ninguém mereça mais do que Deus essa dedicatória, é certo que se pode praticar um gesto ainda mais benevolente e mais sábio, e com recompensas mais imediatas que o Reino dos Céus.&lt;br /&gt;O padre Pharoux franziu a testa.&lt;br /&gt;- Recompensas mais imediatas? Como assim?&lt;br /&gt;- Exatamente, foi o que eu disse- tornou o arcebispo.- Veja bem, monsenhor: Deus muito se alegraria em receber essa dedicatória, mas consideremos que Ele também ficaria satisfeito se, em vez de dedicarmos diretamente a Ele, usarmos isso para o benefício de Sua Santa Igreja aqui mesmo neste reino terrestre.&lt;br /&gt;- Como é que é?- perguntou confuso e aborrecido o padre.&lt;br /&gt;- É o seguinte: o governo da nossa província não se importa muito com o clero, embora reconheça sua importância, e o nobilíssimo doutor nosso interventor está mais ocupado em restaurar as próprias imagem e popularidade, as quais têm decaído por causa da ineficiência de seu mandato em relação aos assuntos do povo. Ora... podemos fazer um favor ao governo dedicando seu livro ao interventor e mostrá-lo como um iluminado por Deus ao povo da província. Que acha, monsenhor Pharoux, não seria essa uma boa obra para com Deus, a Igreja e todo mundo? A recompensa seria imediata: por gratidão o interventor e os partidários nos assistiriam, conseguiríamos maior prosperidade, com mais instalações e estruturas; reformar esta igreja aqui, por exemplo. O senhor não queria isso há tempos?&lt;br /&gt;O padre Pharoux queria, sim, porém não gostava nem um pouco do atual interventor e acharia um desperdício de papel e tinta dedicar-lhe uma obra. Além do mais, não estava crente nas perspectivas “otimistas” de D. Avaro, pois não lhe parecia que aquele governo, em troca de mera popularidade e adulação por parte de Deus, ofereceria assistencialismo graúdo aos clérigos.&lt;br /&gt;- É uma boa oportunidade- insistiu D. Avaro após longamente falar sobre as condições do governo da província-, e sei que Deus renunciaria a ter Sua Representação impressa em uma grande obra teológica se isso trouxesse benefícios à Sua Santa Igreja, pode até ser que Ele prefira que se aja mais com verdadeira sabedoria que propriamente com louvor.&lt;br /&gt;Sobre agir mais com sabedoria que com louvor, o monsenhor Pharoux sabia muito, e decidiu responder nada mais que:&lt;br /&gt;- Como não me seja dado conhecer a vontade de Deus, eu vou pensar a respeito antes de chegar a uma conclusão definitiva sobre a dedicatória, e acho que seria ainda mais apropriado se eu pudesse...&lt;br /&gt;- Sim, sim, pense a respeito- interrompeu rudemente D. Avaro- e dedique a quem mais vale dedicar nesses tempos de tumulto e insensatez, monsenhor. Sei que sua obra fará sucesso, e a mera dedicatória poderá causar grande influência na opinião dos leitores de toda a sociedade, então não se esqueça de seguir um bom caminho. Quando assinar a dedicatória, que seja iluminado pelas sapientíssimas palavras do Cristo: “A semente de trigo, caída na terra, se não morrer, ficará infecunda, mas se morrer, produzirá muitos frutos”, e igualmente a sua dedicatória a Deus produzirá melhores frutos se for sacrificada, então você pode renunciar a ela respaldado pelo Evangelho com plenitude... Dedique ao nosso interventor!&lt;br /&gt;Apresentou ainda muitos outros motivos, e depois exaustivamente repetiu-os para assegurar-se de ter sido compreendido pelo ouvinte que há muito tempo já queria ir embora, preocupado mais em salvar os ouvidos que a alma.&lt;br /&gt;- Pensarei a respeito- disse o monsenhor Pharoux, levantando-se para sair logo da sala.- Preciso retomar os meus afazeres, incluindo o livro.&lt;br /&gt;-Perfeitamente, perfeitamente, pense a respeito, pela maior glória de Deus- disse uma vez mais o arcebispo, conduzindo o aliviado padre até a porta.- Tenha um bom dia, monsenhor, e avalie com razão e fé as minhas palavras! Dedique ao interventor.&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No final das contas, monsenhor Pharoux cedeu e dedicou a grandiosa obra, finalmente publicada, ao interventor. A dedicatória ocupou várias páginas cheias de entusiásticos elogios e, aqui, ali e lá, passagens de propaganda partidária.&lt;br /&gt;Talvez Deus não tenha gostado de ser trocado pelo eminente político, porque quis Ele que, pouco tempo depois, uma revolução terminasse com o interventor sendo deposto e um grupo de oposição subindo ao poder.&lt;br /&gt;Ora, naturalmente a obra de monsenhor Pharoux era um panfleto dedicado ao governo anterior, por isso ele não protestou, nem mesmo se surpreendeu, e demonstrou toda a resignação que um governo poderia desejar, quando todos os exemplares foram recolhidos e queimados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-450969900493847014?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/450969900493847014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=450969900493847014' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/450969900493847014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/450969900493847014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2007/10/por-que-no-escreve-uma-grande-obra-de.html' title='A Dedicatória'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-116311901341853006</id><published>2006-11-09T21:35:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T21:36:53.456-03:00</updated><title type='text'>Turista de passagem</title><content type='html'>?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*blog curioso, parece familiar.&lt;br /&gt;Já devo ter estado aqui em outra vida, ou algo~]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-116311901341853006?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/116311901341853006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=116311901341853006' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/116311901341853006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/116311901341853006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2006/11/turista-de-passagem.html' title='Turista de passagem'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-113812843697541306</id><published>2006-01-24T15:44:00.000-03:00</published><updated>2006-01-24T15:47:16.990-03:00</updated><title type='text'>trecho de "As Terras  do Além"</title><content type='html'>Uhm, na falta do que postar, vai esse trechinho porque acho divertido, e pronto, já que tem a minha caricatura nele u.u&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto não era tão grande quanto Simut pensara diante da visão externa do prédio: Era um cômodo médio, com a porta em um dos cantos, o beliche encostado à parede à sua esquerda, um guarda-roupa mais ao fundo, ladeando a janela, no fundo e à direita uma outra porta que conduzia ao banheiro, e no centro uma mesa cheia de materiais diversos.&lt;br /&gt;- Já que sua bagagem é pequena, pode deixar ali no canto- disse Nigihayami entrando no quarto.- E quanto a esta, ah, espada... talvez ficasse bom se pendurássemos ali na parede.&lt;br /&gt;- Não é um ornamento- falou Simut com frieza, fechando a porta atrás de si.- A propósito, qual é o seu nome, mesmo? Creio que esqueci...&lt;br /&gt;- Sou o Nigihayami Matsumoto, mas não sem motivo os amigos (se é que tenho algum) e os preguiçosos (se é que não sou um) me chamam simplesmente de Haya para evitar aquele polissílabo incômodo; e você é o Simut. Eu poderia esquecer o seu rosto, mas não consigo esquecer nomes estrangeiros divertidos. Só me falta descobrir como se escreve... Quer anotar ali?&lt;br /&gt;- Não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-113812843697541306?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/113812843697541306/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=113812843697541306' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113812843697541306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113812843697541306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2006/01/trecho-de-as-terras-do-alm.html' title='trecho de &quot;As Terras  do Além&quot;'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-113613313734411961</id><published>2006-01-01T13:27:00.000-03:00</published><updated>2006-01-01T13:32:17.356-03:00</updated><title type='text'>"Árvore de Natal na Casa do Cristo"</title><content type='html'>Meio tardio para o tempo de Natal, mas tudo bem, um poema não muito bom para início de ano, tampouco; mas creio, é o menos pior no momento^^&lt;br /&gt;----------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse Jesus: “Vinde a mim, criancinhas!”&lt;br /&gt;Pensei ser uma delas, e pensei&lt;br /&gt;Que as Bem-aventuranças eram minhas;&lt;br /&gt;Glórias além do que imagina um rei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou-me as costas o Cristo e, seguindo&lt;br /&gt;Adiante a trilha do eterno Jardim,&lt;br /&gt;Em direção até o Além, o infindo&lt;br /&gt;Céu, não percebeu nem sinal de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei pegadas na neve fundida,&lt;br /&gt;Deixei finas pegadas em águas rasas;&lt;br /&gt;Acenei uma qualquer despedida&lt;br /&gt;Aos Anjos sem auréolas e sem asas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-113613313734411961?