Sociedade das Almas Perdidas

Ultimamente não se vê por aí seres humanos; o que encontramos nas vastas terras são os profanos, habitantes das alturas de ferro, e fantoches, trancados nos quartos escuros por trás das cortinas que não querem remover. O que resta, então, são os hereges, as almas perdidas, rondando nos exterior das torres, em derredor do imenso campo enevoado. Onde estão as fronteiras? Onde está o limite? Quando se chega ao além, ao incognoscível?

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Local: Belém, Pará, Brazil

Domingo, Junho 20, 2010

O "velho mestre" do espetáculo

Steven Spielberg, George Lucas, James Cameron, Martin Scorsese e Stanley Kubrick são alguns dos nomes mais conhecidos e admirados do mundo do cinema.

Por algum motivo, o nome de sir David Lean (1908-1991), também chamado de “o velho mestre” e tido como grande inspiração pelos diretores acima, não é tão reconhecível quanto os deles pelo grande público hoje em dia – ainda que o cineasta britânico tenha sido responsável pelo oitavo maior sucesso de bilheteria de todos os tempos (“Doutor Jivago”, de 1965, cuja bilheteria só nos Estados Unidos equivaleria hoje a quase um bilhão) e recebido, consecutivamente, dois Oscars de diretor por “A Ponte do Rio Kwai” (1957) e “Lawrence da Arábia” (1962), que também levaram a estatueta de Melhor Filme.

A versátil carreira de Lean inclui pequenos dramas e romances como “Desencanto” (1945) e “Summertime” (1955), adaptações de clássicos da literatura como “Grandes Esperanças” (1946) e “Oliver Twist” (1948), e dramas de guerra como “A Ponte do Rio Kwai” e “Sangue, suor e lágrimas” (1942), esse último co-dirigido com Noel Coward.
Porém os filmes que mais marcaram o trabalho de Lean foram os megalomaníacos épicos como “Lawrence da Arábia” e “Doutor Jivago”.

É fácil compreender como a grandiloquência e elegância dos filmes de David Lean, seu uso de panorâmicas cheias não apenas de beleza como também de significado, a densidade psicológica e a construção realista de seus personagens, sua montagem incisiva e precisa, impressionaram os diretores citados no início, e muitos outros. Em março de 1990, Spielberg fez a seguinte declaração no American Film Institute: “Cheguei onde estou graças a David. Seus filmes que mais me influenciaram foram ‘A Ponte do Rio Kwai’ e ‘Lawrence da Arábia’. ‘Lawrence’ é fonte constante de inspiração, tudo o que se pode aprender está ali. ‘Lawrence’ está em algum lugar entre a Pedra Angular e o Santo Graal.”

De fato, David Lean concilia como poucos a forma e o conteúdo, de modo que a beleza plástica de seus filmes jamais é meramente ornamental ou supérflua. Um grande exemplo disso está logo em uma das cenas iniciais de “Doutor Jivago”, na qual o funeral da mãe do protagonista é preenchido pela esplêndida paisagem natural dos Urais. Em uma montagem de planos subjetivos impressionante, o fundo das grandes montanhas e o vento soprando a copa das árvores não aparecem como mero adorno visual da cena, mas como o próprio estado emocional de Yuri Jivago e sua evasão interior (início de um futuro grande poeta romântico) perante a solidão e a morte.

Além do mais, Lean virtuosamente desenvolve uma linguagem visual rica e sugestiva. Na abertura de “Oliver Twist”, cena em que uma mulher grávida caminha em um campo tempestuoso, o diretor usa a repentina inclinação da câmera para metaforizar as dores do parto. Um recurso semelhante é usado para mostrar o delírio de Adela Quested (Judy Davis) provocado pelo ambiente das misteriosas cavernas de Marabar em “Passagem para a Índia” (1984).