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/113613313734411961/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=113613313734411961' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113613313734411961'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113613313734411961'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2006/01/rvore-de-natal-na-casa-do-cristo.html' title='&quot;Árvore de Natal na Casa do Cristo&quot;'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-113556199174721442</id><published>2005-12-25T22:47:00.000-03:00</published><updated>2005-12-25T22:53:11.760-03:00</updated><title type='text'>Luz das Ruínas</title><content type='html'>Com a Lâmpada do mundo ele desceu&lt;br /&gt;A um abismo de cordas de infinita&lt;br /&gt;Gravidade, que aos seus ícones grita,&lt;br /&gt;Como grita a seus deuses um ateu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passam despedaçados entre o breu&lt;br /&gt;Os fragmentos que a Lâmpada maldita&lt;br /&gt;De luz atroz emana, enquanto fita&lt;br /&gt;Aquilo que em ruínas feneceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tropel impressionista se ergueu,&lt;br /&gt;E o viajante, julgando que era  seu,&lt;br /&gt;Levou consigo o Caos, o Sonho e a Vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá embaixo, nas profundezas de lava,&lt;br /&gt;Para mais profundezas ele cava&lt;br /&gt;Ainda, com sua Lâmpada falida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-113556199174721442?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/113556199174721442/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=113556199174721442' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113556199174721442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/113556199174721442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/12/luz-das-runas.html' title='Luz das Ruínas'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112874564161618190</id><published>2005-10-08T01:19:00.000-03:00</published><updated>2005-10-08T01:27:21.623-03:00</updated><title type='text'>Aruanda</title><content type='html'>"Quando foi mesmo que ela chegou pela primeira vez a meus ouvidos, não sei.&lt;br /&gt;Era apenas uma palavra, mas trazia um cheiro violento de terra e de liberdade, gosto de fruta madura, uma palavra apenas, porém usando paladar e olfato.&lt;br /&gt;Por que me embalava tanto como se fossem os braços de minha mãe? (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aruanda é o país que sempre trazemos dentro de nós, país de Liberdade e de Paz, país sem desigualdades nem ódio, sem injustiças ou crueldades. (...) Aquele que carregamos como uma arma ou uma jóia tão brilhante, pois foi por nós construído, vivido, criado, e por nós defendido. (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Aruanda o lírio é mais lírio e as estrelas brilham com maior intensidade, porque tomams parte direta na construção de toda a paisagem."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eneida De Moraes&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112874564161618190?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112874564161618190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112874564161618190' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112874564161618190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112874564161618190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/10/aruanda.html' title='Aruanda'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112518033272265257</id><published>2005-08-27T18:58:00.000-03:00</published><updated>2005-08-27T19:05:32.730-03:00</updated><title type='text'>A Esfinge (continuação)</title><content type='html'>Ele engraçado deve ter me achado,&lt;br /&gt;Ou elevou-se até a fúria suma,&lt;br /&gt;Pois riu da minha cara com um chiado&lt;br /&gt;Felino, mas sem emoção alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu tolo!”, começou. “A quem tu pensas&lt;br /&gt;Que estás te dirigindo neste instante?&lt;br /&gt;As tuas palavras são mui propensas&lt;br /&gt;A te fazer ganhar dor lancinante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não falas a qualquer gato de rua;&lt;br /&gt;Então, se prezas a medíocre vida,&lt;br /&gt;Olha o que falas e controla a tua&lt;br /&gt;Língua sutil, audaciosa, atrevida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comigo, que sou quase onipotente,&lt;br /&gt;Melhor é que com modo humilde fales,&lt;br /&gt;E fica sempre mantendo isto em mente:&lt;br /&gt;Não te darei perdão, conquanto cales!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Reino do Horror enfrentei as dores,&lt;br /&gt;Também de lá vim com enormes poderes.&lt;br /&gt;Não hás de entender enquanto não fores&lt;br /&gt;Encarnado em atormentados seres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora basta apenas emoção&lt;br /&gt;Forte para que eles sejam libertos.&lt;br /&gt;Não queiras ver tais forças em ação;&lt;br /&gt;Conduzem aos destinos mais incertos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não queiras em ti sentir as garras&lt;br /&gt;E as presas deste ser ensandecido;&lt;br /&gt;Dores cruéis, infinitas, amaras,&lt;br /&gt;Imensas qual o universo desmedido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra mim não terás chance nenhuma;&lt;br /&gt;É vão fugir, é vão buscar abrigo!&lt;br /&gt;Dentro em pouco conhecerás a suma&lt;br /&gt;Atrocidade! É isto o que eu te digo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não confies em mim, pois não confio&lt;br /&gt;Em ti e em nenhuma viva criatura!&lt;br /&gt;Sou eu um inevitável desafio,&lt;br /&gt;Grande potência que ninguém atura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se de fato pensas ser capaz&lt;br /&gt;De decifrar este enigma mortal,&lt;br /&gt;Cuidado! No momento um capataz&lt;br /&gt;Hei de ser, e agirei bem como tal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrisca-te a ter doloroso fim&lt;br /&gt;Sob os efeitos de forças intensas.&lt;br /&gt;Jamais poderás subsistir a mim;&lt;br /&gt;Não sou tão dócil e frágil quanto pensas!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sujeitinho impertinente, eu logo&lt;br /&gt;Imaginei, e então pensei comigo:&lt;br /&gt;Acha ele que eu me facilmente afogo&lt;br /&gt;Em pequenas ameaças de inimigo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bah! Eu nunca diria  “Deus me acuda!”&lt;br /&gt;De coragem quis mostrar-lhe um sinal.&lt;br /&gt;Decidido a prestar alguma ajuda,&lt;br /&gt;Por fim decidi responder igual:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tento te ajudar com sinceridade&lt;br /&gt;E tu me devolves hostis respostas...&lt;br /&gt;Pois bem! Há muito passamos da idade&lt;br /&gt;Em que as ações são sempre predispostas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vou aturar tua matreira graça;&lt;br /&gt;Pensas que sou qualquer fraco? Ora... Queiras!&lt;br /&gt;Não! Isso não é coisa que se faça!&lt;br /&gt;Preciso te ensinar boas maneiras!”&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*Um dia  eles terminarão de tagarelar, palavra d'onra!)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112518033272265257?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112518033272265257/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112518033272265257' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112518033272265257'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112518033272265257'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/esfinge-continuao.html' title='A Esfinge (continuação)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112511644445707663</id><published>2005-08-27T01:16:00.000-03:00</published><updated>2005-08-27T01:20:44.463-03:00</updated><title type='text'>Anjo Caído (III)</title><content type='html'>Nós dois nos sentamos e Semjaza, depois de olhar brevemente para o céu, prosseguiu:&lt;br /&gt;- Havia um anjo chamado Azazel, um hábil em forjar armas, e...&lt;br /&gt;- Amigo seu?&lt;br /&gt;- Não interrompa. Mas ele era, sim, embora... Ah, ele era muito mais imponente que eu, a propósito. E sabe, ele fazia eu me sentir inferior por causa disso. Desgraça!&lt;br /&gt;- Algum motivo específico?- perguntei com interesse.&lt;br /&gt;- Bah. O caso é que Azazel era... ufs, popular. Sempre cercado por admiradores enquanto eu-- enfim...&lt;br /&gt;- Hum. Acho que entendo. Ciúmes?&lt;br /&gt;- Sim, eu sentia uma inveja tremenda dele, e daí?&lt;br /&gt;- Já entendi. Mas você continuou sendo amigo dele ou se declarou um adversário, para ficar abertamente contra ele?&lt;br /&gt;- As duas coisas. Digo, andávamos juntos por aí, tramamos juntos contra o Demiurgo e juntos lideramos a rebelião. Confiávamos plenamente um no outro, e só entre nós fazíamos confidências. Enfim, não sei até que ponto ele era melhor que eu, mas em geral todos pensavam que eu era só mais um adulador chato seguindo seus calcanhares, por outro lado me respeitavam justamente por eu andar à sombra dele. Pudera, não tinha coragem de insultar o cão quem tivesse medo de ofender o dono, então até aí era proveitoso manter a aparência de subalterno perto dele, que em termos de ataque e defesa era de fato superior à maioria.&lt;br /&gt;- E isso era um abalo na sua vontade de poder?- indaguei.&lt;br /&gt;- Sim. E era um incômodo, porque na verdade eu nem queria vê-lo como um rival, e talvez ele nem soubesse que eu sentia isso. Quanto a mim, eu não sabia ao certo no que pretendia superá-lo, a propósito. Hum, talvez em mero reconhecimento, mesmo que não fosse verdadeiro, já que todos eram aduladores em relação a ele e eu queria uma pontinha disso também para alimentar a vontade de potência. Um elogio disfarçado é alimento que farta, mas causa dependência depois. Azazel tinha um reservatório disso, enquanto eu permanecia na carência; nunca fiquei perguntando se era justo. Com a vontade de potência não há justiça, nem civilidade, nem acordos; há o ego e a necessidade, e só.&lt;br /&gt;- E como você superou isso?&lt;br /&gt;Semjaza brilhou para mim um sorriso estranho, triunfante, quase não parecendo mais um anjo caído. Imaginei como ele devia ser nos tempos do esplendor do Empíreo, e como seria o tal Azazel, se é que fora tão superior assim. A hierarquia dos anjos era essencialmente burocrática, então algum de casta mais baixa muito poderia ser mais imponente que o próprio Demiurgo- embora fosse improvável, já que este havia expulso os revoltosos, mesmo. Quanto a Semjaza, nem sei que ponto ocupava na hierarquia, mas decerto era um dos mais altos, legitimamente. Foi então que ele me contou algo mais curioso:&lt;br /&gt;- Eu era superior ao Azazel na hierarquia, por isso fui eu, e não ele, quem liderou a revolta. Eu fiquei, na realidade, mais ofendido ainda com isso, porque supus que os estava liderando por conveniência. Mas se você quer saber como... hum, superei, vou chegar lá. Primeiro, a rebelião.&lt;br /&gt;- Ah, sim. Vocês dois lideraram juntos mesmo?&lt;br /&gt;- Ufs. Eu era oficialmente o líder, mas ele... enfim, deixe para lá, você faz idéia de como é. Mas haveremos de convir que eu tinha ótimas idéias. Com aquilo, eu consegui finalmente algum reconhecimento, mas não me pareceu o bastante; é a dependência, passei a precisar de mais ainda. A vontade de poder é terrível... Pensei que só conseguiria acabar com ele quando tomasse o lugar do próprio Demiurgo! E curiosamente, eu não sentia a mínima inveja dele. Combatia-o como adversário político, mas desprezava-o em absoluto como um rival de ego.&lt;br /&gt;- Paradoxal. Não era ele o mais poderoso, afinal de contas? Como poderia ter o seu desprezo assim?&lt;br /&gt;- Podia ser- reluziu Semjaza-, no entanto ele não era o mais querido. Pelo contrário, era muito infame, respeitado com falsidade e hipocrisia, e nisso eu só conseguia enxergar mediocridade. Na luta pela vontade de potência, meu amigo Azazel era mais meu adversário que o próprio Demiurgo por causa disso; pois o Demiurgo não tinha nada que eu poderia querer.&lt;br /&gt;- Então, por mais poderoso que alguém seja, não abala a vontade de poder de quem não quer nada que o dito cujo possua?&lt;br /&gt;- Basicamente.&lt;br /&gt;- Então, como você superou o Azazel, se é que isso aconteceu?&lt;br /&gt;- Aí é que está... Combatemos contra o Demiurgo-- mas definitivamente não quero falar agora sobre a nossa derrota-- e fomos expulsos do Empíreo. Nem sei para onde Azazel foi exilado, e eu, naturalmente, vim parar aqui mesmo.&lt;br /&gt;Silêncio. Cocei a cabeça, intrigado, e nem esperei que ele continuasse:&lt;br /&gt;- Acabou? Mas você superou o sujeito ou não?&lt;br /&gt;- Nem sei. Acontece que, quando cheguei aqui, descobri criaturas muito mais imponentes que Azazel e outros anjos, então isso anulou a antiga rivalidade e meu deu uma nova perspectiva, um desejo maior para a vontade de potência. Um antigo adversário foi camuflado por outro.     Aquilo me intrigou por um instante, já que eu conhecia aquele anjo desde a sua queda e não sabia de que adversário ele falava agora.&lt;br /&gt;- Coisa estranha- comentei- isso ter acontecido depois da queda. Mas então, qual é essa fonte maior para a vontade de poder?&lt;br /&gt;Semjaza passou o braço em torno do meu pescoço e me puxou para junto de si, como para contar um segredo, e sussurrou:&lt;br /&gt;- Eis a humanidade e seu mundo sob os céus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112511644445707663?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112511644445707663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112511644445707663' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112511644445707663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112511644445707663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/anjo-cado-iii.html' title='Anjo Caído (III)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112492875072004348</id><published>2005-08-24T21:09:00.000-03:00</published><updated>2005-08-24T21:20:53.150-03:00</updated><title type='text'>Anjo Caído (II)</title><content type='html'>- A vida- disse-me Semjaza- não tem o sentido que você queria.&lt;br /&gt;- Nunca procurei um sentido.&lt;br /&gt;- Já, sim- insistiu ele-, e ainda por cima ficou amargo quando não encontrou nenhum. Mas, naturalmente, não é culpa sua se você não sabe para que vive, e a mim pouco importa.&lt;br /&gt;Ele se afastou alguns passos e ficamos ambos pensativos, sem trocar olhares. Ora, quem sou eu para saber o sentido da vida, de todo modo? Quanto a Semjaza, não imaginei que ele pudesse dizer grande coisa-- a tal sabedoria que ele tinha não fosse talvez para esses questionamentos, e mesmo ele sendo arrogante como era, haveria de me dizer que simplesmente não detinha consigo a resposta. Quando isso me ocorreu, fui até ele.&lt;br /&gt;- Agora vai admitir que não é onisciente?- provoquei com um risinho cínico.- Apenas diga “Sei que não sei” e prometo que não vou zombar da sua falta de espírito metodológico e científico...&lt;br /&gt;Ele mandou que eu fosse a um lugar cujo nome não transcrevo aqui; não porque estivesse irritado comigo, mas sim animado com o desafio.&lt;br /&gt;- Então- repeti-, qual é o sentido da vida?&lt;br /&gt;Semjaza me encarou com uma frieza que eu não conhecia, e respondeu:&lt;br /&gt;- A vontade de potência.&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Poder. Esse é o sentido da vida, tanto individual quanto coletivo. A vontade de poder, um significado eterno.&lt;br /&gt;- Sei...- comentei, cético.- Quer dizer que o presidente da república achou o sentido da vida quando foi posto no cargo, ou o quê?&lt;br /&gt;Não gostando do meu gracejo sem graça, o anjo me acertou um golpe no ombro antes de explicar:&lt;br /&gt;- Sua besta, você nem sabe o que é poder? E eu pensando que vocês humanos são as criaturas mais viciadas nele! Mas então, o que faz você se sentir feliz?&lt;br /&gt;- Hum... saber que superei algum obstáculo.&lt;br /&gt;- Isso é o poder, meu caro. Superar o que for e seguir adiante, e encontrar um obstáculo maior para superar igualmente; superar o que for, até a si mesmo e às próprias imposições.&lt;br /&gt;- Só isso? Ufs! Decepção. Quer dizer que só vivemos para alimentar a própria vontade de potência, e que isso nos dá a sensação de poder, ou a felicidade, ou o que for? Para mim ainda soa como uma falta de sentido...&lt;br /&gt;- Se você se sente frustrado nesse momento, é porque agora mesmo a sua potência foi abalada, e a vontade por ela cresceu.&lt;br /&gt;- Curioso- murmurei.- E de onde vem esse abalo?&lt;br /&gt;Ele ficou algum tempo em silêncio, e eu não quebrei esse estado até ouvir a voz do anjo novamente:&lt;br /&gt;- Deixe eu lhe contar uma coisa...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112492875072004348?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112492875072004348/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112492875072004348' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112492875072004348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112492875072004348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/anjo-cado-ii.html' title='Anjo Caído (II)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112480885925245994</id><published>2005-08-23T11:51:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:13:12.686-03:00</updated><title type='text'>Anjo Caído (I)</title><content type='html'>"Conto panfletário" feito praticamente sob encomenda.&lt;br /&gt;--------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu conversando com meu amigo Semjaza a respeito da evolução dos seres vivos. Dizia eu que o ser humano, especificamente, é uma criatura basicamente predisposta à felicidade, ao que ele respondia com ceticismo e ironia, afirmando por sua vez que ser infeliz é a grande sede da humanidade, a qual teria o suicídio coletivo como única opção se conseguisse alcançar uma felicidade em demasia.&lt;br /&gt;- Como pode- questionei- alguém pôr fim à própria vida justamente quando deveria aproveitar a aquisição da felicidade? Haverá alguém que atire suas recompensas ao lixo? Não creio que o homem não tenha vontade de atingir uma meta e desfrutar ao máximo desse sucesso.&lt;br /&gt;Semjaza riu-se de minhas palavras; não necessariamente com sarcasmo, mas como quem escuta a opinião de uma criança e não resiste ao gracejo.&lt;br /&gt;- Há muitos- disse ele- que atiram suas recompensas ao lixo, e muitos mais que não demonstram satisfação em atingir qualquer meta possível, pois o sucesso encerra a esperança. Uns chamam de ambição, mas eu chamo de justificativa; e no final das contas, quando não há esperança de seguir além, todas as criaturas desistem de agarrar-se à evolução.&lt;br /&gt;- Justificativa? Para quê?&lt;br /&gt;- Para tudo, ora. Não se faz nada sem algo que se possa apresentar como justificativa para o ato.&lt;br /&gt;Pensei comigo mesmo sobre a questão, tentando lembrar se já havia agido sem razões definidas. Fitando o meu amigo, a resposta veio logo.&lt;br /&gt;- Não precisei de justificativa para adotar você, um anjo caído. Aceitei-o, e isso é tudo.&lt;br /&gt;- Errado. Você me aceitou porque precisava de companhia, e eu apareci no momento oportuno. Se eu tivesse surgido enquanto você era componente de um grupo qualquer, sei que teria me dispensado e preferido continuar com amigos nos quais você depositava sua confiança não-correspondida. É óbvio que, se não fosse sua solidão aguda, não daria valor a minha companhia.&lt;br /&gt;- Não é verdade!- respondi indignado.- Acha que sou interesseiro? Não gosto de você por simplesmente me fazer companhia, mas por me ser a melhor delas. Eu não teria feito o pacto de união se tivesse a menor perspectiva de me arrepender depois.&lt;br /&gt;- Ah, sim...- sussurrou ele.- Acontece que monopolizei a sua amizade, então sem concorrentes não sei o quanto valho. Além do mais, eu o ajudo; nesse caso, voltando a falar sobre evolução dos seres, você progrediu ao me aceitar, e talvez eu possa dizer o mesmo de minha parte. Concorda?&lt;br /&gt;- Decerto. Quem além de você conseguiu me mostrar um pouco mais de como é a sensação de liberdade?