Em “Lawrence da Arábia” e “Passagem para a Índia”, o ambiente influencia diretamente a conduta dos personagens. Enquanto o primeiro apresenta um ponto de vista masculino (“Lawrence da Arábia” não tem uma só mulher no filme inteiro) e o segundo um ponto de vista feminino (a Índia vista por duas mulheres inglesas), ambos têm em comum a relação de seus protagonistas com o ambiente: britânicos em uma terra exótica no oriente, fascinados por sua natureza grandiosa – por vezes hostil – e a impressão que exerce sobre eles, chocando-se-lhes com a própria noção da sociedade, voltando-os de encontro a seu próprio povo.

Um eco leaneano dessa relação antagônica entre duas civilizações pode ser eventualmente apontado em “Avatar” (2009) de James Cameron, diretor que herdou de sir David a capacidade pictórica para compor espetáculos visuais em tomadas absolutamente impactantes. Outros fatores que os dois têm em comum são a personalidade marcante de suas protagonistas femininas, e, não menos interessante, o fato de serem diretores-editores.

Na edição, Lean também demonstra virtuosismo e grande detalhismo. Nesse aspecto, é preciso dedicar mais linhas a “Passagem para a Índia”, último filme da carreira de Lean, que além de adaptar o roteiro e dirigir, editou-o com as próprias mãos. Curiosamente, nos créditos iniciais do filme o nome de David Lean aparece, primeira e separadamente, como roteirista, para mais tarde reaparecer como diretor e editor ao mesmo tempo, nivelando as duas categorias no mesmo patamar.

Lean efetiva uma montagem de grande intensidade quando, pouco antes da referida cena da caverna, a idosa sra. Moore (Peggy Ashcroft) diz a Adela que “como muitas pessoas de idade, as vezes eu acho que somos apenas figuras passageiras, em um Universo sem Deus.” Quase toda a fala acontece em um plano próximo da sra. Moore, mas enquanto ela diz “em um Universo sem Deus”, Lean corta para uma imprevisível tomada da imensa lua, visível em pleno dia com suas crateras, como se estivesse extremamente próxima da Terra – e da sra. Moore –, evocando um sentimento de eternidade e vastidão enquanto a personagem fala sobre a morte e o vazio.

Outro grande momento da edição de “Passagem para a Índia”, e da carreira de Lean, é a seqüência quase onírica em que a sra. Moore conhece o indiano dr. Aziz (Victor Banerjee) em uma escura e silenciosa mesquita sobre o rio Ganges. O ponto de vista do dr. Aziz ao ter o primeiro vislumbre da sra. Moore, andando de branco como um fantasma, é um momento incrivelmente bem construído. Ao travar conhecimento com a sra. Moore, o doutor mostra-lhe o rio “terrível e maravilhoso”, e conta-lhe sobre os crocodilos. Mais tarde, a sra. Moore retorna para o clube inglês, onde o dr. Aziz não pode entrar, e ao escutar uma conversa de Adela com um aristocrata inglês, percebe o distanciamento frio que seu povo tenta a todo custo manter dos indianos. A conversa é interrompida quando o hino da Inglaterra começa a tocar, e todos ficam de pé. A sra. Moore, com desgosto e tristeza, volta lentamente a cabeça, e Lean corta de volta para uma tomada da luz da lua sobra o Ganges, com a cauda de um crocodilo emergindo rapidamente da água.

Quanto ao roteiro, sendo que boa parte de seus filmes são adaptações, Lean tomava grandes liberdades. Em “Passagem para a Índia”, roteirizado pelo próprio, modificou diversas passagens, excluiu personagens, ressaltou outros, criou um longo início que não existia no livro, adicionou um final diferente, em suma, criou uma visão inteiramente sua da obra de E. M. Forster.

Por outro lado, as adaptações de Lean das obras clássicas de Charles Dickens são fiéis na medida do possível. Inicialmente, contratou uma especialista na obra de Dickens, Clarence Dane, para escrever o roteiro de “Grandes Esperanças”. Porém não gostou do resultado dogmaticamente preso ao original, e decidiu adaptar ele mesmo o roteiro, permitindo-se condensar o romance, pular partes, fazer reduções. Certa vez afirmou: “escolha o que quer fazer do livro e faça, elimine personagens se for preciso”.