&lt;br /&gt;Dito isso, receei tê-lo magoado; pois ele me contava coisas sobre outras realidades, fatos de tempos remotos, descrevia regiões vastíssimas de pontos distantes do universo: Era o que Semjaza tivera por liberdade e agora, unindo-se comigo em juramento mútuo, talvez nunca mais a tivesse, pois estava limitado à minha realidade, a este mundo, e assim tinha sido desde que ele, após a decisiva rebelião contra o Demiurgo, fora vencido e fugido dos reinos superiores. Caindo a este plano, desamparado e agonizante, precisava de um simbionte para sobreviver, e eu me comprometi a preencher essa necessidade.&lt;br /&gt;- A liberdade...- eu repeti em voz baixa, olhando para as nuvens de chuva que se aproximavam.- Deve ser maravilhosa, não?&lt;br /&gt;- Costumava ser- ele respondeu secamente, olhos fixos na relva e uma expressão abatida de nostalgia.&lt;br /&gt;- Mas vamos, ela não está perdida ao todo. Lembre-se do que disse sobre ambição e justificativa: eis a sua esperança, e você tem alguma. Então me diga, qual sua ambição? Como é que você se sentiria verdadeiramente livre?&lt;br /&gt;Semjaza cruzou os braços e olhou na direção do céu imenso, cheio de construções de luz e névoa.&lt;br /&gt;- Se eu pudesse voar outra vez. Sim, voar, e com as mesmas asas de antigamente, contra o vento, acima daquelas tempestades que estão vindo, até chegar a lugares que nunca vi, e lá das alturas observar o sol nascer e minguar por trás de montanhas muito abaixo. Talvez seja apenas por essa esperança que continuo vivendo. Se eu conseguisse essa recompensa, guardaria para não soltar mais; Se encontrasse essa felicidade, desejaria viver para sempre.&lt;br /&gt;Enquanto ficamos ambos em silêncio, escutando a canção lacrimosa que o vento frio soprava pelas folhas, garanti a mim mesmo que nenhuma criatura desiste de agarrar-se à evolução.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112480885925245994?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112480885925245994/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112480885925245994' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112480885925245994'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112480885925245994'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/anjo-cado-i.html' title='Anjo Caído (I)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112460010046103088</id><published>2005-08-21T01:49:00.000-03:00</published><updated>2007-10-09T03:30:26.925-03:00</updated><title type='text'>Evasão (Devaneio de um não-romântico)</title><content type='html'>Não é na torre do vício que evado,&lt;br /&gt;Nem em cantos obscuros sonho apenas.&lt;br /&gt;Há muito não tendo do seco enfado&lt;br /&gt;Fugir, através das canções amenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estão as exaltações dos feitos?&lt;br /&gt;Foram-se? Perfeição! E quem precisa&lt;br /&gt;De alguns fatores longe de perfeitos&lt;br /&gt;E de uma grande ação nada concisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estão vossos heróis? Onde estão?&lt;br /&gt;Fugiram? Suspeitei desde o começo.&lt;br /&gt;Eu sempre soube que seria em vão&lt;br /&gt;Acreditar que tal sina mereço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As evaporadas gotas de orvalho&lt;br /&gt;Seguiram para o escuro Firmamento?&lt;br /&gt;Hei de encontrar esse Destino falho&lt;br /&gt;E dizer-lhe: “Fugir-te almejo e tento!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as frias, lúcidas estrelas&lt;br /&gt;Sussurram diamantinas chuvas. Dores&lt;br /&gt;Teriam aquelas que não podem tê-las&lt;br /&gt;Olhando-lhes os olhos incolores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo nenhum abrigo sem&lt;br /&gt;Que alguém a chutes e gritos me enxote.&lt;br /&gt;Existe quem saiba fazer o bem?&lt;br /&gt;(Quero dizer, além do Dom Quixote...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vede ali o Rocinante, tão delgado,&lt;br /&gt;Mas não tanto quanto eu, digo e protesto.&lt;br /&gt;Digo outra vez: Não é do seco enfado&lt;br /&gt;Que fujo em desventuras de molesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não hei medo de morte e de destino,&lt;br /&gt;Nem de cancerosa melancolia.&lt;br /&gt;Impossibilidades não atino,&lt;br /&gt;Mas ironias ao que não faria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viciosos, apartai-vos já de mim!&lt;br /&gt;Monótonos, sombrios ide ser longe,&lt;br /&gt;E se fordes, chegai até o fim,&lt;br /&gt;Até onde nem um mais orbe tange.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podeis rir, já passamos tempo algum&lt;br /&gt;À deriva no spleen com que vos tento.&lt;br /&gt;Querei sonhos cinzentos?Não tive um;&lt;br /&gt;Se não há nada, sobra o pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta de morbidez, basta de aurora&lt;br /&gt;Vermelha em praias vastas, do vazio&lt;br /&gt;De quem permaneceu-- tendo ido embora&lt;br /&gt;Por longa estrada afora, ao vento frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sabeis, afinal? Que sabereis?&lt;br /&gt;Não sois sábios, homens, sois pragas, pestes&lt;br /&gt;Conhecedoras de restritas leis&lt;br /&gt;E sórdidas coisinhas que fizestes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois então, vinde! Caminhemos juntos&lt;br /&gt;Até o cais sem navios, portos fechados,&lt;br /&gt;Falando sobre diversos assuntos&lt;br /&gt;E esquecendo todos os nossos fados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112460010046103088?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112460010046103088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112460010046103088' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112460010046103088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112460010046103088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/evaso-devaneio-de-um-no-romntico.html' title='Evasão (Devaneio de um não-romântico)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112437737459579208</id><published>2005-08-18T11:57:00.000-03:00</published><updated>2007-10-09T02:43:58.459-03:00</updated><title type='text'>Soneto de Insubordinação.</title><content type='html'>&lt;em&gt;Dedicado ao Senhor Vosso Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(... o VOSSO, como já dizia o monsenhor Pharoux)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não te chamo Senhor, tampouco Deus,&lt;br /&gt;Até que eucompartilhe as glórias tuas.&lt;br /&gt;Não quero apenas uma só, nem duas:&lt;br /&gt;Quero que os cosmos todos sejam meus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comigo não haverá mais ateus!&lt;br /&gt;Proclamarão qualquer fé pelas ruas,&lt;br /&gt;E erguendo as vozes, com palavras cruas,&lt;br /&gt;Dirão: Adeus, divindades! Adeus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é vingança e nem justiça-- É fato!&lt;br /&gt;Por que pesmitiste que fosse inato&lt;br /&gt;O infinito desejo de vitória?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim deste armas ao teu próprio imigo.&lt;br /&gt;Baixando os olhos, caminho contigo&lt;br /&gt;Em direção, talvez, à sina inglória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112437737459579208?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112437737459579208/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112437737459579208' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112437737459579208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112437737459579208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/08/insubordinao.html' title='Soneto de Insubordinação.'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112278380464856418</id><published>2005-07-31T01:19:00.000-03:00</published><updated>2005-07-31T01:35:22.623-03:00</updated><title type='text'>Solvet saeclum in favilla...</title><content type='html'>Sou eu quem vai falar; Deuses, ouvi-me&lt;br /&gt;A voz, e bem elevada voz, pois&lt;br /&gt;Sabeis (e bem sabeis) que não é crime&lt;br /&gt;Gritar antes a quem ouve depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deuses, é noite! É noite má e nefanda&lt;br /&gt;Hoje, dia da ira, dia quando&lt;br /&gt;Em cinzas queima a trilha de quem anda,&lt;br /&gt;Sob chamas céus e terras queimando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deuses, maus e nefandos vós sereis?&lt;br /&gt;Nem sei, não vos conheço, mas notai&lt;br /&gt;Que conheço bastante as vossas leis--&lt;br /&gt;Quem foi que as redigiu, o Filho ou o Pai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, dia de ira, dia de chamas&lt;br /&gt;Por todo o Panteão mau e nefando;&lt;br /&gt;Tu, Panteão, que ao mundo vais e clamas&lt;br /&gt;Enquanto rezo irônico, cantando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós que sois magnos, vós que sois divinos&lt;br /&gt;Deveis calar-vos sem a minha ajuda,&lt;br /&gt;Ou de qualquer um que entoasse os hinos&lt;br /&gt;Dizendo, ao fim do mundo, “Deus me acuda!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acontece, volta; O que acontece&lt;br /&gt;Conosco o é convosco, Deuses, vede&lt;br /&gt;O mundo e ouvi qualquer e toda prece;&lt;br /&gt;Também é vossa a alheia fome e sede.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112278380464856418?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112278380464856418/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112278380464856418' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112278380464856418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112278380464856418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/07/solvet-saeclum-in-favilla.html' title='Solvet saeclum in favilla...'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-112136043327483813</id><published>2005-07-14T13:52:00.000-03:00</published><updated>2005-07-14T14:00:33.276-03:00</updated><title type='text'>A Esfinge (continuação)</title><content type='html'>Aquela punir Laio não queria,&lt;br /&gt;Mas sim a todo mundo causar ruína;&lt;br /&gt;Sutil, traiçoeira, perigosa, esguia...&lt;br /&gt;E de mistério luz quase divina,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fúria ora reprimida, ora iminente,&lt;br /&gt;Mesmo que ali presente desde o início--&lt;br /&gt;E garra, e palavra ferina, e dente,&lt;br /&gt;E contra corpo e alma todo artifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então lhe perguntei o que sentia;&lt;br /&gt;Por que aquele semblante é tão soturno?&lt;br /&gt;Por que aquela expressão ao extremo fria,&lt;br /&gt;Como da vida esperasse outro turno?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que nos olhos há raiva tamanha?&lt;br /&gt;Por que no pensamento a névoa escura,&lt;br /&gt;Como neblinas de uma terra estranha&lt;br /&gt;Em cujos campos vida não perdura?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Decifra-me!”, ele apenas respondeu,&lt;br /&gt;“Ou carne fresca hei de te devorar,&lt;br /&gt;Deleitar-me com o sangue quente teu,&lt;br /&gt;Fazendo rubra a Terra como o Mar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menos que ainda te encontres disposto&lt;br /&gt;A responder aquilo que proponho,&lt;br /&gt;Enigma este que a muitos já hei imposto;&lt;br /&gt;Se errares terás destino medonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enigma simples, óbvio, realmente,&lt;br /&gt;Mas cuja solução ninguém descobre.&lt;br /&gt;Estou invicto, conquanto se tente;&lt;br /&gt;Pois não há de bastar resposta pobre!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo: “Hei de aceitar com boa vontade&lt;br /&gt;Jogar este jogo de vida ou morte,&lt;br /&gt;Mesmo que eu morra... ou pior, me enfade,&lt;br /&gt;Mas já te aviso: tenho muita sorte;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nada temo por mim mesmo agora,&lt;br /&gt;Mas é de ti que guardo alguma pena,&lt;br /&gt;Caso contrário iria logo embora,&lt;br /&gt;Deixando tua ira bem mais amena...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo teu interior tão sem suporte...&lt;br /&gt;Assim me surgem vontades intensas&lt;br /&gt;De te ajudar a ser bravo, a ser forte,&lt;br /&gt;Pois tu tens mais potencial do que pensas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acender alguma luz de bondade&lt;br /&gt;Ou dar-te alívio outro ao sofrimento.&lt;br /&gt;Não penses que sou mais um ser que invade,&lt;br /&gt;Pois dar-te ajuda é aquilo que eu intento!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hei de jogar, já que escolha não vejo&lt;br /&gt;Que defrontar não seja esta tua ira,&lt;br /&gt;A qual, percebo, não dará ensejo&lt;br /&gt;De aplacar com gesto que também fira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é sangue de que tu necessitas,&lt;br /&gt;Mas sim compreensão, caridade, afeto,&lt;br /&gt;Pois esta raiva que em ti mesmo incitas&lt;br /&gt;Não te fará seguir caminho reto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O qual, já vejo, o mundo te há negado,&lt;br /&gt;Mas oportunidade eu te ofereço.&lt;br /&gt;Burlemos teu ocaso malfadado!&lt;br /&gt;Ah, sim, vou te ajudar a qualquer preço!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------------------------------------------&lt;br /&gt;Bem... um dia o "Édipo" termina de falar  (afinal de contas, ouvido de esfinge não é penico) e decifra isso de uma vez. Enquanto isso, nem sei u.u&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-112136043327483813?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/112136043327483813/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=112136043327483813' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112136043327483813'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/112136043327483813'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/07/esfinge-continuao.html' title='A Esfinge (continuação)'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-110791522323232359</id><published>2005-02-08T23:06:00.000-03:00</published><updated>2005-02-08T23:13:43.233-03:00</updated><title type='text'>A Esfinge</title><content type='html'>O monstro fitei no meio da estrada,&lt;br /&gt;Sentado sobre uma rocha, imponente--&lt;br /&gt;Talvez ao seu redor não vendo nada&lt;br /&gt;Que se movesse ali naquele instante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por trás das árvores, da densa relva,&lt;br /&gt;Ali naquelas afastadas matas--&lt;br /&gt;Desafiador, mas vi que perscrutava&lt;br /&gt;Do seu mistério vítimas incautas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximei-me e pus-me a contemplar&lt;br /&gt;Aquele ser solitário e tristonho,&lt;br /&gt;De impenetrável enigma, estranho ar,&lt;br /&gt;E alguma névoa aparente de sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém me pareceu inofensivo!&lt;br /&gt;Em tais criaturas não vejo perigo;&lt;br /&gt;Muito tempo já faz que assim eu vivo,&lt;br /&gt;E mortais seres a mostrar-se instigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que eu o avaliei de baixo ao alto,&lt;br /&gt;Mas nada vi de muito interessante.&lt;br /&gt;Nada de movimento, ataque ou salto&lt;br /&gt;Repentino que alguém como eu espante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem de longe me pareceu ameaça,&lt;br /&gt;Apenas outra pedra no caminho.&lt;br /&gt;“Pois bem”, pensei, “que fique ali e não faça&lt;br /&gt;Nenhum gesto que eu tome por mesquinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com passos largos fui até a criatura,&lt;br /&gt;A confrontá-la decidido ainda;&lt;br /&gt;Os sons ecoaram pela estrada escura,&lt;br /&gt;Perdendo-se na solidão infinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei fundo nos olhos azulados,&lt;br /&gt;Aparente insondável fortaleza&lt;br /&gt;Protegida por mil encouraçados&lt;br /&gt;E que a todo afortunado despreza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhos azuis, mas que após uns momentos&lt;br /&gt;(Não sei se posso afirmar com certeza)&lt;br /&gt;Pareceram ficar amarelentos,&lt;br /&gt;Como de uma faísca fúria acesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mudança um tanto inesperada,&lt;br /&gt;Mas que me não fez perder a coragem:&lt;br /&gt;Nem desembainhei a minha espada,&lt;br /&gt;Tampouco fugi por entre a ramagem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque nele eu identifiquei algo&lt;br /&gt;Que em mim despertou certa simpatia.&lt;br /&gt;Devo dizer que até hoje ainda indago&lt;br /&gt;Se aquele ser realmente me sorria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci às profundezas daquela alma&lt;br /&gt;Já farta de se ver atormentada&lt;br /&gt;Por todas as marés; até por calma&lt;br /&gt;Brisa gentil em uma hora inadequada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou inimigos, pelo mundo afora,&lt;br /&gt;Que execram por certo a anormalidade.&lt;br /&gt;Aquilo não me faz dali ir embora,&lt;br /&gt;Mas sim de ficar me deu mais vontade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi em seu rosto, de mártir seu semblante,&lt;br /&gt;A mágoa que de todo o mundo encerra.&lt;br /&gt;Ah, sim, deveras um sinal gritante&lt;br /&gt;Do quanto a humanidade lhe fez guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser esta a razão pela qual&lt;br /&gt;Diverte-se, vinga-se tão cruelmente:&lt;br /&gt;Nunca há sido tratado como um igual;&lt;br /&gt;Jamais, nem mesmo entre sua própria gente.&lt;br /&gt;---------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hum... algum dia vai aparecer o resto...&lt;br /&gt;Por enquanto foi o deu para fazer.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-110791522323232359?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/110791522323232359/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=110791522323232359' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110791522323232359'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110791522323232359'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2005/02/esfinge.html' title='A Esfinge'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-110296036031139242</id><published>2004-12-13T14:34:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:11:23.143-03:00</updated><title type='text'>Inestimável!...</title><content type='html'>Outro poema livre e branco aí, além de meio lúcido e meio gagá.&lt;br /&gt;-----------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo ganhei um presente;&lt;br /&gt;E é lamentável que nunca o tenha percebido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais o considerei valioso:&lt;br /&gt;No início não parecia grande,&lt;br /&gt;Nem brilhante,&lt;br /&gt;Nem pomposo,&lt;br /&gt;Nem divertido,&lt;br /&gt;Ou caro,&lt;br /&gt;Ou invejável,&lt;br /&gt;Ou mesmo digno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim, esse presente&lt;br /&gt;Não parecia coisa que se ostentasse por aí...&lt;br /&gt;Sequer tinha valor sentimental,&lt;br /&gt;Exceto quando prestes a perdê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não parecia único,&lt;br /&gt;Nem especial,&lt;br /&gt;Nem criativo,&lt;br /&gt;Ou original,&lt;br /&gt;Tampouco incrível,&lt;br /&gt;Excelso,&lt;br /&gt;E muito menos extraordinário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes, admito, cogitei deixá-lo,&lt;br /&gt;Entregá-lo a quem se interessasse mais,&lt;br /&gt;Ou destruí-lo em plena praça pública&lt;br /&gt;Na tentativa de chocar a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos eles sabem&lt;br /&gt;Que ganharam esse presente--&lt;br /&gt;...Só não sabem que sabem,&lt;br /&gt;E assim ficam alheios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que destino!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou brevemente&lt;br /&gt;E tratou de cobrir o meu presente sob areia.