Em “Oliver Twist” fez exatamente isso, não seguindo passo a passo a obra de Dickens, imprimindo seu próprio estilo, mas mantendo o retrato realístico da pobreza, a crítica social e a ironia características do grande escritor da era vitoriana. Merece ser citado como exemplo disso o momento em que o presidente do conselho afirma em uma reunião: “este abrigo virou um lugar de entretenimento para as classes pobres”, e a cena corta para os abrigados trabalhando em condições insalubres. Evitando-se o melodrama, a pungência social é retratada por Lean com austeridade, empregando uma fotografia noir e ambientes decadentes e sombrios. O maior retrato de um ato desumano no filme é o assassinato de Nancy (Kay Walsh) pelas mãos do brutal Bill Sikes (Robert Newton), acontecimento que Lean não mostra diretamente, mas do ponto de vista do cão tentando desesperadamente escapar da cena do crime, apavorado pela selvageria de Sikes.

Porém, a adaptação mais desafiadora para Lean possivelmente foi a do romance ”Doutor Jivago”, do escritor russo Boris Pasternak (1880-1960). Trata-se de um romance monumental no estilo panorâmico de Dostoiévski, Tóstoi e Victor Hugo, com uma enorme galeria de personagens e inúmeros acontecimentos importantes abrangendo um amplíssimo espectro de tempo e espaço, com longos monólogos sobre história, filosofia, religião, moral, política, arte. Com o auxílio do roteirista Robert Bolt, Lean trabalhou durante um ano só para converter a obra ganhadora do prêmio Nobel em um roteiro. Mais uma vez, Lean varre do mapa inúmeros acontecimentos e personagens do romance, substituindo-os ou condensando-os. Os leitores de Pasternak certamente sentem a falta de personagens como Nikolai Nikolaievitch, o filósofo tio do protagonista, e que representa os ideais do autor; e de cenas comoventes como a doença de Anna Ivanovna e o discurso de Yuri Jivago preparando-a para a morte. Por outro lado, o forte conteúdo político da obra de Pasternak, ainda que amenizado, subsiste no filme: a desumanização e crueldade do regime soviético sobre seu próprio povo, bem como a destruição da individualidade, é sintetizada na figura do sanguinário Strelnikov (Tom Courtenay), o comandante vermelho que declara ao protagonista: “Eu admirava a sua poesia. Não a admiro mais, é absurdamente pessoal. Sentimentos afetivos são triviais. A vida privada está morta na Rússia.” Ao final do filme, a tomada de Lara (Julie Christie) desaparecendo sob um painel de Stálin é bastante icônica. No que diz respeito à narrativa, a diferença mais importante é que, enquanto o livro de Pasternak é linear, o filme se passa em um flashback narrado ao espectador pelo general Ievgrav (Alec Guinness), meio-irmão de Yuri Jivago (Omar Sharif). Ou seja, no início do filme já descobrimos que o destino subjugou os personagens principais.

O determinismo de Lean e a impossibilidade de escapar do destino, expresso pela narrativa em flashback, também é presente em outros filmes seus, especialmente em “Lawrence da Arábia”, que inicia com a morte acidental do herói. Em certo momento, durante a travessia de Lawrence (Peter O’Toole) pelo mortal deserto Nefud, um de seus companheiros árabes se perde. Quando Lawrence se decide a voltar para procurá-lo, o xeique Ali (Omar Sharif), ciente de que é uma missão impossível, tenta dissuadi-lo argumentando: “É o destino dele, está escrito”. Contrariando isso, Lawrence resgata o companheiro e, ao retornar, desafia o destino replicando ao xeique Ali: “Nada está escrito.” No entanto, posteriormente, o homem mata um membro de outra tribo árabe em uma rixa, e para evitar intermináveis retaliações, Lawrence se vê obrigado a executar com a própria arma o homem que havia salvado.

Seja em um drama pessoal ou um grandioso épico, os personagens de David Lean enfrentam obstáculos grandes: a pobreza, os sentimentos, a guerra, a loucura – em suma, na visão do diretor, o destino que não se pode deter.