&lt;br /&gt;Eis que percebo estranhamente&lt;br /&gt;Que me havia enganado a seu respeito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, sim, esse presente,&lt;br /&gt;Entre todas as dádivas do mundo,&lt;br /&gt;É a que mais se pode ostentar por toda parte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Pois nada é mais valioso&lt;br /&gt;Que todos os céus e todas as terras,&lt;br /&gt;E milhões de planos e firmamentos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada consegue ser maior&lt;br /&gt;Que o tempo e o espaço infinitos,&lt;br /&gt;E a relatividade de todas as medidas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum brilho é mais forte e intenso&lt;br /&gt;Que o das luzes do mundo,&lt;br /&gt;Refletidas na imensidão insólita dos oceanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma fortuna é mais pomposa&lt;br /&gt;Que a simplicidade da complexa natureza&lt;br /&gt;E a justa rigidez das leis imutáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum divertimento é mais inesquecível&lt;br /&gt;Que a emoção de desvendar os grandes mistérios&lt;br /&gt;E explorar os pontos mais ignotos do próprio retiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum objeto é mais caro que aquele&lt;br /&gt;Que tem um valor indetrminado,&lt;br /&gt;E pelo qual não se dá nem uma moeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que seria, afinal, mais invejável,&lt;br /&gt;Que a chance de ser o que se é&lt;br /&gt;E ser o que mais se pode tornar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora! O que é também mais digno&lt;br /&gt;Que os atributos da suposta sapiência&lt;br /&gt;E para o pensamento força e ensejo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse presente é único; Recebendo não se troca,&lt;br /&gt;Por isso mesmo é mais especial que qualquer artefato,&lt;br /&gt;Mais criativo e original que qualquer obra-prima,&lt;br /&gt;Incrível como todo milagre realizado por mãos excelsas;&lt;br /&gt;O que seria então mais extraordinário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais?...&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;Ah, sim!...&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo ganhei um presente;&lt;br /&gt;E é lamentável que nunca o tenha percebido...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-110296036031139242?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/110296036031139242/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=110296036031139242' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110296036031139242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110296036031139242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/12/inestimvel.html' title='Inestimável!...'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-110116327950898706</id><published>2004-11-22T19:28:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:09:48.976-03:00</updated><title type='text'>Não Mandeis Ladrilhar!</title><content type='html'>“O Universo requer a eternidade... por isso afirmam que a conservação deste mundo é uma perpétua criação e que os verbos ‘Conservar e Criar’, tão contrastantes aqui, são sinônimos no céu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JORGE LUIS BORGES&lt;br /&gt;-----------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo sem postar, vai este poema mesmo, de versos livres e sem rima, mas deixa. A citação acima do Borges, do livro "História de la Eternidad", pareceu adequada ao tema.&lt;br /&gt;-------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não Mandeis Ladrilhar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não é vossa esta rua, esta rua demasiado cheia de brilhantes,&lt;br /&gt;Mas sem fumaça, sem rubras chamas decadentes,&lt;br /&gt;Não é vosso este esplêndido, onipresente verde&lt;br /&gt;Sobre as castanhas trilhas do infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não derrubeis os vastos continentes superiores,&lt;br /&gt;Os continentes sessenta metros acima da terra;&lt;br /&gt;Não provoqueis tal genocídio, profanação,&lt;br /&gt;Maldito extermínio biogenético generalizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se dizeis que universal é o patrimônio,&lt;br /&gt;Cuidai dele como os bons Princípios&lt;br /&gt;Cuidam deste imensurável universo&lt;br /&gt;E cuidam bons progenitores de seus filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sois bons pais. Sois irresponsáveis&lt;br /&gt;Demais para a grandeza de vossas crianças,&lt;br /&gt;As ainda insuperáveis vozes da Inocência&lt;br /&gt;Original, sem o suposto dom de vossas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorando a vossa hedionda presença&lt;br /&gt;E vossas mãos sempre ávidas por morte,&lt;br /&gt;Por devastação, pela ruína, pela glória,&lt;br /&gt;Erguendo vossas construções por toda parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insensatos, tentando distorcer as tais crianças&lt;br /&gt;Segundo a vossa própria pérfida mesquinharia,&lt;br /&gt;Segundo o movimento mortal de vossas mãos,&lt;br /&gt;Que conduzem a devastadora orquestra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequenez de vossas almas não consegue&lt;br /&gt;Compreender o oculto valor do que está velado&lt;br /&gt;Por trás de cada uma daquelas folhas&lt;br /&gt;Aqui, acima, abaixo, atrás, adiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é o desejo das crianças construir&lt;br /&gt;Grandes e férreas estruturas sob o céu cinzento,&lt;br /&gt;Extinto céu, horrendas nuvens tóxicas&lt;br /&gt;Chovendo sobre trilhas fumegantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Banidas foram todas as aves sobre a terra,&lt;br /&gt;Nenhum canto é ouvido na primavera silenciosa--&lt;br /&gt;A nenhum condor restou a liberdade;&lt;br /&gt;Nem fênix mais ressurge de suas cinzas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram todos os continentes superiores derrubados,&lt;br /&gt;Cinzas ao vento, flamas em tempestade.&lt;br /&gt;Onde está agora aquele antiqüíssimo Bosque&lt;br /&gt;No qual outrora as crianças costumavam brincar?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-110116327950898706?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/110116327950898706/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=110116327950898706' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110116327950898706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/110116327950898706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/11/no-mandeis-ladrilhar.html' title='Não Mandeis Ladrilhar!'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109987547737171464</id><published>2004-11-07T21:44:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:07:47.616-03:00</updated><title type='text'>O ILUSIONISTA</title><content type='html'>Na falta do que postar, vai mesmo esta coisa estranha e bem conveniente.&lt;br /&gt;-------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ilusionista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indefinidos dons, deslocamentos,&lt;br /&gt;Sensação de algo estranho, diferente,&lt;br /&gt;E os imperceptíveis movimentos&lt;br /&gt;Feitos aqui, aos olhos bem em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Projeções em mui plena claridade,&lt;br /&gt;Formas, silhuetas, cores na penumbra,&lt;br /&gt;Fisionomias sem realidade&lt;br /&gt;E os fragmentos translúcidos da Sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sutis sensações de premonição,&lt;br /&gt;Percepções dos vastos mundos internos,&lt;br /&gt;Do liso atrito frágil do Verão&lt;br /&gt;À rígida leveza dos Invernos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ecos de mil sussurros guturais,&lt;br /&gt;Graves e agudas orações e ritos;&lt;br /&gt;Inconsistentes timbres de animais&lt;br /&gt;E a acústica ultra-sônica dos Gritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Processo cognitivo das visões,&lt;br /&gt;Brilhos opacos, sem perspectivas--&lt;br /&gt;Tenores, luzes, reverberações,&lt;br /&gt;Pictóricas dimensões inativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Transparentes, impermeáveis texturas,&lt;br /&gt;Mortais ondulações de horrendos cantos,&lt;br /&gt;Vagas vibrações de umidade impura,&lt;br /&gt;Visões dos vultos em seus densos mantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O farfalhar das folhas inodoras&lt;br /&gt;Sobre o lago de esféricas Neblinas;&lt;br /&gt;Reflexos dos perfis de infindas horas,&lt;br /&gt;Dialetos, fogos, fragrâncias e sinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descrições de ásperas áureas, magias&lt;br /&gt;Leves sobre os rochosos Monumentos--&lt;br /&gt;Por sua vez, sobre páginas doentias&lt;br /&gt;E amaras letras de ocultos intentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lentos infra-vermelhos oscilantes&lt;br /&gt;Revelando a palpitação do corte&lt;br /&gt;Aberto não no início-- Ainda antes&lt;br /&gt;De existir toda Vida e qualquer Morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O crepitar das místicas fogueiras&lt;br /&gt;Dispersa a claridade asfixiante&lt;br /&gt;Para os confins das regiões inteiras,&lt;br /&gt;Até o Além, a terra mais distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distúrbios de brumas evanescentes--&lt;br /&gt;Holografias de aparências calmas:&lt;br /&gt;Toques das mãos estáticas dos entes&lt;br /&gt;Que escutam o grito afônico das Almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Progressivo sabor dos sons gelados,&lt;br /&gt;Introspectivo contraste já inato&lt;br /&gt;Entre alturas, exaltações, enfados,&lt;br /&gt;Transformações quiméricas do tato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109987547737171464?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109987547737171464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109987547737171464' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109987547737171464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109987547737171464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/11/o-ilusionista.html' title='O ILUSIONISTA'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109918480343006379</id><published>2004-10-30T21:29:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:04:45.330-03:00</updated><title type='text'>"Dietas" Já!</title><content type='html'>Uma outra redação aí, propriamente sobre o vestibular.&lt;br /&gt;-------------------------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra "vestibular" não é oriunda de &lt;em&gt;vestíbulo&lt;/em&gt;, "passagem estreita"? Pois bem... aí é que está o meu primeiro grande obstáculo: sou gordo demais! Sendo assim, como vou passar através? Provavelmente não é de lipídios que as universidades precisam no momento; talvez já o tenham em quantidade suficiente. Lá dentro, indubitavelmente, há muitas pessoas que nunca na vida fizeram exercícios. Preciso realmente emagrecer? Ora, definitivamente não parece nada correto o fato de apenas a aparência designar inteiramente uma pessoa. Se nem mesmo o rosto pode mostrar o que alguém verdadeiramente é, imagine então a barriga...!&lt;br /&gt;Ah, sim, seria uma injustiça e uma calúnia dizer que meus pais pressionam-- O que eles fazem é dar conselhos, mas... francamente! &lt;em&gt;Aconselhar-me uma dieta&lt;/em&gt;! Onde já se viu?&lt;br /&gt;Vejamos se consigo passar sem precisar atingir a desnutrição. Todavia, não é justo! Exigem de mim cortar (ou pelo menos moderar) as minhas melhores fontes de alimentação! Bem... moderar, é possível. Abster-me, jamais! Creio que não deve ser necessário tornar-me um faquir para ser aprovado no vestibular.&lt;br /&gt;Tais conselhos eu ouço com aparente atenção, mas logo em seguida sinto o impulso de recorrer à geladeira, até me fartar de calorias. Ótimo, perfeito, muito bem. É válido dizer que, se tenho formato de barril, isso não se deve a nenhum lanche de fast food. Arre! Eca! Ptuá! Não é disso que me costumo empanturrar! Também não esbanjo comida natural, mas faço alguma idéia do que me é proveitoso ao organismo... As universidades é que não sabem!!&lt;br /&gt;Pensando bem, tive uma idéia melhor: um esforço momentâneo, algo que nem seria considerado um sacrifício— Encolher bastante a barriga, não respirar, espremer-me pela fenda e... passar! Então, uma vez lá dentro, poderei respirar bem fundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109918480343006379?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109918480343006379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109918480343006379' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109918480343006379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109918480343006379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/10/dietas-j.html' title='&quot;Dietas&quot; Já!'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109710779584003230</id><published>2004-10-14T16:55:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:03:13.680-03:00</updated><title type='text'>Continuação-- Névoas do Retiro</title><content type='html'>Também uma meio velha redação do colégio, e como parece continuação daquela anterior, então vai:&lt;br /&gt;-------------------------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escalei as montanhas que se erguiam a seguir, já a incontável distância da orbe. Logo me encontrei nas alturas enevoadas, em meio a milhares de figuras luminosas que sobrevoavam as densas nuvens. Despertou-se-me a obsessão pelo Infinito.&lt;br /&gt;Passando para o cimo, finalmente pus-me a vagas pelos campos etéreos, pelas terras oníricas, pelas regiões inexistentes. Grandes templos, altos obeliscos; onipresente a névoa, verde terra e céu cinzento. O sol daquele mundo deserto brilhava alaranjado. Convicto de estar na direção certa, contemplei com esperança e, ao mesmo tempo, nostalgia, o novo oceano acima. Segui mais depressa, pois sabia que o fim se encontrava pouco além.&lt;br /&gt;Chegando ao portão derradeiro, fiz a minha decisão crucial. Não foi nada difícil realizar este sacrifício, esta renúncia: deixei a mim mesmo na soleira e prossegui.&lt;br /&gt;Após todas essas encruzilhadas, ali estava o final da trilha. Diante de mim, as gigantescas Torres do ignoto.&lt;br /&gt;Ao redor da base, os campos, as florestas e montanhas; cercando o topo, apenas as névoas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109710779584003230?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109710779584003230/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109710779584003230' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109710779584003230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109710779584003230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/10/continuao-nvoas-do-retiro.html' title='Continuação-- Névoas do Retiro'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109709777581290750</id><published>2004-10-06T18:01:00.000-03:00</published><updated>2006-11-09T22:02:02.593-03:00</updated><title type='text'>Encruzilhadas-- Devaneio do Além</title><content type='html'>Meio antiga redação de colégio, sem contar a epígrafe:&lt;br /&gt;---------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Achei-me  numa tenebrosa selva,&lt;br /&gt;Tendo perdido a estrada verdadeira."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu primeiro passo, a encruzilhada inicial, foi igual ao de Dante, mas no meu caso não apareceu nenhum guia. Ainda assim, eu me sentia muito bem. Solitária deve ser a jornada, essa era a preferência naquele momento.&lt;br /&gt;Perdi-me  totalmente após sete minutos. Apressado, eu queria chegar logo, sem desperdiçar tempo. Desorientado, arrisquei um atalho para um nível alternativo. Passei a outro plano e fui caminhando sob uma fina chuva de granizo e fogo. Quando o odor sulfúrico se tornou bastante incômodo, busquei abrigo no fundo das gretas abertas no solo rubro.&lt;br /&gt;Os submundos eram bem mais vastos, seus oceanos mais inquietos, lançando às alturas imensos redemoinhos de vento enquanto mergulhavam meteoros na imensidão insólita dos Mares.&lt;br /&gt;Eu estava decepcionado-- queria chegar ao centro, porém caí nos subúrbios. Retomei a trilha original, pensando em rotas melhores. Segui o rumo diagonal: sempre acima e adiante, até as muralhas do mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109709777581290750?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109709777581290750/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109709777581290750' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109709777581290750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109709777581290750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/10/encruzilhadas-devaneio-do-alm.html' title='Encruzilhadas-- Devaneio do Além'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109491798655358309</id><published>2004-09-11T13:52:00.000-03:00</published><updated>2004-10-06T21:18:17.710-03:00</updated><title type='text'>Discurso</title><content type='html'>"Você precisa discursar-- É a nossa única esperança."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Esperança..."&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Após esse breve diálogo no filme&lt;/em&gt; O Grande ditador&lt;em&gt;, o barbeiro judeu&lt;/em&gt; (Chaplin), &lt;em&gt;confundido com um violento ditador, segue até os microfones e faz o seu imortal discurso, o qual até hoje, mais de 60 anos após o filme-- e exatamente três após os atentados às Torres Gêmeas--, permanece atual e pertinente. Sua principal nensagem: Sejamos mais humanos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Sinto muito, mas eu não quero ser um imperador- não é essa a minha ocupação. Não quero governar nem conquistar ninguém. Gostaria de ajudar a todos, se for possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos queremos ajudar uns aos outros, é assim que são os seres humanos.&lt;br /&gt;Todos queremos viver pela felicidade das outras pessoas, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar aos outros. Neste mundo há espaço para todos, a terra é rica e pode satisfazer às necessidades das pessoas.&lt;br /&gt;O caminho da vida pode ser livre e belo!&lt;br /&gt;Mas nós nos desviamos do caminho.&lt;br /&gt;A ganância envenenou as almas dos homens – bloqueou o mundo com o ódio; levou-nos com passo de ganso à miséria e ao derramamento de sangue. Nós desenvolvemos a velocidade, mas nos trancafiamos dentro dela: a máquina que nos dá abundância nos deixou na necessidade. Nosso conhecimento nos tornou cínicos, nossa inteligência nos tornou duros e insensíveis. Pensamos muito e sentimos demasiado pouco: Mais que máquinas, precisamos de humanidade; Mais que inteligência, precisamos de bondade e compreensão. Sem essas qualidades, a vida será violenta e tudo estará perdido.&lt;br /&gt;O avião e o radio nos aproximaram. A própria natureza dessas invenções grita pela bondade nos homens, pela fraternidade universal, pela união de todos. Agora mesmo minha voz chaga a milhões de pessoas ao redor do mundo, milhões de homens desesperados, e mulheres e criancinhas, vítimas de um sistema que tortura e aprisiona pessoas inocentes. Para os que podem me ouvir eu digo: “Não desespereis!”.&lt;br /&gt;A desgraça que agora está sobre nós é nada mais que a passagem da ganância, a amargura daqueles que temem o progresso humano: o ódio dos homens é passageiro, os ditadores morrem, o poder que tomaram do povo retornará para o povo, e por mais que agora morram pessoas, a liberdade nunca perecerá...&lt;br /&gt;Soldados – não vos entregueis a estes brutais que vos desprezam e escravizam- que regem vossas vidas, dizem o que fazer, o que pensar, o que sentir, que vos disciplinam, que voz fazem dietas, tratam-vos como gado, como balas de canhão.&lt;br /&gt;Não vos entregueis a homens desnaturados, mecânicos, com mentes e corações de máquina. Não sois máquinas, e nem gado, mas homens, com o amor da humanidade em vossos corações. Não odieis – apenas os que não são amados odeiam. Soldados- não luteis pela escravidão, e sim pela liberdade.&lt;br /&gt;No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito "o reino de Deus está dentro do homem" – não um homem, e nem um grupo, mas em todos, em vós, o povo.&lt;br /&gt;Vós, o povo, tendes o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade, de tornar a vida livre e bela, torna-la uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, usemos esse poder- unamo-nos. Lutemos por um novo mundo, um mundo decente que conceda aos homens a chance de trabalhar, que dê futuro à juventude e segurança à velhice. Através dessas promessas, brutos chegaram ao poder, mas eles mentem. Não cumprem as suas promessas, e nunca cumprirão. Ditadores libertam a si mesmos e encarceram o povo. Agora lutemos para cumprir as promessas. Libertemos o mundo, abatendo as fronteiras nacionais, varrendo a ganância, o ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos.&lt;br /&gt;Soldados – em nome da democracia, unamo-nos!"&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;Erguei os olhos! As nuvens estão partindo, o sol está penetrando.Estamos saindo das trevas para a luz, chegando a um novo mundo, no qual os homens estarão acima do ódio e da irracionalidade. A alma do homem ganhou asas – e finalmente começa a voar. Vai para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, aquele glorioso futuro que pertence a todos nós. Erguei os olhos&lt;/em&gt;."&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109491798655358309?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109491798655358309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109491798655358309' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109491798655358309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109491798655358309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/09/discurso.html' title='Discurso'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109175699461908665</id><published>2004-08-05T22:25:00.004-03:00</published><updated>2006-11-09T21:56:44.830-03:00</updated><title type='text'>Aeterno</title><content type='html'>Um daqueles poeminhas surgidos na, por assim dizer, falta do que fazer no meio de uma aula de matemática.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-------&lt;br /&gt;AETERNO&lt;br /&gt;-------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai, gentis neblinas, as cantigas&lt;br /&gt;Dos mundos elevados, dos mistérios,&lt;br /&gt;Das terras nebulosas, das antigas&lt;br /&gt;Regiões formadas por campos etéreos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai! Cantai os surpreendentes feitos,&lt;br /&gt;Nos tempos de extintos seres ferozes,&lt;br /&gt;De Iluminados, de velhos eleitos,&lt;br /&gt;No vosso cristalino som das Vozes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai a vida e a morte destas flores&lt;br /&gt;Vibrantes, veludosas, triunfantes,&lt;br /&gt;De cores todas, ou mesmo incolores,&lt;br /&gt;Tendo depois surgido; ou tendo antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai, indefiníveis tons aéreos,&lt;br /&gt;Cantai em breve espaço a voz sumida&lt;br /&gt;Na sombra de antigos, duros impérios,&lt;br /&gt;Imigos e defensores da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai, em Voz suprema, os vãos momentos,&lt;br /&gt;Falsas fortunas, falsas honrarias&lt;br /&gt;De pseudo-heróis, aqueles nunca isentos&lt;br /&gt;De manchas cruas, sórdidas, doentias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai! Cantai às Luzes do infinito&lt;br /&gt;Os tons errantes na trilha sombria,&lt;br /&gt;A límpida cantiga que, já hei dito,&lt;br /&gt;Na densa névoa se desvanecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estão os cantos dos mundos de sonhos?&lt;br /&gt;Evocações, antífonas, corais;&lt;br /&gt;Distantes ecos de Timbres estranhos&lt;br /&gt;Que na penumbra gritam: “Nunca mais!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cantai! Antes que chegue o fim do mundo!&lt;br /&gt;Cantai! Antes que tudo seja em vão!&lt;br /&gt;Ouvi! Lá do Infinito é oriundo&lt;br /&gt;Altissonante brado: “Ainda não!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazei encerrar o Tempo neste instante!&lt;br /&gt;Fazei minguar a força de quem invade!&lt;br /&gt;Enfim chegou a hora! Enfim! Adiante!&lt;br /&gt;Cantai-- eternamente-- à Eternidade!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109175699461908665?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109175699461908665/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109175699461908665' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109175699461908665'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109175699461908665'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/08/aeterno.html' title='Aeterno'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-109088518491828258</id><published>2004-07-26T20:34:00.000-03:00</published><updated>2004-07-26T20:39:44.916-03:00</updated><title type='text'>Pecado Capital</title><content type='html'>Como não tenho tido muito tempo para atualizar aqui, então nada melhor que acrescentar um fragmento de ninguém menos que Kafka:&lt;br /&gt;“Há dois pecados capitais humanos dos quais todos os demais são derivados:a impaciência e a indolência. Foi por causa da impaciência que os homens foram expulsos do Paraíso; e é por causa da indolência que eles não retornam.&lt;br /&gt;Ainda assim parece que existe apenas um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos, e é por causa da impaciência que eles não retornam."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-109088518491828258?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/109088518491828258/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=109088518491828258' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109088518491828258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/109088518491828258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/07/pecado-capital.html' title='Pecado Capital'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-108603243126011700</id><published>2004-05-31T16:24:00.000-03:00</published><updated>2004-05-31T16:40:31.260-03:00</updated><title type='text'>Sonho Desvanecido</title><content type='html'>Quem nunca sentiu vontade de quebrar o despertador em pedaços ao ser por ele exilado da terra onde tudo é possível?&lt;br /&gt;Vem então a melancolia por ter perdido um sonho agradável e se encontrar na enfadonha e rotineira Realidade, plano existencial onde conhecemos a vilania dos seres corrompíveis, egoísticos e intolerantes. O desejo de se elevar à terra dos sonhos é o que se revela.&lt;br /&gt;Eis um poema dedicado a todas as vítimas de um injusto nível de realidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que dos sonhos da sublime terra&lt;br /&gt;À Realidade vil, desconhecida,&lt;br /&gt;Saltar, tentando encontrar esta vida&lt;br /&gt;Na qual todo bom devaneio encerra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para onde foram os nebulosos leitos?&lt;br /&gt;Caímos nas profundezas horrendas&lt;br /&gt;Nas quais rubras chamas jorram das fendas&lt;br /&gt;E dos abismos rútilos, estreitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às alturas não voltaremos mais:&lt;br /&gt;Agora são soturnas abissais&lt;br /&gt;Regiões que podemos vir a explorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Nunca mais hei de encontrar ensejo&lt;br /&gt;De conseguir aquilo que desejo--&lt;br /&gt;As longínquas terras chamar de lar!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-108603243126011700?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/108603243126011700/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=108603243126011700' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/108603243126011700'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/108603243126011700'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/05/sonho-desvanecido.html' title='Sonho Desvanecido'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7161062.post-108596536181413120</id><published>2004-05-30T21:52:00.000-03:00</published><updated>2004-05-31T19:52:02.126-03:00</updated><title type='text'>Nas Terras Desertas</title><content type='html'>Ninguém? Não há ninguém?&lt;br /&gt;Aqui estamos nós, as almas perdidas nos vastos mundos desertos. O que aconteceu com a férrea Humanidade? Desintegrou-se? Não, sublimou-se, foi dispersada e, ao que parece, elevada aos planos eternos, deixando para trás os vãos medíocres.&lt;br /&gt;Olhemos todos para o topo das Torres de Ferro! Haveremos de encontrar os mundos dos homens. Talvez nós mesmos possamos encontrar!&lt;br /&gt;Por hora, isto É o que Há. A eternidade. Os ventos, a tempestade, a névoa onipresente, o abismo ignoto e o conhecimento. E o que mais? Ora, o que mais não sei. Talvez só uns sonhos, e algumas companhias inconsistentes.&lt;br /&gt;Estamos sós! Todos os outros que vieram já passaram! Mas quem vai caluniar a solidão? Não é ela o nosso guia de amanhã? Sim, o amanhã, a eternidade!&lt;br /&gt;Adiante! Vamos atravesar o Além, procurando a desvanecida Humanidade! Talvez nós mesmos possamos encontrar!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7161062-108596536181413120?l=mundosdesertos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/feeds/108596536181413120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7161062&amp;postID=108596536181413120' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/108596536181413120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7161062/posts/default/108596536181413120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdesertos.blogspot.com/2004/05/nas-terras-desertas.html' title='Nas Terras Desertas'/><author><name>Sphynx</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13982736697546977929</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='23' height='32' src='http://bp2.blogger.com/_0PLcGN_1IxM/R9th-GYJzqI/AAAAAAAAAAM/fulPP7rkyEw/S220/1956544.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
